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O Brasil não será eficiente nem decente enquanto todo o seu território não for uma enorme e competente escola para toda sua população. O problema brasileiro não é ter escolas, é ser uma escola. Para fazer o salto brasileiro a uma sociedade eficiente e decente não basta construir escolas, é preciso transformar o País em uma imensa escola. Fazer escolas é construir prédios, ser uma escola exige dez ações voltadas para a universalização e a qualificação das escolas. Em primeiro lugar, o Brasil só será uma grande escola quando um presidente da república assumir que sua principal missão está na educação: sua marca na história será deixar um povo educado. Ele cuidará de todas as obrigações de um governo, mas sua prioridade e sua obsessão estarão na educação, da mesma forma que para os presidentes anteriores as obsessões sempre foram a economia e as obras civis. Com um presidente obsessionado pela educação, a Escola Brasil só funcionará se cada cidadão sentir-se envolvido nessa guerra, tanto quanto Juscelino nos envolveu na guerra do desenvolvimento. Os pais terão de assumir a educação dos filhos como uma prioridade maior do que o carro, a casa, o tênis, as viagens. Os empresários terão que aceitar a primazia da infra-estrutura educacional na frente da infra-estrutura econômica. Os meios de comunicação terão que considerar-se como parte fundamental da Escola Brasil. Enquanto houver um divórcio entre comunicação e educação, não houverá educação. Mas, se os meios de comunicação se transformam em divulgadores do clima social de prioridade à educação e em promotores de programas educacionais, o Brasil dará o passo fundamental para ser, ele inteiro, uma imensa e dinâmica Escola. Não há, porém, escola sem escolas. É preciso ter todas as crianças em aulas. Belos prédios são necessários e fáceis de fazer - mais importante é que nenhuma criança fique fora destes prédios. Para isso, bastaria levar adiante a proposta que o governo federal já vem desenvolvendo de garantir Bolsa-Escola para 10,7 milhões de crianças. No entanto, é preciso cuidar de cinco aspectos: aumentar o valor pago às famílias; nunca atrasar o pagamento um único dia; fiscalizar com todo rigor a freqüência dos alunos, como condição absolutamente necessária para que a bolsa seja paga; pagar por família e não por criança; e manter a bolsa até que o menor dos filhos desta família conclua o seu curso básico. Além da Bolsa-Escola, será preciso que o governo implante o programa Poupança-Escola: um depósito para cada criança pobre aprovada no ano letivo, a ser sacado com juros apenas no final do ensino médio. As crianças não nascem na escola. É preciso garantir que todas elas ingressem na escola, tendo recebido o atendimento necessário para seu desenvolvimento físico e intelectual, ao longo de sua primeira infância. Criança não espera para crescer depois do cumprimento das promessas de creches ou de empregos para os pais feitas pelos políticos. Uma solução imediata é garantir um salário às mães, para que a família possa cuidar dos filhos. Mas, é preciso que cada escola tenha a máxima qualidade. Para que o Brasil seja uma escola com qualidade, é preciso dobrar o salário médio atual de nossos professores. Além disso, é preciso aumentar o número deles em 500 mil, para que todas as crianças sejam atendidas, para que a carga horária seja eficiente e para que eles tenham direito a períodos sabáticos, durante os quais se atualizarão, para melhorar o desempenho. A cara das prioridades de um país está na fachada e qualidade dos prédios de suas atividades. No Brasil de hoje, esta cara está nas fachadas de vidro e aço, no ar condicionado e na limpeza dos bancos e dos shopping centers. Para o Brasil ser uma grande escola de qualidade, nossos melhores prédios terão de ser nossas escolas, em quantidade e em qualidade. O Brasil precisa de cerca de 30 mil novas escolas e fazer uma imensa faxina nas que já existem. Além disso, é preciso equipá-las. Já se foi o tempo em que a escola se resumia a apenas um professor com quadro negro, hoje a escola precisa de bibliotecas, vídeos, computadores, conecção para a Internet. Houve um tempo em que o professor se formava e com os conhecimentos adquiridos tinha o saber necessário para ensinar até sua aposentadoria. Esse tempo acabou. Em pouco tempo de formado, cada professor está superado em grande parte do que aprendeu, no conteúdo e nos métodos de ensino. Por isso, ser professor é estar em formação permanente. Um país que despreza a educação faz um pacto de negar-lhe condições de trabalho e pouco exigir dele. Com todas as condições que a Escola Brasil lhes oferecerá, nossos professores terão que aceitar as exigências de formação continuada e de avaliações permanentes. Se o centro do processo educacional está no professor e se tem todo o apoio da sociedade e do governo, ele tem que dar sua contrapartida, se preparando e submetendo-se a avaliações. Mas, não basta educar nossos alunos e nossos professores. A Escola Brasil tem que ter todos os adultos mobilizados em um imenso mutirão, em que todos devem estar aprendendo alguma coisa. Cada pai que se inscreve em um curso, aumenta a dedicação dos filhos. Nossos presidentes dariam um ótimo exemplo se matriculassem-se em algum curso: de uso de computador, de aprendizado de língua estrangeira, de história do mundo. Se isso for feito, o Brasil pode levar todos seus jovens para programas de formação de mão-de-obra, desde que haja os cursos necessários. A Escola Brasil tem de começar pelo desafio de abolir o analfabetismo em quatro anos, no máximo. E depois, criar mecanismos de divulgação da leitura por todo o território nacional. O Brasil divide-se entre os que não sabem ler e os que sabem e não lêem. Os outros são uma exceção de poucos milhões. Isso pode ser modificado com a disseminação de centenas de milhares de pequenas bibliotecas domésticas em todo o território nacional. Todo jovem tem de ter direito de estudar até o limite que se propor. Por isso, se a universidade pública não for capaz de absorver todos os jovens que desejam estudar nelas, a sociedade tem que garantir os recursos para que ele não pare seus estudos por causa de pobreza. Tudo isso custaria menos de 5% da receita do setor público brasileiro, além dos gastos atuais. Ainda menos, se evitamos desperdícios feitos atualmente. É muito pouco para um país tão rico. E o retorno, em poucos anos, mudaria o Brasil, aumentaria nossa riqueza, inclusive material, aumentaria as receitas de nossos governos, daria a auto-estima que o Brasil carece, e acabaria a vergonha que sentimos por não termos feito esse esforço antes. A Escola Brasil é
possível, se o Brasil quiser. O desafio é saber como fazer
uma Escola Brasil antes que sua elite tenha passado por ela. Porque a
maior prova da necessidade de transformar o Brasil em uma grande escola
é colocar nela sua elite. São os pobres que precisam entrar
nas escolas, mas na Escola Brasil são os ricos os que precisam
entrar, começando pelos políticos
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