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Primeira Aula Assim como a primeira professora a gente nunca esquece, como o primeiro beijo, a primeira viagem, o primeiro amor e o primeiro livro, o primeiro dia de aula de um ex-aluno universitário (recém formado) e recente professor, pode não ser lá essas coisas, mas é muito emocionante, pois o primeiro passo é para sempre, principalmente em se tratando de ensino público. Pois lá fui eu assumir as aulas de Geografia e História na Escola Marabá, do município de Taboão da Serra, coração batendo forte, sim senhor, ônibus lotado feito lata de sardinha, medo de não achar o lugar ou descer em ponto errado, mas, na verdade visando com esse emprego prover melhor meu salário, depois de trabalhar por oito horas durante o dia, tendo que emendar com aquele "bico" num horário das 7 as onze da noite, na docência. Escolhi as aulas e fui, algo preocupado, não com uma pulga atrás da orelha, mas com um baita elefante atrás da orelha. E a primeira escola, da primeira aula, a gente nunca esquece. Fui pra Secretaria da Escola, falar com a Diretora, me apresentei, todo eufórico, achando que – a exemplo de uma empresa particular – ela iria me levar para conhecer o espaço físico do lugar, apresentar-me ao corpo técnico-administrativo-operacional todo, colegas, funcionários administrativos, mas, eis a surpresa. Mal me apresentando todo trancham, papelada aos montes, eis que ela súbito se levanta e diz: - Venha comigo, Professor! E lá fui eu, cara de boi lambido, ciente de que iria conhecer tudo ali, no meu primeiro dia, trocar informações, saber amigos, técnicas de trabalho, métodos de funcionamentos. Entramos num corredor enorme e pichado (eu atrás, emocionado, segurando o tesão do primeiro momento tão sonhado), e eis que, senão quando, a Diretoria Helvécia simplesmente abre uma sala de aula (uma quinta série problemática soube depois), adentra, dá um psiu geral, um pito, cobra-me que entre, apresenta-me curto e grosso à sala antes em polvorosa e então em curiosa e simpática expectativa, dá-me uma caixa de giz e um apagador tosco que se apresentara perdido por ali, deseja-me boa sorte e, grosso modo, antes de sair batendo a porta diz: -A classe é sua, Professor. Boa aula! Fiquei no mato sem cachorro, ou, como diz o popular em Itararé, "Montei num porco". Foi quando deu-me o conhecido tic, estalo, sei-lá. Pensei rápido e rasteiro. - (A sala começava o burburinho da conversinha dissimulada, alguém até, acho, se engraçou com alguma coisa referente à minha pessoa exótica ali, no contexto todo.) - Nunca ninguém tinha me ensinado isso; eu era novato no meio mas não me fiz de rogado. Tivera outras "primeiras vezes" em várias situações constrangedoras ou inusitadas, normalmente hilárias e evolutivas, e sempre saíra se não muito bem, saíra pelo menos intacto, são e salvo, sem dar vexame ou pagar mico. -Boa tarde! – Sou o novo Professor de Geografia, nunca dei aula e... – E fui falando feito um espeloteado nervoso (o coração em pandarecos no peito enluado – a primeira emoção mágica de todo momento magno é para sempre!), falei que era de origem pobre, minha mãe uma mistura de negro com índio, meu pai de português com judeu, que tinha vindo da Estância Boêmia de Itararé para São Paulo só com a quarta série, que era migrante, que tinha passado fome, morado em pensão, mas que, lendo e estudando muito, até nas férias, feriados e finais de semana, tinha já feito duas faculdades e tal-e-coisa, e loquaz fui pelaí. Um tipo maleixo, birrento e maroteiro piou xingando um colega humilde de baiano crentinho – Cortei curto e grosso que minha mãe era crente e não aceitava discriminação – parte