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Artigos publicados não se apagam. Nem devem ser esquecidos. Mas, como aquarelas, eles vão descorando com o tempo. Por isso, os autores raramente desejam repetir antigos artigos. Salvo quando são solicitados por leitores. Este que vai abaixo foi publicado em setembro de 1990. E guardado por uma leitora que sugeriu sua publicação outra vez. Está um pouco descorado, mas não parece fora de foco, e demonstra que a guerra atual e outros aspectos relacionados a ela, desde o fim da Guerra Fria, nunca deixaram de ser motivo de preocupação. Nem o cargo do autor mudou, desde então, apenas a função temporária na Universidade para a Paz das Nações Unidas. Todos com mais de 40 anos se lembram do mês de outubro de 1962, em que os EUA bloquearam Cuba. Durante dois dias, estivemos com a respiração suspensa no temor do fim do mundo por uma guerra nuclear duas superpotências: EUA e União Soviética. Anos depois, aquele dia parece perdido história. Uma distensão real começa a acontecer a partir do final da guerra do Vietnam. As mudanças do Leste europeu consolidaram a realidade de fim da Guerra Fria. Mas, ao lado da esperança de que nunca mais volte a ocorrer um dia como aquele de 62, temos todas as razões para temer que no lugar da Guerra Fria estejamos iniciando uma tensa Paz Quente. O fim da guerra fria significa provavelmente o fim do risco de guerra nuclear entre superpotências, com toda a catastrófica dimensão construtiva que isso representaria para a humanidade. Mas em um mundo dividido, o fim desse risco não significa ainda a paz desejada. Significa também o fim de um equilíbrio que servia para inibir a guerra e deixava uma margem de liberdade para os que optavam pelo não-alinhamento. Sem emitir qualquer juízo de valor sobre os resultado obtidos, o fato é que foi graças ao equilíbrio entre as superpotências que foi possível a independência dos países africanos, a vitória em guerras de libertação na Ásia e mesmo o crescimento econômico nos países da América Latina. A reconstrução da Europa provavelmente não teria se dado com a rapidez e a força que ocorreu, se a ameaça da URSS não forçasse os EUA a apoiarem aqueles países. A França de De Gaulle seria impossível se o quadro de distensão de hoje existisse no final dos anos 50. O mundo de hoje apresenta um total desequilíbrio de forças. Estamos começando um tempo em que o mundo terá uma única grande potência militar com sinais de decadência na concorrência com seus aliados. Isto levará os EUA a uma constante tentação no uso da força militar. No final de 1989, sob o pretexto de lutar contra as drogas, os EUA invadiram o Panamá e prenderam o presidente (ou ditador) que estava no governo. Seis meses depois, sob o pretexto de defender um pequeno país contra um invasor, deslocaram uma imensa força militar para a mais crítica e explosiva região do mundo. Diferentemente de 62, quando o bloqueio a Cuba quase levou a uma guerra nuclear, agora, para nossa imediata tranqüilidade, os EUA dispõem da tolerância e mesmo do apoio das demais nações. Mas, se olhamos um pouco mais distante, podemos ver que o fim da Guerra Fria, longe de significar a paz, pode representar uma repetição de guerras. O fim do risco da guerra nuclear pode substituir o medo de cada pessoa pela insegurança de cada nação: a crise energética pode justificar invasões no Oriente Médio. A crise ecológica pode incentivar a internacionalização forçada da Amazônia. Para evitar a construção de bombas nucleares podem-se realizar bloqueios. O não pagamento da dívida pode servir de pretexto para anexações. Seria absurdo não perceber o alívio e o clima positivo que está significando no mundo o fim da Guerra Fria. Mas seria estúpido não perceber os riscos da paz quente que se está iniciando. Um país com a dimensão, a população e a responsabilidade do Brasil não pode deixar de perceber esta realidade e os riscos que ela nos traz. O fim do arriscado equilíbrio de antes tem que ser encarado com um fortalecimento do sentimento de soberania e com a construção simultânea de um marco legal internacional que sirva de amparo aos riscos do intervencionismo. Isto implica não ser tolerante com invasões de pequenos países como o Panamá ou o Kuwait seja pelos EUA, seja pelo Iraque. Mas implica também em não aceitar a existência de xerifes internacionais que usem seu poder para manter guerras, mesmo que sem o risco nuclear e com o disfarce da paz. |
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