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Durante os anos 60 e 70, os países orientais enviaram milhares de jovens para fazer seus doutorados nos países ocidentais, e estes enviaram milhares dos seus para buscarem inspiração espiritual no Oriente. Os primeiros esqueceram suas raízes, aprenderam a lição que receberam e construíram o desenvolvimento econômico que revolucionou os seus países, mas sem reduzir a pobreza e aumentando a desigualdade, destruindo o meio ambiente, desarticulando culturas. Os outros voltaram a suas origens, esqueceram o que viram no mundo oriental e se transformaram nos dirigentes do mundo global de hoje. Mas há exceções. Entre os jovens dos países ricos que foram em busca de inspiração espiritual, alguns se mantiveram fieis, e entre os jovens dos países pobres, alguns voltaram às suas origens, adaptaram às suas realidades o que aprenderam nos doutorados, inventaram novas formas de enfrentar os problemas de seus países e estão mudando a realidade deles, enfrentando o problema da pobreza. Entre estes está Muhammad Yunus, de Bangladesh. No final dos anos 60 e começo dos 70, ele foi aluno dos cursos de doutorado em Economia nas universidades americanas. Formado, ele se transformou em professor naquelas universidades. Mas, como milhares de outros jovens, preferiu voltar, recebeu a tarefa de dirigir novo centro de ensino de Economia em Bangladesh. Diferentemente dos demais doutores em economia dos países pobres, o jovem Yunus percebeu a pobreza que havia ao redor da Universidade e entendeu que a teoria econômica não estava elaborada para ajudar a enfrentar esse problema. Sensibilizou-se com a tragédia que via e agiu para mudar. Para isso, teve que mudar radicalmente tudo o que tinha aprendido e inventar um novo sistema de crédito, diferente dos livros: um banco que chegasse a quem precisa de dinheiro, e não a quem já tem dinheiro. Hoje, conhecido mesmo no Brasil como o banqueiro dos pobres, Yunus pode se orgulhar de ter 2,4 milhões de pobres beneficiados pelo seu Grameen Bank. Graças a isso, ele está provocando um novo fluxo de visitantes ocidentais em direção ao Oriente - desta vez, de países pobres para aprenderem em Bangladesh. São dirigentes de bancos e outros profissionais em busca de inspiração para, por meio do micro-crédito, ajudarem os pobres de seus países. Passar uma semana escutando o professor Yunus, no seu escritório, na barulhenta e buliçosa cidade de Daca, é ouvir mais do que um criativo técnico em sistema bancário: é aprender uma nova maneira de definir as coisas. Não adianta ir lá e querer mudar somente algumas pequenas regras de concessão de crédito. É preciso mudar a postura na prática bancária. É preciso redefinir os conceitos. Para ele, ser pobre não é ter renda abaixo de um certo nível, é não ter acesso a uma lista de itens, entre os quais, "garantia de três refeições diárias ao longo de todo o ano, inclusive durante o período de seca", "uma casa, com cama e mosquiteiro", "acesso a serviço médico" , "todos os filhos na escola", "capacidade de pagar um pequeno empréstimo", "dispor de uma pequena poupança, porque, sem garantia de enfrentar dificuldades imprevistas no futuro, a pessoa é pobre". É uma nova definição, também, ver o acesso ao crédito como um direito humano. Para o Yunus, o acesso ao crédito está para o trabalhador de hoje, como a terra estava para os ex-escravos. Os escravos não foram libertados plenamente porque não receberam terra para plantar, hoje uma parte da população continua escrava, se não tiver acesso ao crédito para financiar o uso de seu potencial. É para garantir isso que o Banco Grameen oferece crédito até ao mais pobre entre os pobres. Mas para isso, ele também teve de mudar o conceito de banco e de empréstimo. Para surpresa dos que vão em busca de sua inspiração, micro-crédito não é um empréstimo de pouco valor. Micro-crédito é o "empréstimo dirigido ao pobre", "de preferência nas mãos das mulheres", "sem necessidade de garantias", "sem condições prévias de experiência empresarial de parte do tomador". Finalmente, Yunus diz que "o que afasta o tomador não é valor dos juros, mas a desconfiança e as exigências de garantia." É claro que esta nova definição de pobre e de micro-crédito exigiu novas definições para o papel do banco. Onde, "quem toma emprestado não é cliente, é gente, pessoa, que merece respeito e não desconfiança". "O empregado não serve ao banco, mas ao tomador, sua lealdade não é com a instituição, mas como gente, pessoas sócias". "O tomador é, por definição, capaz de fazer o que se propõe, e não alguém que deve buscar no banco a inspiração para seu negócio". "Se, por acaso, ele não cumprir com suas obrigações, a culpa não foi sua - houve alguma tragédia pessoal, algum cataclisma natural". "Os empregados não devem ficar no escritório do banco, mas na rua, debaixo das árvores, no campo, conversando com os membros do banco, tomadores de empréstimo". Por último: "o empréstimo não deve ser pago em grandes partes, no final do período, mas toda semana, pouco a pouco, sem pesar no bolso do tomador". Esta não é uma teoria, é uma realidade de um banco hoje absolutamente rentável, que se auto-sustenta com depósitos dos próprios tomadores, com uma grande rotação do seu capital e com capacidade de pagar poupanças internas e captar recursos no mercado financeiro. Mais importante ainda: nesta nova filosofia, praticamente não há inadimplência, nem cacciolas. Neste sistema não há necessidade de benesses do Banco Central e o povo é o beneficiário dos recursos financeiros. O Grameen não é apenas um banco para os pobres, é um saudável banco para um país saudável. Só precisamos que mais gente passe a pensar em uma economia comprometida. Uma viagem a Daca, em Bangladesh, para ouvir Yunus, é muito mais útil e mais barato do que anos de estudos para conseguir um doutorado em teorias que não se adaptam à realidade social dos países pobres. |
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