da classe riu (estavam me testando?), parte acho que se aprumou pro meu lado (a maioria de mestiços, pardos ou mulatos, nordestinos, pobres – senti firmeza), um outro tipo riu alto do primeiro e eu já perdi as estribeiras (sou pilha curta – mas fazendo o que eu gosto e sonhara a vida toda - demorei muito até ser abrupto), e comentei com o rapazinho alto, bem mais velho (repetente - olhar de inteligente e carente mas com pinta brava de bagunceiro - a dinâmica de quem não sabe o que fazer com a energia e sensibilidade que tem?) e encorpei a voz: -O sr. quer lá na Diretoria fazer graça pra Dona Diretora? Pisei na bola? Falha nossa? Erro de percurso? Faz parte. Ele titubeou. A classe silenciou. Ele devia ser de responder mas você pondo verdade nas palavras, nos olhos e no gestual (pantomina) a verdade daquilo tudo que você é com defeitos e emoções, sem ser falso ou injusto (além de ter que ser bom naquilo que se propõe a fazer, claro), tende a conquistar, dominar, junta a teoria à praxis. Ou não? Fui na fiúza. Peguei o giz, datei o dia, coloquei GEOGRAFIA, O S de minha assinatura (depois escrevi Silas para que não houvesse dúvida e marcasse bem), e, já não mais refém da circunstancias e me sentindo algo dono da situação, perguntei se a classe sabia o que era Geografia, giz molhado numa mão (suor de nervosismo) e o apagador carcomido e feio de uso velho na outra. Tenso. -Geografia é uma matéria, disse uma menininha humilde e algo antipática numa primeira avaliação imediatista. -Muito bem, agradeci. Qual é o seu nome? - Errei. -É Raimunda cara de bunda, disse um espeloteado que de tanta raiva que fiquei nem me lembro a fuça do estrupício. A classe caiu na risada, a menina começou a chorar, um primo dela já xingou a mãe do gozador ameaçando " pegar o porqueira lá fora" e fez-se o forfé por atacado. Confesso que não me lembro direito o que fiz. Só sei que me lembro que expliquei que geografia é tudo, tempo (horas), remédios (ervas e raízes - extrativismos), comida (alimentos), ar (oxigênio), e que tiramos tudo da Natureza (Geografia) para viver, comer, beber, vestir, habitar. Expliquei, dei exemplos, até que um tipo comentou que na verdade Geografia era tudo então, elogiei, sem perder o fio da meada, bati na carteira informando que ali era um móvel mas tinha sido árvore como papel do caderno, mostrei os pés de ferro e disse que tinha sido minério, óxido de ferro, que o assento de plástico tinha sido extraído da terra, de materiais decompostos em processo químico e por aí a fora. Deitei falatório. Sem tirar nem põr. -Pra que time o sr torce, professor? Um corinthiano (a camisa) como eu, atentando contra a seqüência lógica e loquaz do meu ritmo eloqüente. Ele não estava nem ali? Um filhote de cruz-credo, com papo fora de hora se assomando. -O Tião soltou um fuzilo de novo, "fessor", disse uma menina inocente puxando a cerzida blusinha para cobrir o nariz. A classe caiu na gandaia. Quase achei graça, no socado ímpeto do momento, mas o cheiro da flatulência sonora braba veio feito um tufão; cortei a respiração, pedi que abrissem as janelas (corri abrir a porta), e, como a classe fez aquela pausa fui pra lousa e tentei escrever. Naquele momento acertei em cheio. Interessante, ora essa! Começaram a copiar, lépidos, deixaram de falar, eu que sou bom no improviso dos textos, fiz um apanhado geral do que falara, quase enchi a lousa (letra feia que só vendo) – Letra feia, hein, Professor Silas?, gritou um disgramado, sapeca – continuei escrevendo sem palpitar e ele sossegou o pito. Enchi a lousa (Chega, professor! - reclamou uma menina posuda, cara de metida a sebo), tocou o sinal – parecia aqueles de penitenciárias