Há duas semanas, a Folha
de S. Paulo noticiou que a taxa de repetência na primeira série
do ensino fundamental no Brasil era de 40% .Em todas as séries
desse nível de ensino, a taxa era de 21%, segundo o Inep (Instituto
Nacional de Pesquisas e Estudos Educacionais).
Quando escrevi a matéria, confesso que, à primeira vista,
imaginei que estava falando de um assunto que despertava uma opinião
quase unânime: essas taxas são absurdas e precisam cair o
mais rápido possível.
No entanto, chegaram às minhas mãos duas cartas de professores
que citavam positivamente o exemplo de Estados onde a repetência
era maior (em nove deles, a chance de um aluno repetir na primeira série
é maior do que ele ser aprovado).
Na verdade, acredito que o objetivo das cartas, mais do que defender a
repetência, era outro: atacar a política de ciclos adotadas
por alguns estados, entre eles, São Paulo. Veja trecho da carta
desta professora:
"Que bom que ainda há aluno repetindo o ano! Isso prova que
ainda há escolas sérias que exigem aprendizagem - ao contrário
do nosso estado (SP), que está formando analfabetos."
Há cerca de quatro meses, o editor de Educação da
Isto É e colunista deste site, Gilberto
Nascimento, fez uma brilhante matéria, mostrando exemplos práticos
de alunos, em São Paulo, que, aos 14 anos, não eram capazes
de acertar um simples ditado, apesar de já estarem no segundo ciclo
do ensino fundamental.
A matéria causou polêmica e trouxe uma grande contribuição
para o debate sobre o combate à repetência, sem perda da
qualidade. No entanto, volta e meia, a discussão cai no vazio e,
como é mais fácil achar um culpado nos outros ("o inferno
são os outros", como escreveu Sartre), e não em nós,
culpa-se o sistema de ciclos por estar "formando analfabetos"
ou nosso sistema educacional tradicional por estar retendo os alunos desnecessariamente
na escola.
Eu me pergunto se em uma escola de Alagoas (estado com maior taxa de repetência
e que não adota o sistema de ciclos) não encontraríamos
nas escolas vários exemplos como alguns encontrados em São
Paulo: alunos que, aos 14 anos, ainda são praticamente analfabetos.
Como jornalista, tenho
ouvido de professores, pais de alunos, secretários de educação
e pesquisadores várias explicações sobre o problema.
Há quem diga que a culpa é da família, que está
delegando para a escola quase toda a responsabilidade pela educação
dos filhos.
Outros afirmam que são os professores, que preferem educar da forma
mais simples e retrograda: tendo em mãos um instrumento punitivo
como a ameaça da repetência para obrigar o aluno a estudar.
(Estimulá-lo a aprender sem ter esse instrumento é muito
mais difícil)
O mais comum, no entanto, é criticar o governo (federal, estadual
ou municipal) por não investir o necessário na qualificação
dos professores, não pagar salários dignos e não
dar estrutura adequada às escolas.
Sei que é complicado para um jornalista opinar sobre um tema sem
estar diretamente envolvido nele (na sala de aula ou nos gabinetes das
secretarias de educação). Eu arriscaria, no entanto, dizer
que todos os lados estão cobertos de razão nas suas críticas.
O que falta é cada um admitir sua parte da culpa.