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No dia 11 de setembro, o mundo inteiro ficou solidário com o povo norte-americano, contra o terrorismo. O discurso do presidente Bush no dia 20 pode ter começado a quebrar essa unidade. Ele esqueceu que, em política, o inimigo de nosso inimigo nem sempre quer ser nosso amigo. Todo o mundo árabe pronunciou-se contra os atos terroristas, mas é ingenuidade ou arrogância querer que as diferenças sejam esquecidas e, de repente, o povo árabe aceite ser um exército comandado por um general americano, mesmo que por uma causa justa. Esse discurso pode começar a criar o clima de uma guerra que ninguém acreditava. A guerra pode começar dentro de cada país islâmico, do povo contra o governo que apoiar os EUA. A partir daí, no explosivo Oriente Médio pode estar criada a grande guerra que não se acreditava por falta de inimigo. Assim sendo, os terroristas teriam um êxito maior do que imaginavam, terão prolongado aquela terça-feira por todo o século. O Século XX criou os ingredientes do absurdo terror deste setembro: o poder da técnica e o acúmulo de mágoa e intolerância. O resultado é um mundo indignado e assustado com a arrogância dos ricos e a insanidade dos terroristas. E perplexo com a falta de lógica no mundo. A falta de lógica da intolerância de terroristas que usam aviões civis para matar, e da maldade da economia que deixa morrer. Nada lógico, nenhuma crença religiosa, nenhum patriotismo justificam os atos terroristas contra habitantes de Nova York, nem justificam as políticas econômicas que pesam contra os habitantes pobres da África. A lógica morreu em muitas direções e o fanatismo cresceu em muitas outras, não apenas nas mãos dos terroristas. As primeiras vítimas são os mortos e feridos e suas famílias. Inocentes trabalhadores esperando começar um novo dia de trabalho. Mas não apenas eles. Todos os norte-americanos foram vítimas, da invasão, da violação, sofrendo a tristeza dos compatriotas, enterrados vivos sob os escombros produzidos por bombas voadoras. A tragédia toca mais os que estão próximos. Para o Japão, Hiroshima tem um significado diferente do que tem para o resto do mundo; as bombas que caem em Bagdá, tocam diretamente os iraquianos. Todos nós somos vítimas também. Pela vergonha do que seres humanos conseguem fazer, pelo medo de qual será o próximo ato. Paradoxalmente, os muçulmanos do mundo, especialmente árabes, serão vítimas também dos destroços históricos. Responsabilizados pelo que não fizeram e que repudiam, os árabes serão vítimas do terror da discriminação, inclusive do terror virtual da mídia, manipulando informações ao gosto da histeria coletiva para aumentar o preconceito. Milhões de norte-americanos teriam estado, em 1945, contrários ao uso da bomba atômica, mesmo assim, eles pagam até hoje o preço do uso delas contra o Japão. Todas as religiões são vítimas do terror fanático que ocorreu em Nova York, aparentemente em nome de um Deus, na mesma semana em que, explicitamente em nome de outro Deus, na Irlanda, fanáticos ameaçaram crianças no caminho da escola. As crianças do mundo devem estar se perguntando que religiões e deuses são estes, em nome dos quais tantos horrores são cometidos. Elas vão crescer com a escolha de um Deus para dedicar fanatismo ou repudiando todos os deuses e suas religiões. Mas, as duas maiores
vítimas dos terroristas poderão vir a ser a imagem dos EUA
e sua democracia. A imagem que será destruída se em nome
da justiça infinita, se, por vingança, seus pilotos militares
fizerem ainda mais vítimas entre os pobres do mundo do que os terroristas
