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A força das crianças Nesta semana, o Unicef reuniu um grupo de 30 pessoas, escolhidas no mundo inteiro, no Carter Center de Atlanta (EUA), para discutir a proposta de uma Nova Agenda Internacional para as Crianças. Metade do grupo foi composto por funcionários do próprio Unicef e outra metade por convidados especiais. Discutiram, durante três dias, quais as opções para recuperar o tempo perdido desde a reunião de cúpula, realizada há dez anos, em que os presidentes do mundo inteiro se comprometeram a garantir um futuro melhor para cada criança. Vimos, durante esses três dias, que as metas propostas há dez anos continuam atuais. Isso mostra, por um lado, o fracasso na realização das metas, e, por outro, que o problema não está nas intenções, mas no enfoque dado a essas discussões. Até aqui, aqueles que se dedicam ao assunto pensam e agem na defesa dos direitos das crianças. Aceitam que o mundo seja dirigido pelas mãos daqueles que cuidam da economia, deixando de defender as crianças. Com este enfoque, o mundo fica com dois tipos de entidades: aquelas que cuidam da economia e têm força e aquelas que cuidam da proteção à infância e da educação, sem qualquer força. É o mesmo que ocorre dentro de cada país, onde os ministros da área econômica mandam e os da educação choram por mais recursos. Ao continuar nessa situação, a Nova Agenda para as Crianças, que será submetida a outra reunião de cúpula, em setembro de 2001, terá o mesmo destino da. Para apresentar resultados, a Nova Agenda deverá mudar seu enfoque. No lugar de apenas defender os direitos que nunca se realizam, é preciso mostrar o poder que têm as crianças como depositárias do futuro. Um intenso programa de escolarização com qualidade é mais do que um direito das crianças, é uma necessidade do mundo. O maior direito de uma criança é ter assegurado o desenvolvimento de todo seu potencial, para que ela cumpra seu dever de, no futuro, construir uma sociedade melhor. Com esse novo enfoque, no lugar de ficar pedindo esmolas para as crianças, aqueles que se preocupam com elas devem propor um programa abrangente e radical mostrando o que é necessário para ter todas as crianças do mundo estudando em escolas de qualidade. A segunda mudança diz respeito à defesa desse programa abrangente e radical na área de educação. No lugar de uma justificativa defensiva, como se fosse preciso tirar da economia para cuidar das crianças, devemos mostrar que investir nelas e na educação delas é a melhor forma de construir um mundo sem pobreza e dinamizar a economia no longo prazo. O momento é favorável para a mudança de enfoque. Os que dirigem a economia, no Banco Mundial e no Fundo Monetário Internacional, começam a perceber que estiveram arquitetando um modelo que, continuando em execução, provocará o desastre completo no desenvolvimento da humanidade. Os movimentos de protesto ocorridos em Seattle, Davos e Praga mostram que sem uma mudança de rumo, não haverá paz. O cenário está pronto para uma alternativa. Nenhuma é melhor do que um plano mundial de investimentos na educação. O mundo não precisaria investir mais do que 0,5% de sua renda para assegurar que todas as crianças tivessem condições de estudar e para garantir uma substancial melhora na qualidade da educação no mundo inteiro. O resultado seria positivo não apenas para os países pobres diretamente beneficiados. Os países ricos se beneficiariam da redução da migração, na diminuição da dependência internacional e na benéfica dinâmica que este movimento propiciará. Há cinqüenta anos, os países ricos do mundo fizeram um plano econômico, o Plano Marshall, para recuperar a economia européia destruída pela guerra. Ainda há tempo de um plano semelhante ser dirigido às crianças do mundo. Graçava a idéia de que o potencial despertado com o Marshall seria dirigido para a revolta, no lugar da produção. O Plano Marshall despertou o potencial produtivo desativado da Europa. Um Plano Social para as crianças despertaria o potencial positivo das crianças para construir o futuro. Se isso não for feito, o potencial dessas crianças, dentro de 20 anos, se manifestará de uma maneira destrutiva. Não faz muito, a força das crianças se manifestou em um jovem chamado Sandro que seqüestrou os passageiros do ônibus da linha 174, no Rio de Janeiro, e junto com eles, todo o país. Se quinze anos antes tivesse sido beneficiado pelo investimento necessário à educação, Sandro teria usado seu potencial para construir o país, no lugar de seqüestrá-lo. Isso vale para o mundo inteiro. Um país como o Brasil não precisa esperar o resto do mundo que, em setembro de 2001, conhecerá a Nova Agenda do Unicef. Temos todos os recursos necessários, temos o sentimento da urgência de mudar o rumo das coisas, sabemos como fazer - tanto que, lá fora, buscam os exemplos criados aqui. Falta os defensores das crianças descobrirem o potencial que elas têm e transformar esta força em uma proposta alternativa para todo o mundo. |
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