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No início do século vinte, um dos primeiros cientistas sociais dos Estados Unidos, James Harvey Robinson, observou que a maior parte do pensamento de seres humanos consiste não de pensamento "criativo" (espírito crítico, procura de alternativas diferentes para explicar fenômenos, inconformismo com banalidades e com soluções fáceis e improvisadas), mas, sim, de "racionalizações", isto é, de comodismo e preguiça intelectual. Ele foi mais longe, dizendo que quanto mais tacitamente uma idéia fosse aceita na mente de um povo, mais provável seria que essa idéia fosse um exemplo de racionalização, de pensamento acomodado. Lembrei-me de Robinson recentemente ao ler o mais novo livro de Roger Shank, Coloring Outside the Lines. Raising a Smarter Kid by Breaking All the Rules (Colorindo Fora das Linhas. Criando uma Criança Mais Inteligente Através do Rompimento de Todas as Regras) [New York: HarperCollins, 2000]. O livro está repleto de novas idéias sobre a educação de jovens e representa um grito de inconformismo contra a tradicional forma usada na educação formal para preparar novas gerações de cidadãos. Ele prega a criação de iconoclastas, de pessoas que dizem "não" em primeiro lugar a qualquer coisa, até que tenham condições de examinar a evidência para ver se é possível dizer "sim". A parte mais surpreendente do livro é seu ataque à posição da Matemática na educação. Ele afirma que a Matemática está no currículo de todas as escolas e universidades como matéria obrigatória por apenas duas razões: (1) devido à tradição [sempre esteve lá], e (2) devido ao fato de ser mais fácil para o professor testar os alunos [respostas certas/erradas]. Ele observa que o argumento segundo o qual a Matemática ensina a pensar melhor, ou como raciocinar, está furado porque é evidente que matemáticos (merecedores de admiração por sua habilidade nos cálculos) não pensam melhor do que outras pessoas. Ele sugere que o único conteúdo de quantificação que merece ser estudado na escola são as funções básicas (somar, subtrair, multiplicar e dividir-isso para poder usar uma calculadora) e porcentagens, mas nunca álgebra, cálculo, ou equações diferenciais. No lugar da Matemática, ele sugere cursos sobre raciocínio cotidiano (como comparar o valor de mercadorias no supermercado, como entender o extrato bancário, como calcular juros, e práticas outras úteis ao dia-a-dia). No início, o leitor do seu livro diverte-se com o grande apagador com o qual Shank, num só gesto, faz desaparecer todo um domínio de conhecimento que, por tradição, permeia a educação dos jovens. E não é fácil ignorar suas críticas, porque Shank é um dos mais prestigiados cognitivistas do mundo, estudioso prolífico na área de inteligência artificial (em Yale, ele dirigiu o Laboratório de I.A); é fundador e diretor do Instituto para as Ciências de Aprendizagem da Universidade Northwestern de Chicago. Ele inicia seus apontamentos dizendo "Estou escrevendo esse livro por estar horrorizado com aquilo que as escolas estão fazendo com as crianças". Ele tenta demonstrar que os alunos não estão incentivados a uma "paixão para aprender durante toda a vida". As escolas avaliam os alunos pela sua capacidade de se conformarem com o "sistema", consistindo o sucesso escolar em obter boas notas, não necessariamente na demonstração de criatividade e originalidade. Em vez serem confrontados com uma enorme quantidade de informação factual a ser memorizada, os alunos deveriam ter condições e oportunidades de serem audaciosos, ambiciosos, criativos, curiosos, analíticos e proficientes lingüisticamente. Escolas, insiste ele, deveriam ajudar cada aluno a descobrir suas verdadeiras paixões, a ser inovador e estar disposto a enfrentar certos riscos intelectuais. "Obter uma boa classificação no vestibular não garante um futuro brilhante se não houver amor pela aprendizagem". E a Matemática? Durante muitos séculos, e até poucas décadas atrás, o Latim era matéria obrigatória para todos os alunos porque, supostamente, ajudava o futuro cidadão a entender e usar melhor sua língua materna. Até médicos foram obrigados a estudar o Latim para poder entender a terminologia da profissão. Onde está o Latim hoje? Reduzido a uma especialização para poucos dentro dos muros universitários. E a Matemática? Eu tive muitos problemas com a Matemática quando aluno, mas hoje saboreio deliciosamente os documentários televisivos sobre "A História da Matemática". Quem não se lembra de um antigo e inventivo desenho animado de Walt Disney em que o professor Ludovic von Pato explica com humor a trajetória histórica da ciência dos números? Se era possível para o cinema ter sucesso em fazer com que a Matemática fosse agradável, imagine o que seria possível usando as novas tecnologias de comunicação agora à nossa disposição. Conheço casos excepcionais de professores brasileiros usando computadores para levar alunos do ensino médio ao manuseio e à compreensão matemática de fractais. Acredito que esteja na hora de questionar as justificativas para a inclusão obrigatória de disciplina que intimida os estudantes, pela maneira como está sendo oferecida em nossas escolas, porque acredito, salvo melhor juízo, que está lá, do jeito que está, por tradição, não por uma eficácia evidente e convincente. Acredito, também, que seria possível redirecionar o que hoje é o ensino de Matemática para o ensino de pensamento claro, sistêmico e crítico, demonstrando aos alunos que a história da Ciência e da Matemática revela que é possível construir em cima dos erros de pensamento do passado, e que é necessário usar rigor intelectual ao tomar decisões. Sem demitir ninguém, poderíamos criar uma nova abordagem educacional, preparando um novo tipo de cidadão, capaz de lidar com quantificação não porque memorizou fórmulas para processamento numérico, mas porque entende o manuseio de valores, objetos e outras práticas quantificáveis. |
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