que soam em ocasiões de rebeliões - eu suspirei algo aliviado, agradeci a colaboração (podia ser pior, disseram colegas, depois – outros tiveram situações incontroláveis, disseram outros – se fosse "tal" classe você desistiria na hora, pinchou um tipo sarará docente de matemática), e eu saí da sala dois-por-dois, com o rabo entre as pernas (passara no teste?), pois vencera o impacto psicológico do primeiro momento, e garrei questionar a Inspetora de Alunos para qual classe eu iria na seqüência. Era aula vaga. Fui pra Sala dos Professores que estava vazia, mas que tinha água, banheiro, café, chá. Asseei-me, fiz as necessidades – quando fico nervoso solta-me o intestino (problema na flora intestinal?) - tomei um chá com muito açúcar, respirei fundo (quebrara-se o impacto psicológico do que na verdade tinha sido uma espécie de teste da praxis pedagógica), relaxei, sentei no sofá e quase dormitei, até que tocou o sinal da hora do recreio e a sala se encheu de todos os tipos de pessoas, altas, baixas, magras, obesas, bonitas, feias, pardas, negras, brancas, caras de ricas, pobres, titulares, eventuais, contratados, alguns felizes, outros fazendo bico, algumas pessoas até frustradas ali, sem saber direito o ofício, duas neuróticas disfarçadas, outras humildes, sensíveis, competentes perdendo (ou ganhando?) cancha ali. Quando mal-e-mal me apresentei de supetão, uns disseram benvindo, um ou outro grunhiu o dezelo pela concorrência naquela periferia ao deus-dará, outra disse uma palavra parecida com "coitado" , fui com a feição de uns e outros, sondei riscos em terceiros, medi o momento e, afinal, com garra e coragem, enturmei-me com o lanche que, por sorte, aquele dia era cachorro-quente com salsicha horrível de terceira categoria. Fumaram, falaram besteiras, reclamaram do governo (corrupto, ladrão – e era!), tocou o sinal, peguei uma dobradinha numa Oitava Série muito boa, mesmo papo, copiei resumidamente o texto de um livro que me emprestaram, expliquei – sou bom de improviso – depois dei questões – e assim tive a primeira graciosa aula gostosa de minha vida, lá nos idos de 1992, bairro do Marabá, município de Tabão da Serra, área periférica e carente da chamada Grande São Paulo. Acho que fiquei ali um ano e meio nessa Unidade Escolar de Ensino Público, saí-me muito bem, e quando arrumei escola melhor, a improvisada professora que assumiu a minha classe – eu tinha conseguido aula também em escola particular – fazia faculdade com a minha esposa, e, mês depois, um dia, aloprada, em pé de guerra, nervosa e fora do sério, interpelou minha esposa e cobrou: -O quê é que o seu marido tem, afinal? Como é que ele agüentou aquilo? Ele é feito de açúcar? Ele é louco? Os alunos só falam nele, fazem comparações que me irritam, enchem o saco, sentem a falta dele. Maldita hora que eu peguei as aulas dele para substituir... Minha mulher engoliu a seco, não disse nada, deixou passar o destempero ocasional de uma professora ainda muito jovem, sonhadora e algo alheia a realidade da comunidade escolar. Ela não era tão sovada pela vida, ainda. Amar se aprende amando. Não é assim que disse o Poeta Vinícius? A melhor pedagogia é o exemplo? Lecionar é uma missão, uma cruz? Deve ser isso. Ou não, muito pelo contrário? Vá saber. Eu já estava
nos trinta e tanto, e estava dando aula por amor, fazendo o que gostava.
Tinha passado por tantas situações, tinha apanhado da
vida, mas, finalmente, estava fazendo alguma coisa que gostava. A melhor
vingança é ser feliz? Devia ser isso, nada mais.
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Críticas? Mantida por Jorge
Luiz Kimieck |
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