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Nas últimas semanas, a imprensa retrata um Brasil descontente e pessimista. Nos mesmos dias, tivemos um sentimento de fracasso institucional decorrente do comportamento de políticos e do fracasso econômico pela imprevidência do governo. A auto-estima da população chegou a níveis dramáticos. Sentimo-nos desmoralizados no comportamento e na força. Entretanto, quanto mais observo o mundo ao redor, mais orgulho tenho do povo brasileiro e do potencial de reação de nosso País. Nenhum outro país, nestes últimos dez anos, foi capaz de sair de uma ditadura sem revanches, ou de desmontar o entulho autoritário sem traumas. Nem de elaborar uma Constituição democrática sem paralisar o País, ou de eleger um presidente da república e retirá-lo do poder, dentro das regras democráticas. Fomos capazes de manter seu substituto constitucional (Itamar Franco), sem qualquer constrangimento, e de controlar uma inflação permanente, antes de cair na hiperinflação. Nesse meio tempo, chegamos a cassar senador e prender juiz que roubaram dinheiro público. Agora, enfrentamos uma tremenda crise energética, decorrente de irresponsabilidade governamental, mas conseguindo cortar, de imediato, até 20% do consumo doméstico, antes mesmo de começar o racionamento. Nenhum país conseguiu, em tão pouco tempo, fazer tanto para vencer tantas dificuldades criadas por militares, políticos e governos. Se por um lado é frustrante ver que todo este esforço é para evitar tragédias, sem que o País melhore, - como se fôssemos todos goleiros, sem direito a fazer gols - ao mesmo tempo, é entusiasmante ver o potencial que tem o Brasil. Um país onde o povo sabe transformar em vitória o que parece tragédia. De todos os nossos problemas, o maior está na falta de uma condução que permita usar esse potencial para construir e não para evitar destruição; para usar bem os recursos públicos e não para cassar seus ladrões; para usar bem a energia e não para evitar apagões; para fazer o país crescer e não para só estancar a inflação. Um país onde a população consegue reduzir em 20% o consumo doméstico de energia elétrica pode perfeitamente elevar em 20% o seu potencial educacional, consertar suas estradas, desenvolver sua ciência e tecnologia, defender a Amazônia e colocar água e esgoto em todas as casas. Se temos competência para poupar quando é preciso, podemos ter também para construir, transformando apagão em clarão. Um povo que consegue poupar kW tem capacidade para desenvolver o QI de suas crianças. Se conseguíssemos levar para o PIB todo o êxito obtido na redução do consumo de energia, o Brasil disporia de R$180 bilhões anuais para investir naquilo que poderia nos transformar de um país do desperdício em benefício de poucos, em um país do bem-estar para todos. Bastariam apenas 20% disso para abolir a exclusão social do País e ainda sobrariam R$140 bilhões para os investimentos sociais e econômicos de que o Brasil precisa. A tragédia dos apagões, que tanto nos incomoda e humilha, colocando-nos trinta anos atrás, recuando em comparação com outros países, pode servir para descobrirmos o potencial que tem nosso povo, quando mobilizado. Bastaria mudar a motivação dessa mobilização e o Brasil seria o que nós queremos - e que os governos têm insistido em impedir que sejamos. A partir deste mês, o Congresso Nacional inicia a elaboração do Orçamento da União para 2002. Os Estados, o Distrito Federal e os municípios farão o mesmo. Este é o momento de o povo, que se mobiliza pela poupança de energia, mobilizar-se, também, pelo uso correto dos recursos de seus impostos. Se essa mobilização tivesse ocorrido anos atrás, dando-se ouvidos aos que avisaram da crise energética, hoje não estaríamos sofrendo o risco de apagões. Cada centavo do orçamento pode ser comparado a um quilowatt de nossas hidrelétricas. Se usarmos corretamente o dinheiro, a partir de 2002, para investimentos sociais, não faltará cidadania aos que hoje são excluídos pela pobreza, pois ela terá sido abolida. O apagão pode servir para nos despertar à percepção dos desperdícios e equívocos no uso de nossos recursos. O clarão está no uso correto dos recursos dos quais o Brasil já dispõe. Se despertarmos, um dia vai ser dito que o Brasil é um país onde o clarão de nosso futuro saiu do apagão de nosso presente. Isso acontece muitas vezes na vida de cada indivíduo e pode acontecer, também, na história de um povo. |
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