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Os estudantes da rede pública não se inscrevem no vestibular das universidades mais concorridas porque realmente tiveram uma educação de péssima qualidade ou porque acham que tiveram uma educação de péssima qualidade? Foi essa pergunta, um pouco ao estilo do bordão de Tostines, que eu me fiz ao escrever a reportagem "Aluno da rede pública foge do vestibular", publicada no domingo passado na Folha de S. Paulo. Talvez a melhor resposta para essa indagação esteja nas estatísticas de acesso ao vestibular da USP. Elas mostram que o fato de a imensa maioria dos alunos sequer se inscreverem para tentar uma vaga na USP é justificada pelo desempenho médio dos estudantes. Os estudantes da rede pública são minoria na USP. Já são minoria no momento em que se inscrevem no vestibular e passam a ser minoria da minoria entre os aprovados. Nos cursos mais concorridos, então, como Medicina, Odontologia e Jornalismo, são quase raridade. Acho que isso responde à minha pergunta inicial: o medo de não passar no vestibular da rede pública é mais do que justificado para um aluno da rede pública. Ou seja, não é fruto apenas da imaginação ou de uma imagem irreal que ele faz de si próprio. No entanto, estou convencido de que há também uma parcela de culpa da escola, do professor e das universidades nesse processo. As mesmas estatísticas do vestibular da USP, da Unesp e da Unicamp mostram que é possível, sim, um aluno da rede pública entrar em universidades públicas, desde que se inscreva em cursos com procura menor, como Letras, Pedagogia e Ciências Sociais. Se faz parte do sonho de vida de um estudante entrar em um desses cursos, é dever da escola e do professor estimulá-lo, fazê-lo acreditar que ele é capaz de conseguir o objetivo desde que se esforce. O relato de alunos mostra, no entanto, que são raridade as escolas da rede pública que envolvem o aluno no clima do vestibular. Boa parte delas sequer mantém informados os estudantes das datas de inscrição dos exames. Ou seja, o estudante sabe que seu ensino é, em média, pior do que a média dos alunos de escolas particulares que se inscrevem no vestibular. Por saber disso, ele não se inscrevem em nenhum curso no vestibular. No entanto, há cursos em que as chances dele são maiores e o sonho de fazer uma universidade pública não é tão distante assim. É nessa hora, no entanto, que boa parte das escolas tem sua parcela da culpa, ao desestimulá-lo completamente. Nesse processo, é mais do que justo também que grupos de estudantes organizados (como a Educafro e o Movimento dos Sem Universidade) protestem, esperneiem e gritem sempre contra a política de isenções das universidades públicas. Quanto mais eles pressionarem, maiores serão as chances de as universidades públicas aumentarem cada vez mais o número de isenções de taxa de vestibular para alunos carentes. O valor de uma taxa, de cerca de R$ 60 ou R$ 80, pode parecer pouco para alguns, mas pesa muito no orçamento de uma família pobre e cujo filho pretende aumentar suas chances de entrar numa universidade pública realizando mais de um vestibular. O aluno que acredita ser capaz de passar no vestibular, sendo ele da universidade pública ou particular, já aumenta naturalmente suas chances de conseguir seu objetivo. Não é preciso ver as estatísticas para provar isso. Essa é uma tese mais do que confirmada em qualquer manual de auto-ajuda, dos mais sofisticados aos mais picaretas. Se o aluno não passar, seu esforço não terá sido em vão. Primeiro porque ele terá aprendido mais do que se tivesse ficado parado, medroso e sem estímulo. Segundo porque criará, em alguns, um sentimento de indignação pelo fato de sua educação não ter sido tão boa quanto a de um estudante de classe média. E indignação, num país como o Brasil, é uma dos sentimentos mais justos e necessários para a diminuição da desigualdade. PS - Recebi alguns e-mails com pontos de vistas divergentes dos meus a respeito de minha última coluna, falando