fizeram em Nova York. A democracia, se O povo norte-americano tem toda razão e direito de querer vingança imediata contra os terroristas, seus parentes e apoiadores, que mataram milhares de seus compatriotas e desfiguraram sua cidade, mas seus líderes não têm direito à histeria. Um estadista não pode ser histérico mesmo quando seu país está sob invasão. Sobretudo quando suas ameaças são contra inimigos não-estatais. O neoliberalismo privatizou tudo, até o terror. Até recentemente, o terror, mesmo feito por indivíduos enlouquecidos, tinha detrás dele algum suporte financeiro ou ideológico de parte de estados. No Oriente Médio, o terror tinha apoio clandestino do governo soviético, em Cuba, tinha o apoio do governo norte-americano. Com o fim da guerra fria, os estados se afastaram do terror e ele cresceu à margem e sem possibilidade de controle. O que aconteceu em Nova York é apenas um exemplo do que nos espera ao longo dos próximos anos do Século XXI: um mundo onde todos somos vítimas. É uma questão de tempo para uma bomba atômica cair nas mãos particulares de algum fanático. Por mais que matem terroristas, outros vão surgir e talvez até em número maior e com mais fanatismo, graças ao martírio provocado pela repressão indiscriminada. Esta repressão seria uma forma de estatização descarada do terror feito por estados contra indivíduos e, em conseqüência, o terror escancarado de indivíduos contra vítimas inocentes, em qualquer parte do mundo, e em dimensões crescentes. As pessoas se assustam diante do risco de terroristas espalharem bombas atômicas ou biológicas, sem perceber que outras bombas estão explodindo com poder ainda maior: o terrorismo científico da biotecnologia a serviço dos ricos está partindo a humanidade em dois tipos diferentes de seres; o terrorismo econômico do consumo desvairado está provocando o aquecimento do planeta, o que fará com que a derrubada das duas torres pareça uma brincadeira de crianças, quando, dentro de décadas, o nível do mar subir pelo aquecimento da Terra, inundando toda Nova York. O pensamento único da riqueza concentrada pelo neoliberalismo vem impondo uma forma de fanatismo tão radical quanto o dos terroristas, com a diferença de que o terrorismo do vitorioso é camuflado, não precisa explodir edifícios. Deixa que os pobres morram, devagar, que os oceanos subam aos poucos, que as florestas queimem, aos poucos, que os seres humanos se apartem, lentamente. Tudo sem escândalos, mas com violência igual e número de vítimas muito maior. As vítimas de Nova York foram assassinadas diretamente por fanáticos, as crianças que morrem de fome a cada dia no mundo não têm nenhum fanático assassino explodindo aviões sobre elas, morrem mesmo assim, quando poderiam continuar vivas, crescer e ser educadas, se o mundo quisesse pagar um reduzido preço para isso. Custaria apenas US$ 7,2 bilhões por ano garantir alimentação e educação a todas as 90 milhões de crianças africanas fora da escola, por meio de um programa de Bolsa- Escola. Seriam necessários apenas 28% do que aqueles países pagam pelo serviço da dívida externa, seis vezes menos do que os US$ 40 bilhões aprovados pelo congresso norte-americano para ser gasto na caçada aos terroristas. Deixar alguém morrer, quando isso pode ser evitado, é uma forma de assassinato tão maldita quanto o terrorismo. É isso o que estão fazendo os dirigentes da economia mundial na África. São terroristas econômicos, mensageiros do Deus da riqueza material, como os terroristas da semana passada se consideravam mensageiros de outro Deus. O fanatismo do pensamento único neoliberal pode não estar assassinando diretamente, mas além de induzir, assiste indiferente à morte centenas de milhões de suas vítimas. Mortas aos poucos, pelo desemprego, pela fome, pela falta de educação e pela desesperança. Mortes até mesmo pelo próprio fanatismo que a desigualdade provoca. O mundo precisa fazer
uma guerra contra o terrorismo, contra todas as formas de terrorismo,
e em todas as partes, não apenas contra o terrorismo dos fanáticos
escondidos que derrubaram as torres em Nova York,. Também contra
os terroristas com endereços fixos, inclusive em Nova York, que
matam na África, que destroem o meio ambiente. Se a luta não
for contra todos os terrorismos, a terça-feira, 11 de setembro
de 2001, durará todo o século, em um terrorismo contínuo.
Ou acabará com o mundo, realizando o sonho dos maiores terroristas,
com causas ou sem causas, escondidos ou com endereço, todos eles
fanáticos, por deuses ou por moedas. |
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