|
||||||||||||||||||||||||||||||||
|
Aprendizagem profunda e aprendizagem de superfície Eureka!! Já sei o que vou fazer na minha aposentadoria! Vou fundar uma nova universidade que ofereça um título de bacharelado após apenas três dias de aulas! Como assim? Bem, é decisão é o resultado de uma enquete que venho fazendo informalmente há muitos anos, com brasileiros que terminaram os seus estudos universitários mais ou menos cinco anos antes de eu fazer a única pergunta da enquete. A pergunta é: "Pode me dizer tudo o que você se lembra do que aprendeu nos quatro anos que passou fazendo o seu curso universitário?" Invariavelmente, as respostas são tão breves e superficiais que me dão a certeza de poder ensinar as mesmas coisas a novos alunos em apenas três dias! Que acham? Não teria chegado a hora de re-examinar aquilo que estamos fazendo nas universidades brasileiras à guisa de "uma educação"? Será que em vez de uma verdadeira educação estamos oferendo meramente um curso profissionalizante, especializado, super-focalizado? Afinal de contas, o aluno brasileiro de medicina estuda apenas a medicina; o de história, apenas a história; e de comunicação, apenas a comunicação, e assim por diante. Onde é que o aluno tem contato com a capacitação geral em raciocínio, com toda a gama de habilidades cognitivas que são transdisciplinares, ou metadisciplinares, ou ainda transferíveis de um conjunto de disciplinas para outros? Acredito que estamos produzindo gerações de profissionais mal preparados para enfrentar as mudanças sociais, tecnológicas e nas formas de trabalhar que nos aguardam nas próximas décadas. Um bom exemplo disso é a falta de discussão, no Brasil, sobre um conceito significativo e bastante presente na literatura científica mundial sobre aprendizagem, preocupação que deveria ser essencial entre os profissionais da área educacional. Durante os últimos vinte anos, considerável pesquisa tem sido realizada sobre a distinção entre dois "estilos" de ensino ou aprendizagem, um designado "aprendizagem profunda", e o outro "aprendizagem de superfície", embora não pareça haver concordância se ambos existem como extremidades do mesmo eixo, ou são relacionados de maneira mais complexa. De qualquer forma, parece haver consenso na opinião de que "aprendizagem profunda" ocorre: - quando os estudantes usam capacitações cognitivas da mais alta ordem (como análise e síntese, julgamento e interpretação); - quando são altamente motivados intrinsecamente (pelo prazer em aprender, e o sentimento de poder ao adquirir novo conhecimento); - quando procuram compreender profundamente a matéria estudado em vez de ficar apenas no nível superficial, generalizado; - quando aprendem com a ajuda de conhecimentos e experiência pessoal que já possuem; - quando conseguem integrar tranqüilamente novos conceitos aos que já sabem; - quando procuram o contexto e o "sentido" da matéria estudada (uma visão holística); - quando demonstram que estão "confortáveis" com os princípios e conceitos aprendidos; - quando são expostos a uma gama de materiais intelectuais apropriados para diferentes "estilos" cognitivos de aprendizagem; - quando demonstram retenção a longo prazo da compreensão adquirida; - quando mostram satisfação em estar envolvidos no processo auto-gratificante de adquirir novo conhecimento; - quando prosperam em ambientes de aprendizagem que sejam seguros, sem ameaças (isto é, onde é possível correr certos riscos e erros sem punição), e sem fatores que provocam ansiedade (possível reprovação ou fracasso); - quando tenham a oportunidade de participar na escolha daquilo que terão que estudar; - quando tem a oportunidade de prestar exames que em vez de testar conhecimentos factuais oferecem a possibilidade de escrever ensaios ou realizar projetos; - quando demonstram sua capacidade de facilmente transferir os seus conhecimentos para domínios diferentes e novos; e, finalmente, - quando eles mesmo vêem os seus cursos como algo relevante para suas carreiras futuras. Por outro lado, a "aprendizagem de superficie" é caracterizada pela "reprodução de conhecimento" (informação memorizada) e ocorre: - quando estudantes são motivados extrinsicamente (receber uma boa nota do professor, ou um novo carro se passar no vestibular); - quando estudantes focalizam nos detalhes e pedacinhos de informação de forma atomista, memorizando detalhes ou características específicas; - quando os alunos acreditam que "conhecimento" é uma coletânea de fatos ou dados isolados a serem memorizados; - quando os alunos se preocupam tanto com fatos, "respostas certas" e cobertura extensiva da matéria em estudo, que acabam sendo incapazes de ver as inter-relações subjacentes entre os elementos ou fatos. Estudantes que aprendem dessa forma acabam tendo uma compreensão limitada de conceitos, têm dificuldade em desenvolver argumentos lógicos, bons e convincentes, têm dificuldade em distinguir princípios de exemplos e em reconhecer as idéias que são as mais significativas, e rapidamente esquecem os fatos ou conceitos memorizados. Tais alunos normalmente estão sujeitos a cargas excessivas de conteúdo, que acabam reduzindo o tempo disponível para reflexão, e são os participantes passivos de aulas expositivas dadas por professores preocupados em transferir conhecimentos no atacado. Finalmente, esses estudantes normalmente não conseguem ver uma relação clara entre os seus cursos e o seu futuro, além do diploma, que serve como carteira profissional. Sem dúvida, não devemos esperar que alunos estudem todas as matérias de forma profunda, porque tal expectativa seria uma afronta àquilo que sabemos sobre os estilos individuais de aprendizagem, as múltiplas inteligências e idéias correlatas. Seymour Papert observou agudamente que os conjuntos de idéias que aprendemos são como nossos relacionamentos humanos: tratamos alguns como amigos do peito, outros apenas como "conhecidos", e outros ainda em algum lugar entre essas extremidades. Mas é justo esperar que todos os alunos demonstrassem aprendizagem profunda em pelo menos algumas áreas do saber, por escolha própria. Conseguindo isso, prometo abandonar a minha idéia de uma universidade de apenas três dias, juro! Para aqueles que querem ler um pouco mais sobre esta questão de aprendizagem profunda e de superfície, ofereço uma bibliografia não em língua portuguesa, mas com itens facilmente encontráveis pela Internet: Clássicos Biggs, J.B. and J.P. Moore. The Process of Learning. 3rd ed. Sydney: Prentice-Hall of Australia, 1993. Cowan, John. On Becoming an Innovative University Teacher. Reflection in Action. Buckingham: Society for Research into Higher Education and Open University Press, 1998. Entwistle, N.J. and P. Ramsden. Understanding Student Learning. London: Croom Helm, 1983. Laurillard, Diana.
"Multimedia and the Changing Experience of the Learner", in
M. Ryan, ed., Proceedings of the Asia Pacific Information Technology in
Training and Education Conference and Exhibition. Brisbane, Australia,
1994. ______________. Rethinking University Teaching: a Framework for the Effective Use of Educational Technology. London: Routledge, 1993. Marton, F., D. Hounsell and N. Entwistle, eds. The Experience of Learning. Edinburgh: Scottish Academic Press, 1984. Ramsden, P. Learning to Teach in Higher Education. London: Routledge, 1992. DeFanti,
Thomas A. "Deep Learning and Visualization Technologies" |
|
||||||||||||||||||||||||||||||