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Não há como não comentar os ataques aos EUA em sala de aula, principalmente em aulas de história. Os acontecimentos, acompanhados em tempo real por todos nós, dão aos alunos a possibilidade de tentar entender a história e seus desdobramentos no momento em que ela acontece. O cuidado numa hora dessa é saber ter o distanciamento crítico dos fatos. O presidente dos EUA, George Bush, diz que será a guerra do bem contra o mal. Lidar com esses conceitos em história é perigoso, e pode dar margem a visões deturpadas ou engajadas da história. Nesse ponto, o papel dos professores é fundamental. Em sua coluna no site NO. , o jornalista Marcos Sá Correa falou sobre o antiamericanismo presenciado em algumas escolas do Rio de Janeiro, onde alunos chegaram a dizer que os EUA mereceram esse ataque. Qualquer pessoa mais sensata vai discordar de argumentos como esse, mas Sá Correa lembra que muitas dessas conclusões podem ter sido influenciadas pelos professores. Ele cita uma frase do ministro Paulo Renato, ao ouvir o relato dos alunos: "Isso é o sinal de que o magistério está cada vez mais ideológico". Pode até ser. O fato é que há muitas pessoas consideram que a arrogância e a hegemonia dos EUA e sua política externa de apoio quase incondicional ao Estado de Israel foram fatores que levaram boa parte do mundo árabe a elegê-los como principal inimigo. Os Estados Unidos seriam, de certa forma, culpados pelos acontecimentos também por não terem dialogado mais e feito concessões aos países árabes. Esse raciocínio tem sua lógica e deve ser respeitado, mas que fique claro: trata-se de uma opinião, ou de uma visão opinativa da história. Há quem discorde disso. O problema é que nem sempre os professores de história conseguem trabalhar esses temas sem influenciar os alunos com sua opinião. Se alguns fazem isso, deveriam ao menos deixar claro que se trata de um ponto de vista que não é unânime. Os Estados Unidos e a globalização viraram o grande vilão da história recente na visão das esquerdas. É ótimo que os alunos entendam os argumentos de quem defende essa visão contra os americanos, mas não é honesto colocar essa visão como a única. Fiz uma matéria na Folha de S. Paulo abordando o problema a visão engajada da história, pegando como exemplo livros didáticos. Um dos exemplos dessa visão, identificada por historiadores com quem conversei, é o modo com que livros didáticos tratam a guerra do Paraguai. Até o final da 70, a visão que prevalecia era a que enaltecia o Brasil e seus heróis (Duque de Caxias, por exemplo), mostrando o Paraguai como vilão. Nos anos 80 e 90, os livros foram para outro extremo, e mostram o caudilho paraguaio Solano Lopez como um herói que tentou lutar contra o imperialismo britânico na América do Sul, construindo escolas para o povo, entre outras realizações. Para os historiadores com quem conversei, nenhuma das duas visões está completamente correta. As duas cometem o mesmo erro: tratar a história como se houvesse bons e maus, vilões e heróis. Há quem defenda, historiadores paraguaios inclusive, que Solano Lopez foi apenas mais um ditador norte-americano que teve a peculiaridade de tentar fugir da influência britânica na América do Sul no século XIX. A história, e a visão que nós temos dela, é dinâmica. Por isso mesmo, o que os historiadores com quem conversei defendem é que ela seja tratada com didatismo, mas sem perder sua complexidade. Assim como na Guerra
do Paraguai, vão sempre surgir visões novas e pontos de
vistas diferentes ao se analisar o ataque terrorista aos EUA. O aluno
que tiver a capacidade de entender vários pontos de vista (mesmo
que defenda um em específico) será um cidadão mais
tolerante e com mais capacidade de análise do que o que foi treinado
a reduzir a história a vilões e heróis. |
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