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Orçamento
Participativo Mirim No ano passado o Brasil descobriu que a violência juvenil não é um fenômeno apenas inglês e norte-americano. Foram diversos casos divulgados em que jovens, quase sempre oriundos de famílias de razoável poder aquisitivo, assassinavam parentes muito próximos. Coincidentemente, em 2002, a Editora Autêntica/Gutemberg publicou um excelente livro, "Gritos no Vazio", onde era relatada a trajetória de Mary Bell, uma menina inglesa que aos 11 anos de idade assassinou duas crianças. O livro procura analisar o imaginário de uma criança e suas motivações para agir de maneira tão brutal. A leitura é comovente e gera grande indignação. Mary sofria abusos sexuais desde a tenra idade, sendo utilizada como "prêmio" pelos clientes de sua mãe, uma decadente e perturbada prostituta. A leitura deste relato é um mergulho no tortuoso processo de formação de uma criança desnorteada, onde o sofrimento agudo, ainda mais confuso por ser promovido por um ente familiar querido, chega a anestesiar os sentimentos de piedade e compaixão de Mary. A autora, Gitta Sereny, revela que crianças submetidas a situações de violência e tensão permanentes desenvolvem, não raramente, atitudes de extrema violência contra animais e pessoas, sem associar a pessoa ao sofrimento que causa. Uma espécie de "desumanização do sentimento". Por aí, Sereny promove uma profunda crítica ao sistema judicial inglês, aos professores primários e assistentes sociais que não possuem qualificação necessária ou mesmo sensibilidade para cuidar de crianças que vivem sérias dificuldades. A sociedade, segundo a autora, não consegue lidar com fracasso no cuidado com suas crianças, assim como as tragédias resultantes. O problema do cuidado
com a formação moral de nossas crianças e jovens
parece bater em nossas portas provocando, a cada dia, mais barulho e
temor. É necessário aprofundarmos urgentemente este tema,
pesquisar causas e soluções em andamento. Não há
como fugirmos da constatação de um relevante "abandono
social" de grande parte de nossas crianças e jovens. Estamos,
enfim, nos descuidando da sua formação moral, de sua socialização.
Minha
amiga, minha ouvinte Vamos
contruir É
uma torre de Babel (...) A metodologia utilizada
se aproxima em muito da prática do Orçamento Participativo
que envolve adultos. Inicia-se com a elaboração de material
didático (muitas vezes, a partir de oficinas com os estudantes),
seguida da mobilização de pais e agentes educacionais
(muitos são professores). Um mês depois, têm início
as plenárias por bairros e regiões, onde as prioridades
são definidas e os delegados são eleitos. Em novembro,
são votadas as demandas por prioridade. Muitas vezes, como ocorreu
em Barra Mansa, os estudantes saem em passeata pelas ruas da cidade,
cantando, apresentando cartazes e desenhos, revelando-se à cidade
como um animado grupo de cidadãos em formação.
Muitas vezes, as prioridades surpreendem o governo dos adultos. Em Goiânia,
as crianças votaram como uma das dez prioridades a construção
de sorveterias gratuitas. Aqui entra, mais uma vez, o trabalho pedagógico.
O adulto, ao contrário das crianças, precisa saber administrar
seus desejos. Tal aprendizado é construído num processo
de formação e socialização onde a frustração
e a negociação sempre se fazem presentes. Tais experiências parecem avançar num envolvimento real da sociedade adulta com os problemas de socialização de crianças e jovens adotando uma perspectiva e metodologia inovadoras. Caminham para além da tutela. Utilizam órgãos públicos como instrumentos pedagógicos de formação moral e política sem, contudo, gerar "politização precoce" dos jovens. Mais que um discurso participacionista, as propostas de Orçamento Participativo Mirim em curso geram espaços públicos de jovens. Os educadores têm a função de estimular negociações, apresentar limites, garantir regras de convivência. Um processo de formação de cidadãos, enfim, tema que povoa tantos discursos educativos nas últimas décadas, sem qualquer ação efetiva realmente relevante. Não há
como garantir que essas iniciativas não gerem uma espécie
de "neo-clientelismo". Contudo, se jovens em situação
de abandono social puderem manifestar suas intenções e
pensar em novas formas de organização social, se forem
realmente ouvidos pela sociedade dos adultos, e se esta sociedade incorporar
suas vozes às suas regras e ações, estaremos dando
um passo largo na ressocialização de crianças e
adolescentes. Se, além de expressarem organizadamente seus desejos
e sua voz, esses jovens participantes da elaboração do
orçamento municipal aprenderem a conviver na diversidade e a
administrar seus desejos, além de estudar soluções
para inúmeros problemas da convivência social, então
o passo será ainda maior, educando gerações a serem
cidadãos diferentes, com maior capacidade para tomar decisões
democráticas sobre sua cidade e comunidade.
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Críticas? Mantida por Jorge
Luiz Kimieck |
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