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Milton Santos conseguiu mostrar a beleza de uma ciência que não apenas descreve os fenômenos do relevo da Terra: mas que opta moralmente pela maneira como os homens transformam a Terra. Milton Santos fez uma geografia total, da qual os seres humanos fazem parte e fez uma escolha moral sobre o propósito das mudanças que os homens provocam. Com isso ele se fez parte da própria geografia viva e tentou influenciar os rumos da evolução dessa geografia. Esse foi o seu primeiro grande mérito. O segundo foi sua opção por um mundo onde as mudanças servissem a todos, onde a globalização não destruísse nações, onde todas as raças fossem consideradas sem preconceitos mútuos, onde a vida na Terra fosse maior do que a vida dos homens, levando em conta todo o processo ecológico. Nesse exercício de uma geografia viva e com um propósito, Milton Santos nos provocou a construir, como homenagem a ele, uma geografia moral do mundo moderno e global. Onde pelo menos cinco continentes morais aparecem. Primeiro, o continente da moral neoliberal. Dos indecentes que comemoram a riqueza econômica do século XXI, sabendo que ela ocorre ao mesmo tempo que aumenta a brecha social entre ricos e pobres, provocando uma desigualdade que dentro de alguns anos se transformará em dessemelhança. A ética daqueles que defendem este como o caminho brilhante para a humanidade. A ética da destruição ecológica e da ruptura da espécie humana entre os modernos e os excluídos. Uma ética sem solidariedade entre os seres humanos no mundo de hoje, nem entre os vivos de hoje com as futuras gerações. Segundo, o da ética da alienação. Os indiferentes que não percebem a tragédia do mundo em que vivem, não defendem a civilização da destruição ecológica e da construção da apartação, mas a tudo assistem alheios, beneficiando-se da modernidade excludente, sem respeito aos excluídos nem à vida no planeta. Terceiro, o continente da ética dos acomodados. Aqueles que percebem o desastre para onde caminhamos, não concordam com esse rumo, até denunciam o risco do trágico e vergonhoso mundo que se avizinha, mas nada fazem no dia-a-dia para mudar esse destino trágico da civilização. Não são indiferentes, são acomodados. Quarto, o da ética da espera. A que norteia aqueles que não ficam indiferentes, que estão contra o desastre em marcha da globalização excludente, mas assumem a posição da espera do dia em que o capital internacional vai fazer todos os seres humanos ricos, ou daqueles que em nome de uma revolução imprevisível, esquecem a necessidade de agir imediatamente para erradicar a pobreza e proteger o meio ambiente. É a ética da mentira dos que prometem o mundo radiante que não virá pelo capitalismo global, ou da mentira de que vale a pena morrer hoje na pobreza em nome de uma revolução anti-capitalista no futuro. Finalmente o quinto, que é o da ética dos militantes, que agem, participam do mundo querendo fazê-lo melhor e mais belo, desde já. Aqueles descontentes com o rumo das coisas, crentes em uma alternativa de civilização e ativos na procura de impedir o desastre e reorientar as energias do mundo para fazê-lo diferente. Sobretudo, aqueles que agem desde já na luta pela abolição da pobreza e na proteção do meio ambiente. Sem esperar para o dia de amanhã. Usando os recursos de que o Brasil já dispõe. Milton Santos fazia parte deste último continente da geografia moral de nossos tempos. Por isso ele vai fazer muita falta no cenário nacional dos próximos anos. Sua voz que nos alertava, que denunciava, usando a cortante lucidez de suas críticas será substituída por um silêncio inquietante, silêncio em ouvidos órfãos. Nesta página do Correio Braziliense ele deixa um vazio. Por isso, a melhor homenagem que podemos fazer é levar adiante o seu brado contra a insensatez do processo civilizatório atual. Seria um grande serviço o Correio republicar muitos de seus artigos. Como se ainda estivesse tão vivo quanto estão suas idéias e pensamentos, naquilo que escreveu e ensinou. |
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