sobre a invasão de estudantes no Conselho Universitário da Unesp. Aqui estão duas críticas aos meus argumentos: E-mail de Felipe Braga: A respeito de sua coluna com o título 'O caso da Unesp', na UOL, gostaria de esclarecer alguns pontos: Sou estudante da Unesp, do curso de Bacharelado em Ciências da Computação, em Rio Claro, e participei do ato que ocorreu no dia 14, a obstrução do CO no prédio da reitoria. Gostaria de deixar bem claro que a posição do movimento estudantil da instituição quanto ao tema 'expansão' é, e sempre foi, favorável à democratização do acesso ao ensino superior publico, gratuito e de qualidade. Nosso ato se deu contra ESSA proposta de expansão, a qual prevê a criação de 8 novos 'campi' (as aspas serão explicadas a diante) e mais 26 cursos em campi já existentes na Unesp sem NENHUMA contratação de docentes e funcionários, NENHUMA verba fixa destinada à manutenção destas novas unidades e sem a real construção destes 'campi', além de nos parecer oportuna essa proposta, dado todo o contexto de um ano eleitoral que vivemos. Sobre os docentes, os professores utilizados nestes 'campi' seriam de unidades já existentes (que já sofrem com a falta dos mesmos; meu curso mesmo, tem 4 disciplinas sem docente pra lecionar este semestre), onde seria usado o esquema de 'professores itinerantes', em que uma disciplina semestral é condensada em 15 dias de aula e o único contato dos alunos com o professor é durante as aulas, comprometendo o ensino e impossibilitando a pesquisa. Este esquema já ocorre este ano na Unidade da Unesp de São Vicente e, inclusive, professores da Biologia aqui de Rio Claro participam deste esquema e nos relatos a situação caótica daquele campus. Funcionários e espaço físico seriam cedidos por convênios com as prefeituras municipais, podendo ocasionar até mesmo que o 'campus' deixe de existir caso este convênio não seja seguido. A forma como nosso ato foi veiculado pela mídia comprometeu em muito seus resultados. Se houve violência durante o ato, pode ter certeza que este não era o intuito, e ela também partiu da reitoria, que nos recebeu no CO com provocações e cadeiras na mão. Ainda sobre o ato, a inviabilização das votações deste plano de expansão foi deliberado no Congresso dos Estudantes da Unesp, em Franca, em julho. Este é o órgão deliberativo máximo dentro do movimento estudantil da instituição, portanto não cabe à muitos dizer que foi algo isolado e que o ato não foi legítimo, não representando a opinião dos alunos da Unesp. Peço que se informe sobre o ocorrido e, consequentemente, se mobilize conosco. Obrigado E-mail de Cláudia Paes: Caro Antônio, Creio que você não tenha entendido o que exatamente está acontecendo na UNESP. Como aluna dessa instituição, afirmo que os alunos da mesma manifestaram-se no Conselho Universitário não contra a expansão da universidade publica. O que, alias, é muito positivo e necessário, mas sim contra os meios em que tal fato pretende ocorrer. É de nosso conhecimento que se deseja aumentar o número de vagas (e também de cursos) em todos os Campi da UNESP, havendo também a criação de mais outros oito. No entanto, para a concretização disso, o Estado não aumentara a verba dos campi já existentes. O que (obviamente) irá resultar em uma acentuada perda de qualidade em toda a Universidade. O que observamos na mídia atual é que muito foi divulgado sobre a 'quebradeira' dos estudantes da UNESP mas em nenhum momento foi mencionada as condições em que a expansão irá ocorrer. Mais uma vez os estudantes ficam como vilões em um acontecimento de que estão sendo vitimas. Deve sim ocorrer a ampliação de vagas e cursos não apenas na UNESP mas em todas as Universidades Publicas, ocorrendo também o aumento de verba destinada as mesmas. Caso contrario o que teremos é um forte declínio da qualidade universitária e um posterior sucateamento da Universidade Publica o que, alias, já esta ocorrendo. Grata pela atenção, |
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