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As nações têm necessidade de pudor, tanto quanto as pessoas. Apesar de nosso orgulho com atletas e artistas, temos sido um país despudorado no político, no social, no ecológico, no moral e em nossa soberania. O despudor brasileiro se revela com várias faces: nas formas como sua riqueza é concentrada, como suas crianças são relegadas, como sua natureza é depredada, como seus pobres são abandonados, como seus doentes são maltratados, como sua finanças são desequilibradas, como sua infra-estrutura é insuficiente, como sua economia é vulnerável, como sua soberania é frágil, como seus governantes são autoritários e sua democracia eivada de corrupção, corporativismo e interesses menores. Ao longo de décadas, também fazia parte da falta de pudor a desvalorização continuada de nossa moeda. Enquanto outros países têm um único padrão monetário ao longo de séculos, o Brasil, vergonhosamente, chegou a mudar de moeda várias vezes dentro de uma mesma década. Mesmo depois da retomada da democracia, pouco tem sido feito para dar ao País um sentimento de pudor nos aspectos sociais, na luta contra a corrupção, na defesa da natureza e da soberania. Mas, a partir de 1994, nossa moeda passou a nos valorizar a auto-estima. Isso está ameaçado. É certo que a inflação mantém-se ainda dentro de níveis toleráveis. Mas a constante desvalorização do Real diante das outras moedas ameaça a estabilidade monetária. Se, nas próximas semanas ou dias, o processo de desvalorização continuar, além de ficar impossível impedir o seu impacto sobre os preços internos, o Brasil caminhará para perder um dos poucos motivos de auto-respeito que adquiriu. A defesa da moeda deve ser, por isso mesmo, um objetivo capaz de unir todos os setores da sociedade brasileira. Nas últimas semanas, o PT deu uma prova de patriotismo ao utilizar seu horário eleitoral para pedir que o povo economize energia. Sabem os líderes do PT que o êxito da campanha de poupança de energia beneficiará o atual governo, porque reduzirá o impacto negativo da imprevisão governamental, mesmo assim, sabem que, se não for dominada, a crise energética trará prejuízos maiores para o País. Por isso, o PT está agindo com responsabilidade e patriotismo. O mesmo deve ocorrer com a defesa da moeda. O atual governo é o grande responsável pela situação cambial: até 1998, se comportou com a moeda como fez com a energia - escondendo a crise. Não criou mecanismos contra a vulnerabilidade diante de desequilíbrios importados, como o de agora, na Argentina. Manteve uma supervalorização do Real que levou aos déficits na balança comercial. E continua sem uma estratégia clara para enfrentar a crise. Outra vez, a oposição não tem qualquer culpa. Mas, a crise se agrava com a natural incerteza dos investidores estrangeiros diante da mudança de governo em 2002. O pudor de uma nação depende da maneira como os líderes enfrentam as dificuldades de seu povo, colocando os interesses permanentes acima do imediatismo dos processos eleitorais. Não se viu o governo de Fernando Henrique Cardoso fazer isso no primeiro mandato, quando, para aprovar a emenda da reeleição fez concessões éticas. Para ganhar a eleição escondeu a fragilidade do Real. Nos últimos meses, tem manipulado para impedir a CPI da corrupção. Os partidos de oposição não devem fazer igual, nem imaginar que a realidade vai esperar 18 meses até que o novo presidente assuma. Por isso, em nome do pudor nacional, é hora dos partidos de oposição agirem para que o calendário e os discursos eleitorais não agravem a crise, servindo como desculpa para o atual justificar a falta de credibilidade internacional. A credibilidade brasileira, no cenário mundial, trará mais vantagens para o próximo governo do que para o atual. O mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso ficará negativamente marcado se o seu governo terminar com inflação, mas o mandato do próximo começará caótico e poderá terminar ainda pior, se começar com inflação. E o Brasil e o povo serão os grandes derrotados. Todos terminarão melhor se a credibilidade brasileira não for destruída. Se o mundo acreditar que o próximo governo terá responsabilidades éticas e sociais casadas com a responsabilidade fiscal e o respeito à moeda, se lá fora acreditarem que 2002 será atravessado com responsabilidade, o Brasil terá uma redução na sua taxa de risco, conseqüente diminuição nos juros que paga ao exterior, um alívio no balanço de pagamentos e mais recursos para investimentos. O atual governo poderá ter mais fôlego, - menos desculpas, em compensação - e o próximo terá todo o mandato para percorrer o caminho que o povo começa a sonhar que é possível. Não se faz um bom governo jogando fora as boas coisas que o País conseguiu antes. Não se adquire o pudor que falta aumentando a vergonha que já foi superada. Todos, especialmente os líderes, somos responsáveis pelo pudor do Real, mesmo quando o governo é o culpado pela crise que ele atravessa. |
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