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Três razões explicam esse desprezo às bochechas das crianças no pensamento social brasileiro: primeiro, o fato de que os autores dos estudos têm filhos sadios e não vêm as bochechas dos filhos dos pobres; segundo, porque a dominação acadêmica do pensamento considera ridículo e risível preocupar-se com bochechas, no lugar da seriedade dos assuntos da economia; e terceiro, porque viciados no pensamento econômico, os brasileiros acham que a cor e a forma das bochechas não existem por si, elas são produtos da renda. A cor e a forma dependeriam da renda dos seus pais. Para olhos econômicos, é a renda, não as bochechas, que de fato existe. A primeira razão mostra o egoísmo; a segunda, a insensibilidade; e a terceira mostra a estupidez. Ninguém pode exigir solidariedade ou sensibilidade, mas é um direito exigir que os pensadores brasileiros não sejam estúpidos. A saúde de uma criança está, quase sempre, mostrada no seu rosto, nas suas bochechas. Se queremos um país saudável, temos que partir da observação do rosto de nossas crianças; por isso, é um absurdo recusar-se a ver e dar importância às suas bochechas. Os rostos de nossas crianças servem como indicador da desigualdade e permitem entender a pobreza real, não como uma questão de renda, mas de acesso aos bens e serviços essenciais, aos direitos fundamentais de cada cidadão, começando das crianças. Vista pelos incluídos na modernidade, a renda é definitiva para garantir uma boa escola privada e um seguro privado de saúde. Porque eles dispõem do mínimo de renda necessária para pagar esses custos. Mas é uma mentira prometer que é por meio da renda que todos terão acesso aos serviços médicos e educacionais privados. A distribuição eqüitativa da renda nacional entre todos os brasileiros não seria suficiente para assegurar qualidade de vida a todos os brasileiros. Mais do que a distribuição, o que importa é a utilização da renda. Como o Brasil usa o conjunto de quase R$ 1 trilhão da renda nacional, dos quais mais de R$ 300 bilhões vão para as mãos do setor público, utilizados conforme as decisões do Poder Executivo e dos parlamentares brasileiros. Mais do que a renda dos pais, a causa da desnutrição infantil no campo está no latifúndio, que não permite trabalho ao sem-terra, e na aculturação das famílias que perderam o conhecimento de formas próprias de alimentação. A saúde de uma criança depende mais dos serviços disponíveis, do cuidado dos governos, do grau de educação, dos valores culturais e do conhecimento social de seus pais, do que da renda. Mais do que renda, faltam políticas públicas de proteção a todas as crianças. A visão econômica fez com que o Brasil tenha uma obsessão com o crescimento econômico e nenhuma preocupação com o crescimento das pessoas. Há ministérios administrando o crescimento econômico, mas não há uma preocupação com a coordenação de políticas públicas, um ministério do crescimento real, capaz de cuidar do pré-natal até o primeiro emprego de cada novo brasileiro. Para isso bastaria um sistema de proteção à infância com programas perfeitamente possíveis: a) a garantia de atendimento com qualidade a todas as mães, durante a gravidez; b) um programa de apoio às famílias pobres para cuidarem de seus filhos até os cinco anos; c) a garantia de Bolsa-Escola em valor suficiente, sem atraso e com rigoroso controle da freqüência escolar, até o final do ensino médio; d) um programa de Poupança-Escola para induzir a promoção escolar no final do ano letivo; e) a universalização do serviço cívico voluntário, competente a todos os jovens; f) a contratação de professores no número necessário e com salários satisfatórios; g) a avaliação do sistema educacional com a responsabilidade recaindo sobre governantes, professores e pais; h) um sistema de microcrédito assegurado a todos os jovens; i) garantia de vagas em universidades públicas ou bolsas de estudos em universidades particulares de qualidade para todos que passassem em vestibulares sérios; j) universalização do ensino técnico profissional para todos os jovens. O conjunto desses programas custaria cerca de R$ 15 bilhões por ano, menos de 5% da receita atual do setor público brasileiro, perfeitamente dentro das possibilidades nacionais. Distribuiriam a cor e a forma das bochechas de nossas crianças, a competência e a esperança de nossos jovens, que mudariam o Brasil em poucos anos. Dois fatores impedem a realização de um programa desse tipo: a miopia moral, que não permite aos ricos verem as bochechas das crianças pobres; e a miopia lógica, que amarra o problema moral à economia. Por isso, o primeiro passo para um Brasil com boa distribuição das cores e das formas das bochechas de nossas crianças é uma mudança na consciência e na visão de nossa elite dirigente. Elite que, em geral, não percebe a desigualdade social e quando percebe, simplifica e transforma em simples desigualdade de renda. Com essa nova visão, os próximos meses são o momento certo para começar a fazer a distribuição. Bastaria que na elaboração do orçamento para o ano 2002, ao lerem os números apresentados pelos economistas dos governos (Federal, estaduais, municipais e distrital), os parlamentares brasileiros percebessem que escondida naqueles números está a desigualdade nas bochechas de nossas crianças. E, dependendo de como aqueles números virarem as leis dos orçamentos da União, dos Estados e dos Municípios, essa vergonha nacional poderá ser corrigida. |
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