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Radicalismo
Social Mais do que a falsa promessa de que o Brasil vai ser grande por abrir suas fronteiras para o mundo, ou de que vai ser justo por fechar fronteiras, o povo quer saber exatamente de que forma o próximo presidente vai fazer um Brasil sem pobreza, com segurança nas ruas, com dignidade nacional, com qualidade de vida, sem corrupção e sem inflação. Sem riscos de surpresas. Não é impossível, mas é difícil imaginar, que a direita encante o povo com suas mentiras mais uma vez. As novas propostas deverão vir das forças oposicionistas da esquerda. E nosso radicalismo tem que ser social. As mudanças na economia não bastam para definir o discurso da esquerda. A rigidez da estrutura econômica atual dificulta mudanças substanciais em curto prazo, prometer mudar pode ser demagogia. Os riscos das mudanças são maiores do que no passado, mudar sem o devido cuidado pode provocar desastres no lugar de soluções. O povo brasileiro cansou de experiências, não quer viver submetido aos sustos de pacotes dos quais apenas sábios economistas conhecem as regras do dia seguinte. Sobretudo, qualquer que sejam as mudanças, a economia não trará justiça social. Mais radical do que prometer baixar a taxa de juros - muitas vezes sem levar em conta os riscos dessa atitude -, é garantir aumentar a taxa de escolaridade para 100% das crianças, até o final do ensino médio, em escolas públicas com a qualidade das melhores do mundo. Mais radical do que a moratória da dívida financeira é o pagamento integral da dívida social. Uma mudança na economia, com eventual redução na taxa de juros, poderia trazer benefícios para a produção, mas não para a escola. Serviria para aumentar as exportações, mas não a saúde das pessoas. Contribuiria para a geração de poucos empregos para pessoal qualificado, mas não emprego em massa para a população em geral. Poderia servir para produzir o que os ricos demandam, mas não o que o povo precisa. Poderia ser boa para a renda, mas não para a inclusão social. Os objetivos sociais só serão atingidos quando forem considerados objetivos e não conseqüências do crescimento econômico. A preferência pela lógica econômica sobre os compromissos éticos e sobre os objetivos sociais faz com que a imoral elite brasileira faça o discurso de que sem uma economia dinâmica não haverá recursos para erradicar a pobreza. Com esse discurso, esconde o fato de que o Brasil já dispõe dos recursos necessários para pagar sua dívida social. Um país com renda per capita anual de R$ 6 mil, receita fiscal de R$ 300 bilhões (R$ 1,8 mil por pessoa, ao ano), tem os recursos necessários para erradicar a pobreza, para proteger seu meio ambiente, para manter sua identidade nacional, para gerar empregos e para dar qualidade de vida a sua população, sem necessidade de mudanças radicais na estrutura econômica. No lugar do conservadorismo de dizer que sem a volta do crescimento a pobreza continuará e de propor mudanças econômicas difíceis de formular, impossíveis de executar em curto prazo e com muito risco de desarticular o que está funcionando, as oposições devem mostrar que o problema do Brasil é ético e político. Precisamos da ética da indignação diante da tragédia social, como diante de um crime contra a humanidade. Precisamos do poder político para usar os recursos disponíveis de acordo com as necessidades populares. A ética permite definir a hierarquia de pagamento das dívidas. A disponibilidade de recursos e a política determinam a ordem em que elas poderão ser pagas. Para retomar o crescimento pleno, um obstáculo é a alta taxa de juros. Para erradicar a pobreza, um obstáculo é a baixa taxa de parlamentares que admitam desistir de seus interesses e compromissos de classe e de corporação para fazer um orçamento social. Os recursos já existem, mas os privilegiados não querem abrir mão das vantagens que adquiriram e impedem o conjunto da população de obter o essencial. Os recursos já existem, falta a vontade e a força política para usá-los com esta finalidade. Ao concentrar-se na necessidade de mudanças radicais na economia, a oposição desculpa o governo ao assumir que os problemas sociais não podem ser enfrentados antes de um melhor desempenho econômico. Assim, corre o risco de não cumprir promessas, ou de fracassar ao tentar cumpri-las e irritar o povo com mais pacotes. Corre o risco de não resolver o problema social. A história social brasileira já mostrou que não é o crescimento econômico e o aumento da renda que diminuem a pobreza, mas os investimentos de um programa social podem induzir o crescimento. No lugar da visão tradicional de mudar a estrutura social para erradicar a pobreza, é a erradicação da pobreza que levará a uma mudança na estrutura social. Isso quando as crianças de hoje, todas educadas, forem capazes de inventar uma utopia que nossa geração não conseguiu. Dizer que o problema está na economia é voltar ao velho discurso de que o bolo ainda está pequeno para ser distribuído. O problema do Brasil não é o tamanho do bolo, mas seu gosto amargo de injustiça e de ineficiência social. O papel das forças de oposição é radicalizar na proposta de melhorar a receita do bolo para aumentar a qualidade de vida de todos os brasileiros e garantir o acesso de todos aos bens e serviços essenciais que fazem uma sociedade decente e eficiente. Capaz, em pouco tempo, de aumentar o tamanho de um novo bolo com sabor de justiça, de auto-estima, de eficiência. Do ponto de vista social, o radicalismo de mudanças econômicas é tão conservador quanto o radicalismo de achar que o quadro atual da economia vai construir um Brasil justo. A nova proposta da esquerda, que vai diferenciá-la das forças conservadoras, está no radicalismo social, com mudanças na economia quando forem necessárias e na velocidade que for possível realizá-las. |
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