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Ouvir a terra Os governantes se contentam em administrar o Estado, no lugar de cuidar do seu povo. Da mesma forma, junto com economistas e engenheiros, procuram mudar a natureza sem cuidar de ouvir a Terra antes de tomar as decisões. Foi assim com os franceses, quando tentaram construir um canal, na América Central, entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Fracassaram porque não ouviram a Terra, não adaptaram suas soluções técnicas à realidade da natureza no local. Acharam que fazer um canal era apenas cortar o chão, colocando-o no nível do mar. Não perceberam o potencial da água dos rios para fazer os barcos subirem ou baixarem no relevo do percurso entre um e outro oceano. Sobretudo, concentraram esforços na engenharia de cavar o enorme canal, sem considerar as dificuldades biológicas, derivadas da insalubridade na região. Os norte-americanos tiveram sucesso porque, antes da vitória da engenharia sobre o terreno, venceram a batalha biológica contra a malária e a febre amarela. Muito mais do que os engenheiros e operários, os grandes responsáveis pela construção do Canal do Panamá foram os médicos e agentes sanitários que mataram os mosquitos e trataram a água. Sem isso, os trabalhadores morreriam mais depressa do que a terra seria escavada. A maior obra de engenharia civil do mundo é, portanto, um exemplo de ouvir a Terra para dominar a natureza - ouvir seus mosquitos e micróbios, antes de tomar decisões técnicas. Os economistas e governantes não aprenderam com aqueles construtores do começo do século XX. O mundo assiste pasmado ao avanço do efeito estufa aos poucos esquentando o planeta. Muitas vezes nem se lembra que durante todo o século XX, no processo de industrialização, queimamos combustíveis, jogamos resíduos no ar em quantidades que terminaram provocando esse efeito - com o apoio do desejo de consumo das populações. Apesar dos gritos dados pela Terra, os governos do mundo se negaram a tomar as medidas necessárias para controlar a desordem do progresso industrial e proteger a natureza. Reunidos na semana passada, na Holanda, nenhuma decisão tomaram para rever a marcha da insensatez destrutiva. Vão continuar com a tolerância a um tipo de desenvolvimento que beneficia a poucos, prejudicando a todos. Os ricos consomem sozinhos e os pobres respiram o poluído ar da industrialização. Se persistir esse modelo de desenvolvimento injusto, no futuro, os ricos comprarão oxigênio artificial. Continuarão consumindo e respirando - porque até para respirar será preciso pagar - enquanto os pobres ficarão sem consumo nem ar. O Brasil vem sendo conivente com esse processo de desenvolvimento irresponsável que não leva em conta o que a natureza deseja. Para viabilizar a indústria automobilística, a cidade de São Paulo construiu um sistema viário sem ouvir o que as chuvas tinham a dizer. Para atender ao crescimento demográfico e à indústria automobilística, a cidade foi coberta de asfalto, seus córregos tapados por estradas. Hoje, a população se surpreende quando, a cada chuva, a água se rebela inundando, destruindo e matando. Fora dali, uma usina nuclear foi construída próxima a centros urbanos, no Rio de Janeiro. Dia após dia, centenas de hectares de florestas são destruídas. Os sistemas de esgotamento sanitário de cidades crescidas aceleradamente, construídos por governos irresponsavelmente apressados, estão sujando nossas águas. O Brasil não ouve a Terra brasileira. No próximo mês, 5.600 novos prefeitos tomarão posse no Brasil. O que um governo central não deseja - ou não tem força para fazer - pode ser realizado se eles quiserem. Se cada um deles cuidar da Terra local, levar em conta os efeitos de suas decisões sobre o meio ambiente em seu município, o conjunto poderá evitar os desastres que já estão anunciados. Antes de tomarem suas decisões, os governantes de cada cidade devem ouvir a Terra. Certas obras apressadas em busca do apoio imediato do eleitorado podem se apresentar como erros dramáticos para o futuro da cidade. A democracia, como ela está concebida, não consegue ainda dar ouvidos à Terra: no máximo, ligados na próxima eleição, os políticos ouvem o eleitorado, com voz pedinte de soluções imediatas. Por isso, os prefeitos terão dificuldades para optar entre atender aos desejos imediatos da população e ouvir a Terra para construir soluções ecologicamente equilibradas com efeitos de longo prazo. A diferença entre uma ou outra decisão vai levar o prefeito a ganhar a próxima eleição ou a ganhar o respeito histórico no futuro. Como políticos, devem procurar ganhar a próxima eleição, como personagens, devem querer um lugar digno na História. Como estadistas, devem combinar o longo e o curto prazo, ouvindo o seu povo. Ao mesmo se educar e educá-lo, ouvindo a Terra, dominando-a e respeitando-a. Tentando ganhar na Política e na História. Quando a combinação for impossível e tiver de escolher entre a próxima eleição ou a próxima geração, sua ética fará a opção: pelo gosto imediato do poder político ou uma glória histórica posterior. Se quiser ter uma possibilidade de êxito, o melhor caminho é ouvir a Terra e as crianças - Ambas ligadas no futuro. É olhando para o futuro das crianças de hoje, educando-as para ouvir a Terra, que o prefeito do começo do século XXI poderá ter a base de apoio para evitar os erros dos prefeitos do século XX. |
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