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CPI do medo De vez em quando, o Brasil é tomado por questões que desafiam todos nós, no mesmo instante. Às vezes, é uma pergunta literária: qual será o final da telenovela. Outra é esportiva: o que houve na final da Copa do Mundo. Pode, também, ser política, sobre as causas da renúncia de um presidente. Atualmente, os brasileiros estão questionando o porquê de Fernando Henrique Cardoso se expor a manchar sua figura na história, para evitar uma CPI que investigaria a corrupção. De que tem medo o presidente? Pode ser o temor legítimo de uma crise financeira provocada pela desconfiança que surgiria no sistema financeiro internacional. Sendo este o caso, seu governo vem nos mentindo ao longo dos anos, ao apresentar uma falsa solidez econômica e monetária. Ele está assinando um atestado de incompetência. Sua grande marca não resiste a suspeitas de que há corruptos em seu governo que convive com corrupção. Triste é um país com inflação, mais ainda aquele que, para garantir estabilidade, tem de vender sua moral, submeter-se à chantagem de políticos corruptos - um país que, para evitar a crise financeira, precisa viver com vergonha. Talvez o presidente continue dizendo a verdade quando afirma que o Real está firme. Neste caso, o medo estaria na possibilidade de a oposição usar a CPI como alavanca política. Se este for o medo, o Brasil deve ficar ainda mais assustado. Isso significaria uma de duas coisas: ou o governo tem medo de que a CPI desmoralize seus aliados e ministros, envolvidos com a corrupção que seria descoberta; ou o governo e o seu partido, o PSDB, não sentem-se com legitimidade para agir, dentro de uma CPI, contra a corrupção. Se estivesse vivo e no Congresso, Mário Covas seria um dos baluartes de qualquer CPI para apurar corrupções. Deputados e senadores da oposição teriam dificuldades em parecer mais éticos e combativos do que ele. Seu partido sairia fortalecido da luta. Um partido que o teve como líder, se descaracteriza quando assume sua falta de legitimidade e de vocação para ser um instrumento da ética, no meio do embate de uma CPI. O medo pode estar no fato de que o presidente, sendo honesto, não confia em seus auxiliares e se assusta diante do que descobriria, ele próprio, em uma CPI. Não confiando nos auxiliares encarregados de informá-lo - os mesmos que não teriam alertado para a crise energética, para os desvios de recursos públicos, através de projetos da Sudene e Sudam, para a violação do painel eletrônico por seu próprio líder no Congresso -, o presidente não confia nos seus assessores e ministros. Para evitar o próprio susto de descobrir, junto com o País, coisas das quais não deseja tomar conhecimento e que acontecem ao seu lado, ele prefere impedir a CPI. A outra hipótese seria o presidente estar comprometido com atos de corrupção que poderiam surgir nas investigações. Neste caso, seu medo explicaria todos os atos absurdos cometidos nos últimos dias, como forma de impedir que o povo saiba o que se passa nos subterrâneos do seu governo. É este medo do presidente que nos amedronta. Deixa-nos assustados a possibilidade de descobrirmos que estávamos equivocados ao defender a idoneidade dele, mesmo no meio de tantas suspeitas de corrupção ao seu redor. Esta é a pior de todas as conseqüências da operação abafa CPI: ficamos assustados pela dúvida sobre a ética do presidente. Não sei de que tem medo o presidente, mas tenho medo de descobrir que fui enganado; mesmo assim, mais medo tenho de não descobrir e continuar com esta dúvida. O povo inteiro precisa e tem o direito de saber de que tem medo o presidente. O presidente pode sobreviver com medo de que o povo saiba das coisas, mas o povo não pode viver com medo de descobrir o que sabe o presidente. Para acabar com nosso medo, precisamos de uma CPI que nos diga de que tem medo o presidente. Uma CPI do medo. |
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