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Alguns dos defensores da repetência no Brasil costumam mirar no alvo errado na hora de atacar os ciclos adotados por alguns Estados. Em geral, o que se diz é que "os ciclos acabam com a repetência e promovem a aprovação automática." Não é bem assim. Os ciclos não acabam com a repetência. Eles deveriam apenas dar mais tempo para o aluno recuperar o tempo perdido antes de ficar retido em uma série. A idéia, em si, faz sentido. O Brasil é um país que tem taxas de repetência absurdas, se comparadas com países desenvolvidos e em desenvolvimento. Quase todas as pesquisas educacionais feitas no Brasil mostram que o aluno repetente costuma ter rendimento pior do que o não repetente, o que o deixa desmotivado e pode levá-lo a abandonar a escola. Os ciclos são um eficiente método de evitar essa evasão. Geralmente, em vez de a repetência acontecer a cada ano, ela fica restrita a ciclos de três ou quatro anos. O problema nos ciclos no Brasil está na sua adoção, e não na idéia. Como toda e qualquer mudança pedagógica, os ciclos precisam ser melhor trabalhados pelos professores. A idéia do ciclo só é eficiente na busca da qualidade no ensino público quando a escola está preparada para dar atenção especial ao estudante que não conseguiu assimilar o conteúdo de um determinado ano letivo. O problema, como mostram João Batista Araújo e Oliveira e Simon Schwartzman em livro que citei na coluna passada, é que isso nem sempre acontece. Primeiro porque professores e pais costumam colocar a culpa pela repetência na desmotivação dos alunos. Ao fazer isso, se eximem da responsabilidade de melhorar o desempenho dos estudantes repetentes. Se ele está desmotivado, há pouco o que fazer para ensiná-lo. O problema é que nem sempre a escola percebe que a desmotivação é causada pela própria escola, e não por uma característica genética do estudante. No livro "A Escola vista por dentro", Oliveira e Schwartzman mostram também que, na maioria dos casos, os ciclos estão apenas adiando a repetência do estudante. Ou seja, o aluno que não assimila o conteúdo no primeiro ano do ciclo, chega ao fim desse ciclo sem ter recuperado o que deixou de aprender. No fundo, no fundo, parece que os ciclos ou o sistema tradicional pouco importam. Se o professor não for competente e motivado e a escola preparada para lidar com os estudantes mais problemáticos, não haverá método revolucionário que diminuirá a repetência e melhorará a qualidade do ensino. PS - Duas sugestões
de leitura sobre o assunto: a reportagem "Aluno
analfabeto põe a reprovação em xeque", publicada
na Folha de S. Paulo, e o editorial "Aprovação
reprovada", do mesmo jornal, publicado em 18 de abril. |
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