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Geografia da ignorância O ano 2000 foi esperado como a coroação de uma era em que a civilização seria governada pelo brilho da inteligência. Para a surpresa de todos, termina com o mundo dividido pela geografia da ignorância. O Brasil é um dos marcos dessa geografia da ignorância do mundo do século XXI. Chegamos ao fim do ano 2000 com uma concentração de renda que coloca sob a mesma bandeira, cantando o mesmo hino e elegendo o mesmo presidente, riquezas maiores do que poderíamos imaginar - mesmo para o começo do terceiro milênio - e pobrezas que jamais poderíamos imaginar que ainda existiriam neste mágico ano. Nem os mais radicais inimigos do socialismo imaginariam que, no ano 2000, a Rússia faria parte da geografia da ignorância, que se tornaria um exemplo tão expressivo no turismo da burrice social. Naquele país que durante oito décadas encarnou o sonho da utopia socialista, neste ano, uma mulher idosa foi presa tentando vender o neto de cinco anos para mafiosos traficantes de órgãos humanos. Esta é a brilhante imagem do ano 2000: uma técnica eficiente para comprar e transplantar órgãos humanos, uma avó desesperada pela necessidade ou pelo deslumbramento do consumo do século XXI e uma máfia capaz de comprar crianças para matá-las em troca de dinheiro. Os Estados Unidos da América, que antes do ano 2000 conseguiram enviar um homem à lua, impor sua paz, assumir o papel da Roma do século XXI, neste exato ano demonstraram ser incapazes de realizar uma eleição presidencial livre de suspeitas de corrupção e de artimanhas jurídicas. Esse imenso e rico país chega ao final do ano 2000 sem demonstrar solidariedade para com o resto do mundo. E ainda demonstra a absurda ignorância de negar-se a tomar as medidas necessárias para frear o efeito estufa que está esquentando todo o planeta em ritmo acelerado. O ano 2000 mostra o imenso poder da inteligência do homem para implantar uma indústria capaz de fazer em poucos anos o que o Sol não conseguiu em bilhões de anos: elevar o nível dos mares por força do degelo nos pólos, causado pela elevação da temperatura do planeta. Neste mesmo ano, a ignorância mundial não permite um acordo capaz de estancar esse assassinato da Terra. No ano 2000, a geografia da ignorância mostra pontos nítidos em cada porta de entrada dos países europeus ou na fronteira entre o México e os EUA. Lá, milhares de pobres imigrantes tentam a sorte e muitas vezes encontram a morte. São impedidos de entrar no que seria o paraíso da subsistência. Gesto brutal de intolerância dos ricos contra os pobres do mundo, serve como exemplo para a microgeografia da ignorância que se mostra em cada fronteira disfarçada nos condomínios, shopping centers, escolas especiais e hospitais imaculados. A geografia do ano 2000 é feita de um mar de pobreza acerca de um arquipélago de riqueza, separados por uma cortina de ouro que envergonha os dois lados pela humilhação dos pobres e pela vergonha dos ricos. Os Bálcãs não são apenas uma região da geografia política, são também da geografia da mentalidade humana: da autodestruição pela intolerância. Não há como explicar que no ano da esperada coroação da civilização, a região onde ela começou se debata em guerras fratricidas, inexplicáveis pela lógica. Toda a América Latina é um continente de ignorância política e moral. A desigualdade é abjeta e crescente ao longo de quinhentos anos. Depois de ditaduras sanguinárias, até bem pouco tempo antes do ano 2000, o continente vive a experiência das democracias incapazes de distribuir a renda e de erradicar a pobreza. Depois de décadas de inflação monetária, a estabilidade se faz ao custo de desemprego e de aumento da pobreza. A Argentina, com toda sua riqueza natural e sua população educada, se debate no irracionalismo. O Equador caminha para ser um bálcã no meio do mundo. Em pleno século XX, a Colômbia se divide em feudos de daimios tropicais. O Peru elegeu um presidente enlouquecido, capaz de usar a maravilha do fax para avisar ao povo que ficará no Japão. Cada um dos seis bilhões de seres humanos é um ponto na geografia da ignorância. Inteligência não falta, mas falta decência no uso dela. No século XX, a inteligência dos homens, aplicada à Biologia, permitiu transplantar corações, mas os homens não conseguiram usá-los solidariamente. A inteligência não foi suficiente para que deixassem de pisar os próprios corações. O problema não está na falta de inteligência, mas na falta de ética. Pela inteligência, o homem consegue produzir bombas atômicas. Pela falta de ética, permite que enlouquecidos governantes aceitem usá-las. A ignorância se espalha pelo espaço da terra nestes últimos anos do século XX, ocupando todo o vácuo de ética. |
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