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As
terminologias em filosofia da educação Não me parece útil falarmos em filosofia da educação quando ainda reina, na conversação entre vários grupos de professores, uma indistinção a respeito de quatro termos, a saber: “filosofia da educação”, “pedagogia”, “didática” e “educação”. E mais especificamente, no que diz respeito ao termo “filosofia da educação”, para muitos professores tal expressão tem uma única função, ou seja, a de fundamentar a educação ou a pedagogia – daí a existência de programas de pós-graduação em “fundamentos da educação” e, não raro, a predominância nos órgãos de fomento à pesquisa e nas linhas de pesquisa de várias faculdades a expressão que nos leva à idéia da filosofia fundacionista como a única via possível. Às vezes, fazer filosofia é, antes de tudo, criar distinções. Neste brevíssimo texto, é exatamente isto que farei, distinguirei o que já deveria estar distinto, em teoria, ainda que, no campo prático do ensino, possamos estar engalfinhados com esses quatro tipos de “saberes” – o da filosofia, o da pedagogia, o da didática e o do ensino propriamente dito -- sem que possamos desatar o novelo. A educação, ou seja, o termo tomado como sendo “o ato educativo”, nada mais é que a prática social que identificamos como uma situação temporal e espacial determinada na qual ocorre a relação ensino-aprendizagem, formal ou informal. A relação ensino-aprendizagem é guiada, sempre, por alguma teoria, mas nem sempre tal teoria pode ser explicitada em todo o seu conjunto e detalhes pelos que participam de tal relação – o professor e o estudante – da mesma forma que poderia fazer um terceiro elemento, o observador, então munido, ele próprio, de uma ou mais teorias a respeito das teorias educacionais. A educação, sendo a prática da relação ensino-aprendizagem, acaba em um ato, e nunca mais se repete da mesma forma. Nem mesmo os mesmos participantes podem repeti-la. Nem podem gravá-la. Nem na memória nem por meio de máquinas. É um fenômeno intersubjetivo de comunicação que se encerra em seu desdobrar. No caso, se falamos de um encontro entre o professor e o estudante, falamos de um fenômeno educacional, mas que é único. Quando ocorrer outro encontro do mesmo tipo, ele será apenas do mesmo tipo, mas nunca o mesmo. A didática, por sua vez, é um saber especial. Muitos dizem que é um saber técnico, porque ela vem de uma área onde se acumulam os saberes que nos dizem como devemos usar da chamada “razão instrumental” para melhor contribuirmos com a relação ensino-aprendizagem. A razão técnica ou instrumental é aquela que faz a melhor adequação entre os meios e os fins escolhidos. A didática é uma expressão pedagógica da razão instrumental. Sua utilidade é imensa, pois sem ela nossos meios escolhidos podem, simplesmente, não serem os melhores disponíveis para o que se ensina e se aprende e, então, estaremos fazendo da educação não a melhor educação possível. Mas a didática depende da pedagogia. Ou seja, depende da área onde os saberes são, em última instância, normas, regras, disposições, caminhos e/ou métodos. A pedagogia, tomada em um sentido estrito, é a norma em relação à educação. Que é que devemos fazer, e que instrumentos didáticos devemos usar, para a nossa educação? – esta é a pergunta que norteia toda e qualquer corrente pedagógica. Às vezes tomamos a palavra “pedagogia” como contendo todo o campo de saberes que envolvem a educação – como a filosofia da educação, a didática, a educação e a própria pedagogia, tomada então em sentido estrito. Mas, de fato, é em um sentido estrito que a pedagogia nos deve interessar, pois quando ampliamos a extensão do termo, o que temos pouco nos ajuda a entender o quadro da diferenciação dos saberes relativos ao ensino. A pedagogia, em um sentido estrito, está ligada às suas origens. Ou seja, o pedagogo, o escravo que levava a criança para o local da relação ensino-aprendizagem na Grécia Antiga, não era exclusivamente um instrutor, ao contrário, era um condutor, alguém responsável pela melhoria da conduta geral do estudante, moral e intelectual. Ou seja, o escravo pedagogo tinha a norma para a boa educação; se, por acaso, precisasse de especialistas para a instrução – e é certo que precisava –, conduzia a criança até lugares específicos, os lugares próprios para o “ensino de línguas, gramática e cálculo” e outros para a “educação corporal”. A idéia da pedagogia como sendo a parte normativa do conjunto de saberes que precisamos ter para desenvolver uma boa educação é mais ou menos