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Fim do ciclo Quando tomou posse, Fernando Henrique Cardoso passou a sensação, mesmo para seus opositores, de que estava iniciando uma nova era na vida política brasileira. Pela primeira vez em nossa história, um presidente eleito vinha da militância de esquerda. O seu passado de luta, seus compromissos políticos ao longo de toda a vida, mostravam a possibilidade de um novo ciclo, diferente das muitas décadas de governos vindos da minoria oligárquica que mantinha o poder substituindo apenas os nomes dos dirigentes. Mesmo que sua eleição tenha sido possível graças ao apoio dos representantes desta oligarquia, e contra o verdadeiro representante popular. A poucos meses de concluir seu mandato, a sensação é de que Fernando Henrique Cardoso perdeu a chance de começar o novo ciclo, ficará na história como o presidente que encerrou o velho ciclo do atual estágio da história brasileira. As indicações desta nostálgica conclusão têm duas origens: de um lado a constatação de que ele governou para a elite, ouvindo a elite, sem contatos nem compromissos populares, continuou a velha forma de ter o Brasil seguindo rumos inspirados em modelos externos, beneficiando apenas uma minoria da população. De outro lado, a triste percepção de que continuou usando os mesmos métodos de governar fazendo uso de manipulações, de troca de favores, de acordos palacianos - atos dos quais as maiores provas foram a aprovação da reeleição e o abafamento da CPI da corrupção. Além disso, ao olhar adiante, para os menos de 20 meses que faltam para encerrar seu mandato, percebe-se falta de perspectiva de futuro, com apagões, marcas de corrupção deixadas por aliados, poucos resultados sociais marcantes, apesar de algum sucesso com o Fundef e algumas melhoras na educação e na saúde. Na produção, resultados tímidos, como no emprego, risco constante da importação de crises externas e, por fim, instabilidade política, econômica e moral que o governo vai atravessar até o final de seu mandato. É triste para todos os brasileiros, inclusive aqueles que lhe fizeram oposição com respeito, mas o presidente mais preparado para inaugurar um novo ciclo parece o retrato de um isolado dirigente saído dos livros de ficção sobre governantes latino-americanos do passado. Mas, em política, um ciclo não acaba, é outro novo que se sobrepõe ao anterior. E chega antes do velho terminar. E este novo ciclo não parece ter chegado. E é essa ausência que dá fôlego adicional ao velho. Há no ar uma nostalgia em relação ao final do governo atual, e outra da ausência de unidade e de nitidez nas propostas do novo ciclo. O povo olha nas ruas, procurando por um novo ciclo que se inicie em 2003. Percebe propostas alternativas de candidatos a serem os novos governantes de um novo tempo, mas não vê com clareza o que precisa: quais serão os primeiros atos do novo governo, para iniciar o novo ciclo. Nem vê como esse novo será construído a partir de um velho que existe, resiste, tem força e que não poderá ser ignorado. O novo ciclo tem que ser feito de sonho e de ação, esperança e aritmética, desejo e viabilidade, novidade e tradição, de ruptura e continuidade, ousadia e responsabilidade, utopia e plausibilidade. Se continuar este impasse de um velho que morre e um novo que não nasce, teremos a infeliz descoberta de que o novo ciclo chega velho, e de uma única vez morreram dois ciclos, o velho que se esgotou e o novo que não conseguiu nascer. |
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