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O atual presidente dos EUA assumiu o governo sem uma maioria no Congresso. No dia 11 de setembro ele conseguiu compor a maior base de apoio que um presidente daquele país já teve. Porque os EUA foram atacados e toda a população queria uma reação imediata contra os suspeitos daquele ato. Obviamente, essa unidade não teria ocorrido sem a tragédia do terrorismo destruindo as duas Torres do WTC, mas foi preciso a vontade do presidente para mobilizar Situação e Oposição na guerra que ele passou a comandar. No Brasil, o presidente e seus aliados costumam dizer que a Maioria Parlamentar não permitiu avançar no campo social, por causa do conservadorismo dos seus aliados do PFL. Mas, o presidente nunca utilizou o argumento das nossas torres que caem. O presidente e seu governo não tiveram sensibilidade para perceber que todos os dias rebentam "Torres Sociais" no Brasil, que permitiriam a unidade e a mobilização dos brasileiros e do nosso Congresso na luta pela superação do quadro de pobreza que se mantém no País. Algum tempo atrás, um jovem de nome Sandro seqüestrou um ônibus, assassinou uma jovem e acabou assassinado por um policial. O Brasil inteiro ficou perplexo, assustado, mas o dia seguinte continuou igual no Governo Federal. Se quisesse, naquele momento, o presidente teria o apoio necessário para remanejar os recursos necessários para um intenso programa dirigido aos jovens de nossas populações pobres: mudar gastos com privilégios e obras desnecessárias, para despesas que atendam as necessidades da população pobre. Mas nada foi feito. O Bolsa-Escola, que o governo veio adotar tardiamente, com um valor ridículo de R$15 por criança como média nacional, poderia ter sido iniciado naquele momento e com um valor satisfatório. Mas aquele momento de tragédia não foi aproveitado, preferiu-se continuar jogando a culpa nos aliados da Direita. Esquecendo-se que o próprio Bolsa-Escola Federal, só existe graças ao Fundo para o Combate à Pobreza, criado no Congresso e não no Governo, pela iniciativa de uma senadora do PT, Marina Silva, e um senador do PFL, Antonio Carlos Magalhães. Antes daquele seqüestro, um homem chamado Sebastião José Rodrigues teve sua mão esquerda cortada por um assaltante contratado por ele mesmo, como forma de receber o seguro e pagar uma dívida de R$ 900. O Brasil ficou perplexo, assustado com o grau de desespero de seu povo endividado. O governo, no lugar de aproveitar esse choque nacional para propor formas de resolver problemas deste tipo, considerou tratar-se de um assunto meramente policial. Durante dias seguidos, televisões brasileiras fizeram matérias sobre prostituição infantil, mostrando aviões que chegam da Europa apenas para turismo sexual. Se quisesse, naqueles dias o presidente teria contado com o apoio de todos para devolver um destes aviões com seus passageiros e dar respaldo financeiro às mães das meninas prostituídas, para que elas fossem à escola e não às esquinas. Mas o governo federal não se choca, não se indigna, nem inicia uma guerra contra a exploração sexual de nossas crianças. Não faz muito, a imprensa mostrou um menino que tinha perdido um olho por acidente de trabalho cortando sisal, continuou o trabalho e ficou cego do outro olho também. Nem o nome de Jesus, que tem esse menino, fez deslanchar uma guerra séria contra o trabalho infantil. Criou-se um programa tímido, com bolsas que no ano passado atrasaram durante quatro meses, porque o Congresso não aprovava o orçamento. Não aprovava porque o assunto não foi considerado como uma Torre Social. Nos EUA, o Congresso autorizou o que foi pedido para guerra, graças à indignação. Aqui, vemos Nossas Torres caírem com a naturalidade de quem assiste a monótona repetição de fatos corriqueiros. Não há qualquer razão para acusar o presidente Fernando Henrique Cardoso de corrupção, ele continua merecendo o respeito por sua honestidade pessoal, mas pode-se lamentar que depois de tantas denúncias na política brasileira, ele não tenha aproveitado os fatos para liderar uma guerra nacional contra a corrupção. Quando alguns fatos passam dos limites, como no caso da violência, o governo parece se mover, mas logo percebe-se que apenas como um gesto de marketing. Campanhas são lançadas em grandes eventos, personalidades são nomeadas como responsáveis pela condução do assunto e logo todos esquecem das medidas, das campanhas, e as Torres continuam caindo, livremente, com a naturalidade de fatos corriqueiros que a ninguém incomodam. Durante meses, o Brasil inteiro acompanhou notícias das conseqüências trágicas da seca no Nordeste, sem que qualquer mobilização fosse feita para o Congresso aprovar os recursos necessários para enfrentar-se de vez esse problema secular. No máximo distribuíram-se cestas básicas. É como se depois dos atentados do 11 de setembro, o presidente Bush se limitasse a distribuir alimentos para as famílias das vítimas soterradas. O Brasil tem 500 anos de Torres caindo, assustando por um instante e logo esquecidas, porque elas caem apenas sobre crianças pobres, desempregados e excluídos sociais. Diante dos governos, nossas Torres Sociais não justificam as grandes mobilizações do tipo que o governo norte-americano liderou depois da queda de suas duas Torres Gêmeas em Nova York. No Brasil não falta terrorismo social derrubando Torres, faltam governantes sensíveis querendo mobilizar todo o País contra o terror social no dia-a-dia de crianças sem escola perdendo olhos no trabalho, homens endividados amputando as mãos, jovens seqüestrando e assassinando pessoas, desempregados perambulando nas ruas sem destino. O quadro brasileiro
pode ser menos impactante do que as chamas e as ruínas das Torres
americanas, mas não são menos graves, nem justificam a naturalidade
como são toleradas por nossos governantes. Os mesmos que ficam,
corretamente, com os olhos marejados pelo espetáculo trágico
das ruínas em Nova York, e nem ao menos visitam as ruínas
de Nossas Torres, não conversam com nossos sobreviventes, não
fazem guerra contra o terror social. |
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