consensual entre os autores. Ela é aquela parte do saber que está ligada à razão não como razão instrumental apenas, mas à razão enquanto razoabilidade, a racionalidade que nos possibilita o convívio, ou seja, a vigência da tolerância e, mesmo, do amor. Ao falarmos, por exemplo, “não seja violento, use da razão”, queremos ser compreendidos como dizendo, “use de métodos de comunicação que são próprios ao diálogo” – os métodos e normas da sociedade liberal (ideal). É esse tipo de razão ou racionalidade que conduz, ou produz, a pedagogia. Pedagogia, didática e educação estão ligadas. Mas a filosofia da educação é uma saber mais independente, que pode ou não ter um vínculo com os saberes da pedagogia e da didática, ou do saber-prático-imediato que faz educação se desdobrar, acontecer. Pois a filosofia da educação é um saber que, de um modo amplo, discute o campo educacional, reflete sobre ele, ou para colocar valores e fins e legitimá-los através de fundamentos, ou para colocar valores e fins e legitimá-los através de justificações. Essa distinção entre fundamentação e justificação é importante. É uma distinção que faço aqui para ajudar o leitor, mas ela pode vir conjuntamente, ou então vir em disputa uma com a outra. A filosofia da educação não está vinculada somente à razão instrumental ou à razão comunicativa liberal, mas tem como sua produtora a razão enquanto elemento que escolhe fins e, portanto, que valora. Ela pode falar em "valor de verdade" e "valor moral", pode separá-los ou não, mas, sempre, vai falar em valor e fins. A razão, aqui, é a razão que diz os objetivos da educação e, então, que explicita se as normas da pedagogia podem ser mantidas ou não, e que normas são essas. Se a legitimação da pedagogia se dá através de uma metafísica que encontra um fundamento último para que a educação se processe de uma maneira e não de outra, dizemos que a filosofia da educação fundamenta a pedagogia e, conseqüentemente, a educação. Se a legitimação da pedagogia se dá através de um conjunto de argumentos que tentam justificá-la, sem requisitar um ponto arquimediano metafísico, então dizemos que a filosofia da educação justifica a pedagogia e, conseqüentemente, a educação. Essa reflexão, a dos filósofos da educação, não necessariamente é do domínio direto dos que estão executando a relação ensino-aprendizagem, embora os professores conheçam, ao menos, suas máximas, e então ficam satisfeitos com suas pedagogias. Que não se tire daí a conclusão que os professores devem apenas saber didática, ou, ao contrário, que vão ser “críticos” e bem mais capazes se souberem filosofia da educação, seja na sua forma legitimadora ou fundacionista ou justificadora. O saber de cada professor varia. Uns podem ter uma aptidão melhor para a reflexão filosófica, e serem desajeitados para o trabalho que implica forte aptidão didática, outros podem dominar os trâmites das normas da pedagogia, e não terem gosto pela reflexão da filosofia da educação. Outros, ainda, podem ser práticos, meramente práticos, e se saírem bem em resultados de aproveitamento com os alunos. O importante é que, na formação dos professores, se saiba que empregamos todos os tipos de racionalidades ( a instrumental, a da tolerância e a que fixa objetivos e valores) que temos em nossa linguagem, e que a formação deve ser harmoniosa, pois tem tudo, em suas vestes originais, para ser harmoniosa – pois fazer educação nos leva, sempre, para os quatro saberes acima apontados, e para o emprego das três formas de racionalidade. A harmonia não vem de separarmos, eqüitativamente, o que cada professor, para ser professor, precisa saber em filosofia da educação, pedagogia, didática e ensino (educação). A harmonia vem, sim, da nossa capacidade de termos políticas educacionais que cultivem as instituições de formação de professores que protegem uma cultura onde os quatro saberes acima descritos não fiquem a descoberto, nas mãos de leigos. Tal cultura, sem que seja preciso qualquer reunião formal, será o fator determinante de convergência das conversações, no interior das instituições onde se dá a formação do professor, e ela poderá criar legiões de bons professores, em graus diferentes de aptidões. Isso vale para qualquer instituição de ensino que forma professores. E no Brasil, é bom que aproveitemos todas, que não fechemos nenhum tipo delas, e que a integremos nessa forma de harmonia que expus acima.
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Críticas? Mantida por Jorge
Luiz Kimieck |
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