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Capital
Moral Foi o prêmio Nobel de economia Amartya Sen quem chamou a atenção para a necessidade de capital moral na promoção da riqueza de um país. Segundo ele, a honestidade do povo, especialmente dos líderes políticos, empresariais e profissionais, a auto-estima elevada e a motivação coletiva para os projetos nacionais têm um papel tão importante quanto os investimentos diretamente financeiros. Em nossa estratégia de desenvolvimento, esquecemos o capital moral. A ditadura militar formulou um sofisticado projeto para o futuro do País, investiu os recursos que eram necessários, mas não levou em conta que todo o investimento fracassaria enquanto o Brasil sofresse a crise moral das prisões políticas, da censura à imprensa, do exílio de seus artistas, da tortura dos presos. A ditadura esqueceu a necessidade do capital moral que ela não tinha condições de atender. A democracia parece ter
espalhado a corrupção, e deixou de escondê-la. O resultado
é uma degradação da moral, não mais pelo autoritarismo,
mas pela conivência com a corrupção. Quinze anos depois do
fim da ditadura, nosso capital moral não aumentou. O debate nas últimas semanas, no Congresso, é exemplo do que significa democracia, e ainda mais do que significa democracia tolerante. Democracia pela liberdade quando os senadores debatem publicamente seus próprios defeitos, democracia tolerante porque ficou apenas nas palavras. Os discursos não surtiram efeitos. A população assiste toda a luta política no Congresso como se fosse apenas um esporte, uma luta de boxe com palavras. A imprensa concentra suas análises em quem venceu e quem perdeu votos, não lembrando quanto perdeu o capital social do País, e suas conseqüências para o futuro da nação. Depois de quinze anos, a democracia brasileira aumentou a desigualdade social. Nunca tão poucos foram tão ricos e tantos foram tão pobres. Isso abala a moral do País. A passividade diante da pobreza depreda o capital moral. Nenhum país pode ficar eficiente enquanto crianças continuam vivendo nas ruas, sem escolas, as outras com escolas sem qualidade. Não há possibilidade de desenvolvimento enquanto pessoas morrerem por falta de assistência médica e milhões de desempregados voltarem para casa sem levar comida para os filhos. Não apenas por causa do desperdício econômico de não usar o potencial produtivo destas pessoas, nem só por causa da vergonha que esta situação causa em alguns, mas, sobretudo, por causa da indiferença de tantos diante da miséria. Os debates no Congresso, nas últimas semanas, nos despertaram para a crise de corrupção na política, mas uma corrupção muito maior está presente em cada um de nós, independente do cargo, é a corrupção da indiferença diante da tragédia. Um povo indiferente não constrói seu futuro, porque a indiferença é o juro pago pela falta de capital moral. Mas nada degrada mais o capital moral de um país do que pesar suspeita sobre parte da Justiça. Uma Justiça que não julgue a todos igualmente. Que use seu poder para, por vezes, acusar injustamente ou fechar os olhos diante dos corruptos. Não há possibilidade do Brasil ser desenvolvido enquanto toda a Justiça não for parte do capital moral do País: julgando sem diferenciar por amizade, perseguição ou conivência, sem condenar alguns e perdoar outros pela mesma falta. O tratamento diferenciado dado por uma parte da Justiça brasileira, conforme a simpatia ou a conivência com o réu é uma das provas da degradação do capital moral no Brasil. Degrada também a moral brasileira o medo que impede as pessoas de se manifestarem diante da crise brasileira. Medo das críticas ou de perder eleições, medo do que fará a Justiça ou do que dirão aliados. A crise moral brasileira é tão grande, que ao despertarmos para a corrupção jogamos a culpa apenas nos outros, especialmente os políticos, como se não tivéssemos, cada um de nós, uma parte na degradação do capital moral de todo o País. Critica-se a falta de moral cívica de um deputado ao dizer que representa o seu time de futebol, e não o povo de seu estado, como se cada um dos deputados não fosse também, em graus diferentes, representante de uma ou outra corporação, sem sentimento do povo e da nação. O corporativismo, tanto quanto a corrupção, degrada o capital social. A indiferença diante da pobreza, a conivência e convivência com a corrupção, o abandono dos serviços sociais essenciais, a parcialidade da Justiça, a perda do sentimento nacional pelo corporativismo, a falta de auto-estima e o descompromisso com a coletividade, são fatos mais graves para a construção do Brasil do que a falta de recursos financeiros. A nossa dívida moral interior é mais grave do que a própria dívida financeira externa. Sem uma forte e decente infra-estrutura moral de nada adianta todo o esforço de fazer a democracia funcionar e a economia crescer. |
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