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Ainda
é possível Se no lugar de ver o Brasil apenas como um território a ser explorado, os portugueses tivessem escolhido fazer aqui um novo país. Se em vez de degradados aqui deixassem famílias e no lugar de donatários tivessem dividido a terra entre essas famílias. Se no lugar de mão de obra escrava para produzir açúcar para exportar, tivessem usado o trabalho livre produzindo para o mercado interno. Se no lugar de proibir a produção industrial no Brasil, os portugueses tivessem incentivado a industrialização, já no final do século XVIII. Se no lugar de enforcar os inconfidentes, o Brasil tivesse ficado independente naquele momento e sob aqueles líderes nacionais. Se, trinta anos depois, no lugar de instalar uma monarquia filial da dinastia portuguesa, o Brasil tivesse ficado independente com um presidente eleito. Se no lugar da ostentação dos nobres tivéssemos construído escolas e criado universidades nacionais para formar as novas gerações de brasileiros. Se, ao libertar os escravos, o Brasil também tivesse libertado a terra, dando-a aos que nela quisessem trabalhar. Se além de proclamar a República por meio de um Marechal, tivéssemos começado a construí-la por meio de professores. Se no lugar de industrializar para substituir importações da demanda dos ricos, a industrialização atendesse as necessidades do povo. Se as novas indústrias utilizassem técnicas adaptadas à nossa realidade. E no lugar de querer imitar os ricos do mundo, tivéssemos nos lembrado dos habitantes daqui. Se no lugar da grande mentira de que trabalhando para atender a demanda dos ricos os pobres sairiam da pobreza, o Brasil tivesse mobilizado sua população para produzir o que atenderia as necessidades de toda a população. Se o Brasil tivesse considerado sua moeda tão importante quanto sua bandeira e não tivesse cometido a insensatez de financiar o elevado custo de seu desenvolvimento imitativo com dinheiro inflacionário. Se no lugar de fazer uma ditadura para resolver os problemas criados pelas decisões equivocadas anteriores, o Brasil tivesse continuado discutindo democraticamente seu caminho, escolhendo alternativas, elegendo livremente seus dirigentes. Se no lugar de endividar-nos para crescer mais depressa tivéssemos crescido sem dívidas, ainda que mais devagar. E se no lugar de crescer para distribuir, tivéssemos distribuído para crescer. Se nossas universidades tivessem copiado menos idéias de fora e criado idéias próprias. Se nossos sindicatos tivessem mantido o sentimento nacional e a urgência de mudanças no lugar de ficarem presos às reivindicações corporativas. Se as corporações empresariais tivessem o mínimo respeito pelo povo e um mínimo que fosse de sentimento nacional. Se a democracia tivesse voltado trazendo a liberdade tanto quanto as necessárias reformas sociais, garantindo o direito à comida, à escola, à saúde. Se os constituintes não tivessem sido hipócritas ao dizer que bastava a Lei para garantir os direitos reais, e no lugar de tantos artigos tivessem feito as reformas sociais necessárias para mudar o País. Se não tivessem sido enganados eles próprios pela cultura da inflação que passava a ilusão de que o Estado é onipotente. Se os brasileiros tivessem entendido que antes de enriquecer um país é preciso desempobrecer o seu povo. Se o povo não estivesse sendo enganado com a nova grande mentira do neoliberalismo global: que todos ficaram ricos porque alguns ricos podem comer batatas fritas importadas. Se no lugar de abrir as portas para tudo que é estrangeiro, o Brasil tivesse desenvolvido um amor para o que é seu. Se, agora, os brasileiros ao menos percebessem que estão construindo um desenvolvimento que separa ricos e pobres, transformando a desigualdade em dessemelhança. Se cada um de nós lembrasse, hoje, como o Brasil poderia ser diferente se no passado tivéssemos agido com sentimentos sociais e patrióticos e se percebermos que ainda é possível fazer o que não foi feito, juntos nós poderíamos começar a construir o futuro que tem sido sempre adiado. |
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