De
onde virão os cientistas e tecnólogos brasileiros do futuro?
Nos últimos
anos, as notícias vindas dos Estados Unidos sobre a falta de mão-de-obra
em ciência e tecnologia são fascinantes: por exemplo, a indústria
de informática e telecomunicações anuncia 250.000
vagas não preenchidas no seu setor e defende a abertura facilitada
de imigração para estrangeiros capacitados; também
a Secretaria Municipal de Educação de Nova Iorque contrata
40 professores austríacos de ensino médio para preencher
vagas nas áreas de matemática e ciências.
Se é assim
no primeiro mundo, então como é entre nós? De onde
virão os cientistas e tecnólogos brasileiros do futuro?
Nos países do primeiro mundo, além de ter a oportunidade
de visitar museus de ciência e tecnologia em quase todas cidades
de grande porte, os jovens são bombardeados desde cedo, através
da televisão e publicações variadas, com imagens
de sucesso profissional: astronautas, premiados cientistas, tecnólogos
inventivos, ou pessoas que tornaram os seus conhecimentos algo altamente
rentável, bilionário. Esses jovens têm "role
models" a seguir, isto é, papéis exemplares que podem
influenciar cada um a nutrir a ambição de um dia se tornar
cientista ou tecnólogo....trabalhar nas fronteiras de conhecimento,
ter reconhecimento amplo na comunidade, e, com sorte, ficar até
muito ricos. E os jovens brasileiros- que "modelos" os nossos
meios de comunicação oferecem para a emulação?
Xuxa, Ronaldinho, Faustão?
Por exemplo, quem,
entre os estudantes, sabe o nome do jovem brasileiro, formado no ITA,
que foi selecionado pela NASA como um dos seus melhores astronautas? Sem
incentivos apropriados, de onde virão os cientistas e tecnólogos
que precisaremos para desenvolver o país e manter um mínimo
de soberania?
Duas semanas atrás
visitei, pela primeira vez, um emprendimento local que mostra um dos caminhos
para a resposta a esse problema: o Museu de Ciências e Tecnologia
da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul,
em Porto Alegre. Ô Porto Alegre que dá alegria! Ô exemplo
estupendo daquilo que a sociedade civil é capaz de fazer em prol
de todos os cidadãos! Não me lembro de ter visto no Brasil
uma instituição congênere desse porte, tão
completa, tão bem bolada, tão inteligente, tão "classe
mundial" à disposição do público geral.
Embora anunciado como "um museu interativo", não é
uma crítica observar que o Museu é muito mais do que isso.
Todos os museus modernos exclusivamente interativos faltam no tocante
à exposição de objetos em três dimensões
(mais perto do universo não-virtual que o espectador conhece e
entende). O novo museu de Porto Alegre está baseado numa coleção
valiosa de objetos de história natural (leia-se biologia, ecologia)
que foi iniciada na PUC-RS muitas décadas atrás.
A esta coleção básica foi adicionado um conjunto
de aparelhos e apresentações que não apenas levam
o espectador aos reinos da física e da química, mas que
também aprofundam a compreensão na área de biologia.
O público tem acesso a 12.500m2 de exibições, em
três pavimentos, com um total de 600 "atrações"
que aumentam o entendimento do espectador em relação aos
fenômenos da natureza. Muitos exigem que o espectador "mexa"
com partes da "atração", outros exigem manuseio
simples de um computador (assim justificando a designação
"interativo"); mas a coleção de animais empalhados
é magnífica, e oferece ao espectador urbano uma boa visão
de fauna raramente vista.
Só para ter
uma idéia da amplitude das "atrações",
podemos citar, no térreo, os setores de educação
ambiental e de interação com seres vivos; no segundo pavimento
há dioramas, atrações de astronomia e paleontologia;
no terceiro pavimento, uma variada seleção de atrações
para a reflexão sobre fenômenos em física: mecânica,
fluídos, óptica, ondas e som, eletricidade e magnetismo,
calor, matéria e energia, e mundos virtuais. Em todo lugar tem
computadores com bancos de dados para aumentar o entendimento. E tudo
está apresentado com clareza e capricho. Pais de família
e professores de todo o país podem considerar uma visita de um
dia inteiro ou até mais a este museu como um bom investimento para
a educação dos seus jovens. Certamente não faltarão
atividades lúdicas/educacionais nesta instituição
para um leque grande de faixa etárias, graças ao fato de
que a PUC-RS teve o apoio de muitas empresas e fundações
locais e nacionais para sua realização.
Considerando que menos
de 8% das escolas de ensino fundamental e menos de 54% das escolas de
ensino médio no país, segundo dados do MEC, têm laboratórios
de ciências, é possível concluir que a maior parte
da população do país não tem contato direto
com a ciência, estudando apenas algo "sobre" ciência.
É com museus como este da PUC-RS que podemos ter a esperança
de que o Brasil terá, sim, cientistas e tecnólogos no futuro,
a partir dos jovens que foram inspirados a curtir a imaginação,
os "estilos individuais" de curiosidade em ambientes ricos para
a aprendizagem e a compreensão profunda das coisas.
Fredric
Litto é coordenador científico do Núcleo
de Comunicação Aplicada à Educação
da Escola do Futuro - USP.
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