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No mês passado, um adolescente de 18 anos entrou na escola, em Tiúva (interior de São Paulo), atirou a esmo contra colegas e funcionários, feriu oito, e depois se matou. A maioria dos jornais tratou o crime como mais um assunto policial. O que levou, no entanto, um garoto de 18 anos a fazer isso contra os colegas e contra si mesmo? Algumas reportagens foram mais a fundo e descobriram que ele era ridicularizado por colegas por ser gordo e por ser "esquisito". Era também excluído do grupo. Houve quem dissesse que era um adorador de Hitler e que isso já indicaria a propensão dele a agir como agiu. Uma tremenda besteira. O que escapou na maioria das análises sobre o crime foi saber até que ponto a escola foi co-autora dessa violência. Para a presidente do Núcleo de Apoio aos Pais e Alunos de São Paulo, Cremilda Teixeira, quem matou esse adolescente foi a escola. Não sei se concordo integralmente com Cremilda, mas não tenho dúvidas que a escola tem, sim, sua parcela de culpa. Dar um apelido que o aluno não goste, excluí-lo por causa de sua aparência ou jeito, humilhá-lo ou até extorquir a criança para não apanhar dos colegas são atitudes mais comuns nas escolas do que os pais e professores imaginam. Em países desenvolvidos, esse tipo de atitude está sendo estudada por pesquisadores. Em alguns deles, como na Inglaterra, é dever da escola, por lei, garantir que as crianças não sejam vítimas desse tipo de violência. No Brasil, poucos se preocupam com essa questão. No Rio de Janeiro, a ONG Abrapia começa a tentar convencer pais e escolas de que esse tipo de comportamento é inaceitável numa escola que respeita (e ensina o respeito) às diferenças. A Abrapia iniciou um projeto com 11 escolas públicas e particulares do Rio para evitar o que os ingleses chamam de "bullyng." Esse tipo de violência pode parecer banal ou rotina nas escolas, mas pesquisadores europeus têm mostrado que essas atitudes na escola podem trazer consequências seríssimas para o desenvolvimento da criança na escola e na sociedade. Pode parecer praga do politicamente correto, mas apelidos que ferem a auto-estima de uma criança podem ter um efeito devastador sobre seu rendimento e seu comportamento social. "As pessoas acham normal esse tipo de situação na escola. Queremos mostra que não é assim. Da mesma maneira que alguns achavam normal a prostituição infantil e a violência doméstica, chegou a hora de convencer a sociedade que o 'bullyng' é intolerável na escola", afirma Lauro Monteiro Filho, presidente da Abrapia. Além de iniciar um trabalho com escolas do Rio, a Abrapia está procurando parceiros para implementar uma boa idéia: criar uma linha 0800, de discagem gratuita, para que as crianças denunciem ou apenas ouçam o conselho de adultos sobre o que fazer quando são vítimas dessa situação. Esse mesmo serviço existe hoje na Inglaterra, e funciona muito bem, ajudando pais, alunos e as escolas a resolver um problema que muitas vezes faz as crianças sofrerem em silêncio, com medo de represália dos colegas caso contem a algum adulto. Quem não já foi vítima ou conheceu um colega que já passou por situações como ser apelidado de um nome que não gosta, ser obrigado a dar parte do seu lanche para o colega mais forte da turma ou se sentir excluído do grupo? Nos países europeus, alguns adultos que conseguiram comprovar que foram vítima desse tipo de situação na escola começam a ganhar ações na justiça contra a escola, que deveria ter feito algo para evitar isso. No Brasil, talvez nunca cheguemos a esse ponto, mas é legítimo que a sociedade cobre das escolas e dos professores uma atitude menos passiva no momento de coibir essas pequenas violências do cotidiano na escola. PS - Quem quiser saber mais sobre o assunto, pode acessar o site da Abrapia, ou ler a reportagem que fiz com Armando Pereira Filho na Folha. |
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