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Recebi na semana passada um e-mail de um professor universitário de São Paulo com uma indagação muito comum entre os que vivem o dia-a-dia da universidade pública brasileira. Ele lera a reportagem do Estado de S. Paulo publicada no domingo (10/03), com o título "Universidade já gasta mais de 90% da verba com pessoal." Dizia ele: "Outro dia, li que a proporção de professores em relação a alunos no ensino superior aqui no Brasil era baixa. Contudo, aqui em São Carlos há pelo menos duas universidades públicas a (USP e a UFSCar) e, até onde eu sei, a USP está com sua cota de aulas lotada e na Federal faltam professores. Juro que não entendo. Das duas uma: ou a notícia é falsa ou há professores que não dão aula (o que até onde eu tenha conhecimento isto não acontece)". A questão é complicadíssima, mas, de cara, dá para afirmar que os números trazidos pelo Estado de S. Paulo estão corretíssimos. A relação de professores por aluno em nossas universidades públicas é realmente baixíssima, se comparada até com as melhores universidades americanas ou européias. No entanto, também é verdade que, ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos e Europa, as pesquisas aqui são muito mais concentradas nas universidades públicas. Esse fato cria uma situação que dificulta a comparação de professores por alunos na graduação. Um professor de universidade americana pode trabalhar 40 horas por semana dando aulas. Nas universidades públicas brasileiras, no entanto, é muito mais comum um professor com dedicação de 40 horas dar apenas 20 horas de aula e dedicar as outras 20 horas para pesquisa. Ele, no entanto, entra no cálculo de professores por aluno na graduação como um docente, e não como 0,5. Um exemplo para melhor explicar essa questão: A universidade A e a universidade B tem o mesmo número de alunos: 10. A universidade A tem em seus quadros dois professores que dão 20 horas de aula por semana. Já a universidade B tem apenas um professor que dá 40 horas de aula por semana. A relação de professor por aluno universidade A é de um professor para cinco alunos. Na universidade B, essa relação é de um professor para cada grupo de dez alunos. No final das contas, no entanto, dá absolutamente no mesmo: os alunos da universidade A ou B recebem a mesma carga horária. As duas instituições se equivalem em termos de produtividade nesse quesito. Não estou com isso querendo defender a universidade pública de forma cega. Estudei na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e, ao mesmo tempo que tive aula com ótimos e dedicados professores, conheci também docentes que faltavam mais do que compareciam às aulas, passavam os alunos de ano de qualquer maneira e conseguiam a proeza de se atrasar mais e mostrar menos interesse pelas aulas do que os próprios estudantes. Outros menosprezavam as aulas na graduação, querendo apenas se dedicar a pós-graduação, onde as turmas eram menores e, por isso, mais elitistas. Havia também os que deixavam de dar aulas para se dedicar a pesquisas absolutamente inúteis e que poderiam ser feitas na metade do tempo gasto pelo professor. A questão da produtividade das universidades públicas, por ser complexa, sempre causará polêmica. Para os que quiseram se aprofundar sobre o assunto, sugiro a leitura da bela reportagem do Estado (citada acima) e do estudo do pesquisador do Ipea Paulo Roberto Corbucci, de título "As Universidades Federais: Gastos, Desempenho, Eficiência e Produtividade."
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