| ||||||||||||||||||||||||||||||||
|
Em Dezembro de 1941, os EUA foram tomados por uma espantosa e justa ira contra os japoneses, que atacaram a base militar de Pearl Harbor. Ira que se repete hoje, nem menor nem menos justificável, agora causada por um grupo de terroristas que assassinou milhares de pessoas, a maior parte norte-americanos, em Nova York. A ira provocada por aquele ataque precipitou a entrada dos EUA na guerra, e foi causa das explosões de duas bombas atômicas que mataram centenas de milhares de japoneses e até da ocupação política e militar do Japão. Mas, passada a ira, os EUA ajudaram o Japão a se recuperar, o povo japonês demonstrou sua capacidade de recuperação, tornando-se um forte aliado dos norte-americanos na construção da globalização. O terror em Nova York ainda vai continuar provocando muita ira nos EUA e no resto do mundo. Com o apoio de muitos governos, os EUA vão fazer uma guerra contra os terroristas e o governo dos talibãs. Passadas as ações militares e jurídicas, certamente haverá um novo mundo depois da ira. E ele poderá ser pior ou melhor do que é agora. Será pior se os atos terroristas provocarem ou forem usados para justificar estados autoritários. Será uma grande ironia se, depois de 50 anos de guerra fria contra o modo soviético de intervenção do estado na sociedade, tivermos semelhante atuação do estado capitalista. Será, também, um mundo pior se houver uma consolidação dos preconceitos contra os estrangeiros. Seria outra grande ironia que no momento da globalização do mundo, os países ricos caminhassem para a xenofobia contra os povos pobres, especialmente árabes e muçulmanos. No entanto, o mundo poderá ser melhor se os ricos entenderem que não vale a pena recorrer novamente aos regimes autoritários, nem quebrar o entrelaçamento mundial construído nas últimas duas décadas e, no lugar de financiar o isolamento, investirem na integração social. Seria um mundo melhor depois da ira, se a população rica e assustada do mundo perceber que ela também tem a ganhar com um programa pela erradicação do terror social no mundo inteiro. E se a guerra for declarada contra todo tipo de terror: daquele que soterra inocentes nos escombros de prédios norte-americanos e do que soterra inocentes nos escombros da pobreza no resto do mundo. O mundo será melhor se a riqueza usada para atacar terroristas escondidos nas montanhas do Afeganistão for usada também para atacar a miséria nas savanas africanas. Meio século atrás, terminada uma dura guerra contra o nazismo e o fascismo, depois da ira, os EUA executaram o Plano Marshall de reconstrução da Europa. Em poucos anos, 17 países europeus saíram dos escombros e se fizeram fortes e ricos. Os EUA foram vistos não apenas como vitoriosos militares de uma guerra, mas também na posição de liderança na luta pela erradicação da pobreza na Europa. Naquele momento isso foi feito em razão da estratégia de brecar o avanço do comunismo que caminhava sobre o terreno fértil da pobreza, da falta de esperança e de mística. É possível que a possibilidade do comunismo esteja superada no futuro imediato, mas nada mudou no que se refere à pobreza, à exclusão, à discriminação, ao desemprego, à falta esperança e mística para a juventude. Tudo isso seria um solo fértil para uma utopia, mas também, enquanto não surge essa utopia, pode ser o terreno propício para a propagação de movimentos terroristas desesperados. Diante dos EUA e das demais lideranças mundiais está o desafio de escolher o que fazer depois da ira: assumir como definitiva a desigualdade e a exclusão no mundo, implantar a apartação mundial protegendo os ricos com mecanismos crescentemente mais fortes de repressão e segregação política e social; ou criar mecanismos sociais que façam a globalização sem exclusão, garantindo a todos os habitantes do mundo acesso à alimentação, à educação, à saúde e à moradia com água própria para consumo, coleta de lixo e esgoto. A primeira alternativa é tecnicamente possível, mas eticamente vergonhosa. A segunda é eticamente correta e tecnicamente possível. Os EUA gastaram US$ 100 bilhões nos investimentos europeus do Plano Marshall, em termos de dólares atuais, mais do que seria necessário investirem agora em um programa internacional que cuidasse de todas as crianças pobres do mundo, alimentando, educando, tratando e construindo cidadãos de um mundo melhor, depois da ira natural que hoje é sentida. Pena que as escolhas aparentemente não serão feitas por estadistas capazes de convencer o povo a fazer escolhas sem ira, olhando o longo prazo e as vantagens da solidariedade, parece que serão feitas por políticos mais preocupados com a próxima eleição do que com a próxima geração, acostumados a manipular a opinião pública, inclusive sua ira, para ganhar votos. E esses votos tendem mais facilmente para o pensar de curto prazo e para a glorificação da ira. Por isso, a ira do povo pode durar mais tempo, a serviço de políticos sem visão nem compromisso futuro e menos ainda com a humanidade. Talvez, o verdadeiro terror não esteja dentro de aviões carregados de combustível, mas dentro de nós, incapazes de administrar com ética e estadismo a monumental força técnica da civilização que adquirimos ao longo do século XX. Civilização cheia de maravilhas da técnica e de horrendas desigualdades sociais, habitada por terroristas fanáticos manipulando a mágoa dos povos pobres e por políticos deslumbrados com a ira dos povos ricos, líderes com as armas modernas e maldade antiga - em suas mãos, bombas atômicas e em seus corações, pesquisas de opinião. Talvez o depois da ira esteja muito longe. E talvez venhamos a ter saudades dela. A única certeza é a de que não sabemos ainda como será o mundo depois da ira. |
| ||||||||||||||||||||||||||||||