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Adesão
à Ilusão Primeira lição: a estabilidade monetária não basta. A Argentina, como o Brasil, implantou uma política monetária sem estratégia do que fazer depois. Sem projeto para erradicar a pobreza, melhorar a qualidade de vida, fortalecer a infra-estrutura e a soberania do país. A solução não está em abandonar a estabilidade, tampouco em imaginar que nela está a realização plena de uma sociedade. Nossos países precisam de estratégias levando em conta a estabilidade monetária, tanto quanto a necessidade de manter a bandeira e o hino. Mas sabendo que não basta manter a bandeira e o hino imutáveis para fazer um povo feliz. Segunda lição: a estabilidade monetária não se mantém, democraticamente, se os problemas sociais não forem resolvidos. Para controlar sua hiperinflação, a Argentina vinculou o peso ao dólar, como se pedisse emprestada moeda estrangeira, de um país com estabilidade. Mas a Argentina não é os EUA. Ela garantiu a estabilidade monetária, mas a paridade fixa provocou desemprego e forçou cortes dramáticos nos gastos sociais, gerando pobreza e depredação do seu patrimônio econômico e cultural. O descontentamento cria instabilidade social que ameaça a estabilidade monetária. Além de imoral, a estabilidade monetária com retrocessos sociais é impossível democraticamente. Por isso, no mesmo momento em que se garante a estabilidade é preciso um programa de estabilidade social, ecológica e política. Terceira lição: não basta saber o que está errado, desejar mudar e reclamar da situação. Apesar de ser um opositor de tudo o que representava Cavallo, o presidente De La Rua foi obrigado a buscá-lo e dar-lhe ainda mais poder do que tinha antes. Porque não tinha outra saída, salvo buscar alguém com credibilidade no cenário das finanças locais e internacionais. O presidente não tem o poder de mudar a realidade financeira como deseja. Da mesma maneira que não pode ordenar ao ministro da Aeronáutica que desconsidere a lei da gravidade, mandando os aviões voarem sem gasolina. O presidente não pode mandar o ministro da Fazenda ignorar compromissos que o país não tem poder de descumprir, ou gastar mais do que arrecada. Queiramos ou não, a gasolina financeira de hoje depende do fluxo de recursos internacionais, e sem credibilidade junto aos que manejam esses recursos, o país corre o risco de um tombo, como um avião sem combustível. Esse combustível financeiro de hoje depende, porém, de ilusões, e para vender ilusões precisa-se de quem tem credibilidade junto aos que o ouvem. Cavallo não trará nenhuma novidade real, mas vai ser acreditado pelo sistema financeiro internacional. E isso é o que a Argentina precisa por algum tempo. A quinta lição é a dos riscos de atrasar o diálogo. Os fatos da Argentina confirmam que nos seus bons momentos os governos não querem diálogo com a oposição, querem apenas adesão a suas propostas. E quando estão com dificuldades, não há espaço para diálogos, a urgência exige apenas adesão, outra vez. Enquanto podia tomar empréstimos e vender estatais, o governo Menem e Cavallo esnobava a oposição. Quando os truques acabam, tendo de pagar as dívidas e sem comprador para a Patagônia, De La Rua propõe um governo de unidade. No Brasil, mais dias menos dias vamos ter de enfrentar crise parecida. É preciso tirar lições da experiência Argentina e nos anteciparmos, antes que o pior aconteça. No Brasil ainda há tempo, antes da grande crise, de chegar-se a uma lista de compromissos comuns no interesse geral de todo o País, não apenas da moeda e dos investidores. Das lições da Argentina pode-se perceber que não devemos substituir a estabilidade ilusória pelo desprezo à estabilidade. Nem acreditar na ilusão de que o governo pode menosprezar o poder das leis financeiras. Olhando para o nosso vizinho, nossas lideranças precisam sentir um choque de responsabilidade e modéstia. O presidente Fernando Henrique Cardoso deveria se antecipar, enquanto não há razão de pânico e ainda temos folêgo, e provocar um diálogo sobre o futuro do Brasil, procurando uma estabilidade monetária permanente, compatível com o crescimento econômico e com a solução dos problemas sociais. Mas sem pedir adesão às ilusões financeiras dos últimos anos. O futuro presidente, qualquer que ele seja entre os atuais pré-candidatos, deve também se antecipar para evitar a tragédia de se ajoelhar diante de um antigo ministro da fazenda, como fez De La Rua na semana passada. O pior que pode acontecer a um governo de esquerda no Brasil é ter de gastar seus primeiros anos enfrentando os problemas financeiros como quem herda uma bomba-relógio, como acontece hoje na Argentina. Raramente as diversas forças políticas brasileiras tiveram tantas indicações dos problemas que nos esperam, e tanto interesse comum em evitar o pior. O que impede o diálogo é a adesão separada de cada grupo a suas respectivas ilusões: de um lado imaginar que a estabilidade é sólida sem levar em conta o custo social, de outr acreditar que vai ser possível ignorar a realidade financeira. O diálogo,
sem adesismo de um lado ao outro, começa pelo fim da adesão
de cada lado às suas próprias ilusões. |
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