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Coragem O idioma português às vezes faz milagres: Teotônio, Tancredo, Betinho, Darcy, Covas, de repente rimam com a palavra coragem. A coragem maior de homens públicos para levar adiante os seus compromissos públicos enfrentando as dificuldades físicas pessoais diante do povo. Destes, apenas Covas nos reserva a esperança de superar as dificuldades que enfrenta, e de continuar conosco por muitos anos adiante. Mesmo assim, apesar da imprevisibilidade do seu destino, graças ao poder da ciência médica e à sua força pessoal, que podem lhe permitir sobreviver a qualquer um de nós, ele já demonstra a força da coragem que os outros tiveram. Todos torcemos para que, em alguns meses, o governador Covas tenha superado todas as dificuldades e substituído nossa presente simpatia por, outra vez, nossa irritação diante de suas falas de turrão, suas brigas com sindicatos, seus choques com a oposição. Hoje, independente do futuro, vendo a forma como ele enfrenta a doença diante de todos nós, pela televisão, as palavras que temos são de admiração, respeito e simpatia. Ao mostrar-se como um ser humano, com as fragilidades físicas de qualquer um de nós, o governador de São Paulo mostra um lado raro na vida de políticos. A transparência de mostrar suas entranhas iguais as nossas, sem tergiversar, sem esconder, sem a falsa imagem que os homens públicos cultivam tentando aparentar super-homens. Poucos políticos se mostram desnudos na fraqueza comum de suas carnes, como se aceitassem que o público fizesse uma autópsia em seu corpo vivo. Isso exige mais do que coragem, exige desprendimento. Covas é o maior exemplo que já tivemos desse comportamento exemplar. O político vive de zelar por uma imagem que nem sempre corresponde à realidade, de tentar fazer com que o público creia que ele é um ser superior. Covas escolheu mostrar que ele é igual a qualquer de nós e faz isso com rara coragem. Porque a fama aumenta o peso da dor de nossas dificuldades particulares. O que vimos em Covas, como em Betinho, em Darcy, em Teotônio e Tancredo é a coragem de colocar o serviço público à frente da própria vida. A consciência do risco pessoal, diminuída diante da consciência social de ter uma tarefa política a cumprir. Tancredo não mostrou sua doença, levou-a ao máximo risco de sua vida para enfrentar o risco de um retrocesso no processo de democratização. Consciente do risco que corria, preferiu enfrentar o seu corpo para evitar que, diante de sua fragilidade física, as forças da direita impedissem a posse de um presidente democrático. Talvez tenha errado nos cálculos, talvez esse risco não existisse, mas isso não diminui seu heroísmo. É necessária muita grandeza para não optar pela dedicação total ao tratamento, ou apenas viver o tempo adiante. Covas está nos dando o exemplo de preferir o exercício do cargo, com todos os sacrifícios físicos, levando até às últimas conseqüências o seu compromisso com São Paulo. Ser político é ter partido, mas o risco de vida faz o homem superar os partidarismos e assumir a dimensão maior de ser cidadão. Ao assistir na televisão a coragem com que Covas enfrenta as dificuldades atuais, qualquer um se emociona, esquece seu próprio partido e o dele também. Ao se mostrar humano, ele recebe tratamento de ser humano, como qualquer um de nós, apenas com mais coragem. Ninguém se lembrava do partido de Teotônio, de Betinho ou de Darcy porque, pela força e pelo sentimento, eles passavam uma mensagem de dimensão maior que os pobres limites da política dos comuns. Na doença, o partido de Teotônio foi liberdade, do Betinho foi pão, do Darcy, o Brasil inteirinho. Ao enfrentar as dificuldades com a força que têm, esses homens engrandecem a atividade pública, enaltecem a tão degradada atividade política. É como se a fragilidade da vida pessoal fortalecesse a vida política. Eles mostram que os políticos não são feitos apenas do interesse pessoal, dos arranjos partidários, da luta pelo poder, da busca de enriquecimento, do egoísmo e da vaidade. Com a abnegação de entregar os próprios corpos fragilizados e deles exigir mais do que podem, mostram a grandeza que há no exercício do cargo público. É uma pena que, nesses momentos mais fortes de suas carreiras, eles tenham tido pouco tempo para exercer suas funções com a grandeza que a doença lhes deu. Por isso, precisamos torcer e rezar para que Mário Covas, usando as técnicas modernas e a força que tem, supere as dificuldades físicas que atravessa, e use por muitos anos a força moral que adquiriu para nos ajudar a superar nossas dificuldades sociais e políticas: abolir a pobreza, consolidar a democracia, eliminar a corrupção, oferecer terra para quem quer trabalhar, garantir escola de qualidade para todas as crianças brasileiras, melhorar a qualidade de vida de cada brasileiro, globalizar o país sem perder a identidade nacional, produzir sem matar a natureza e crescer sem destruir os empregos. Essas são as bandeiras suprapartidárias de hoje, como foram outras que rimaram com os nomes de heróis anteriores. Que a força que vem de suas dificuldades para andar e para falar, chegue aos políticos que andam sem dificuldades mas escolhem caminhos errados, que falam sem dificuldades, mas preferem mentiras. Quando fez sua primeira operação, mandei-lhe uma mensagem em que dizia para não se deixar abater por ter perdido alguns centímetros de uma membrana chamada bexiga - que ele nem lembrava ter - , agora, com maiores e mais importantes centímetros retirados, eu gostaria de pedir que continue sendo exemplo de vida pública e use seu poder moral para falar ao Brasil como um só povo em busca de esperança para superar dificuldades e doenças sociais tão graves como as que ele enfrenta. Coragem para todos nós, porque Covas, ele já tem suficiente. |
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