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O Brasil bonito A economia nigeriana se resumiu à exportação de petróleo e importação de champanha para a elite da população, durante anos. O petróleo ia para os países ricos para que movimentassem seus carros e poluíssem a atmosfera; a champanha alegrava os ricos nigerianos a custo da poluição do Oceano Atlântico. Passados os anos, a economia nigeriana está tão pobre quanto antes - e as reservas de petróleo cada vez menores. A economia brasileira foi um pouco diferente. Como não tínhamos petróleo, foi preciso colocar os brasileiros para produzir nossos bens de exportação. Como havia um protecionismo, conseguimos desenvolver uma base industrial local e, para servi-la, criamos uma formidável infra-estrutura. Passados os anos, como a da Nigéria, nossa economia é feia. Não temos uma economia somente pobre ou injusta, temos uma economia esteticamente feia: na concentração da renda, na degradação ambiental, no abandono da saúde, no desemprego de adultos, no trabalho infantil, no quadro vergonhoso da educação, na desnacionalização e perda da soberania, nas cidades inchadas, na violência urbana, na concentração da terra, nas multidões de sem-terra, sem-teto, sem-emprego, sem-educação, ao lado da imoralidade de algumas das maiores riquezas de todo o mundo. Mais do que apenas retomar o crescimento e a criação de vagas de emprego, a economia brasileira precisa ficar bonita. Disso os economistas não entendem, nem qualquer outro profissional. Engenheiros e arquitetos querem construir no Brasil, mas não pensam em construir o Brasil. Construir no Brasil é projetar e fazer belas escolas, construir o Brasil é garantir que nenhuma criança fique fora delas. Pode-se construir muitos bons hospitais no Brasil, mas construir um país é garantir que sua população tenha acesso a um bom sistema de saúde pública. Também é possível fazer belos museus, mas só se faz um país, se todos os seus habitantes usufruírem dos bens culturais neles exibidos. No Brasil, economistas e outros profissionais perderam a perspectiva de pensar, projetar e construir um país bonito. Ficaram prisioneiros das respectivas lógicas corporativas. Os economistas cuidam do crescimento, mesmo que concentrando a renda, degradando o ambiente, roubando recursos dos setores sociais para a infra-estrutura econômica. Os arquitetos e engenheiros acham que suas responsabilidades incluem apenas a construção de escolas, de hospitais e de museus, sem qualquer preocupação para quê e para quem servem essas edificações. Cada grupo preso nos seus conceitos técnicos, sem o sentimento de justiça da ética, nem o estético da beleza de uma sociedade equilibrada. Em 2002, o Brasil vai escolher um novo presidente. Seu maior desafio não será resolver cada um dos problemas da sociedade brasileira. Será despertar os brasileiros para que se envolvam, sem o corporativismo das últimas décadas, na tarefa de construir um país bonito. O primeiro traço dessa beleza nacional se mostrará ao completarmos nossa democracia: com aumento da participação popular, com Justiça igual para todos os brasileiros - sem os privilégios dados aos ricos - e com o fim definitivo da imoral tolerância à corrupção. O segundo será visto na erradicação da pobreza. O Brasil não será um país bonito para ninguém enquanto tivermos pessoas com fome, crianças sem escola, famílias sem atendimento médico, nem um lugar digno para morar. O terceiro traço se revelará na garantia de qualidade de vida para todos os habitantes do país, com uma economia dinâmica, com um meio ambiente respeitado, com um trânsito que flua e com segurança nas ruas. Um Brasil bonito tem de saber como participar da globalização sem perder sua soberania, nem sua identidade nacional. Tem de levar adiante o avanço técnico sem gerar desemprego e tem de crescer sem destruir o meio ambiente. Tudo isso será possível se os brasileiros e seu próximo presidente desejarem fazer do Brasil, não apenas uma economia em crescimento, mas um país verdadeiramente bonito. |
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