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Telecentros Comunitários -- Uma Resposta à "Exclusão Digital" No passado, quando os "coronéis" do Brasil não queriam que novas idéias inconvenientes chegassem aos seus territórios de mando, fizeram tudo para que nem a estrada de ferro nem a telegrafia chegassem perto. Meu amigo David Thornburg gosta de citar, neste contexto, o cientista inglês Francis Bacon, que já em 1601 asseverou que informação e conhecimento representam poder, observando ainda o fato de muitas pessoas deterem o poder e não quererem compartilhá-lo. As palavras exatas de Bacon eram: "Nada destrói a autoridade tanto quanto o intercâmbio desigual e inoportuno de poder, quando for estendido demais ou relaxado demais". Isto é, quando compartilhamos o conhecimento com outras pessoas, estamos compartilhando o poder também. Estamos testemunhando uma nova era, na qual o equivalente moderno da estrada de ferro ou da telegrafia, a Internet, pode e deve ser usado para realizar o intercâmbio da informação e do conhecimento, e com isso compartilhar o poder entre todos os usuários-cidadãos. Uma maneira de fazer isso é a implantação de sistemas de "telecentros comunitários", uma via de duas mãos usada pelos cidadãos para comunicar entre si e com os órgãos governamentais que existem para servir a sociedade. Um "telecentro" é um lugar físico, de fácil acesso público, que oferece gratuitamente serviços de informática e telecomunicações, num contexto de desenvolvimento social, econômico, educacional e pessoal. Sua concepção se baseia na crença de que "o cidadão tem o seu poder aumentado quando tem acesso ao conhecimento". Telecentros representam uma ferramenta para diminuir a crescente distância entre cidadãos "ricos em conhecimento" e aqueles "não-ricos em conhecimento". A literatura científica sobre Telecentros revela centenas de exemplos de projetos nessa linha de desenvolvimento comunitário na África, na Ásia e na América Latina nos últimos dez anos. De fato, o termo "Telecentro" é aceito hoje como o nome mais geral para englobar projetos parecidos, com nomes tão variados como "cabines públicas", "centros comunitários de tecnologia", "centros comunitários de acesso", "centros de conhecimento na aldeia", "infocentros", e "clubes digitais". O Brasil agora está
se juntando a outros países latino-americanos onde Telecentros têm muitas conseqüências positivas e estrategicamente importantes para o cidadão: - acesso fácil à informação necessária para o cidadão levar a vida para frente com dignidade; - oportunidades para fortalecer a capacitação profissional dos cidadãos através de educação à distância; - aumento das oportunidades para auto-expressão local. Telecentros normalmente
oferecem uma combinatória de serviços de tecnologias O conteúdo típico de sites de informação comunitária (local), em Telecentros inclui acervos e serviços sobre: - dados históricos da comunidade e dados demográficos e etnográficos; - mapas indicando os limites municipais e estaduais, e a localização de propriedades públicas e particulares; - acesso a repartições governamentais (com instruções de como conseguir documentos como alvarás e licenças, sem a ajuda de intermediários como despachantes); - informações sobre localização, horários e serviços de centros de saúde, transporte local, educação e programas governamentais; - quando a zona rural estiver incluída no programa de acesso: preços de safras e insumos agrícolas, controle de pragas, extensão agrícola; e regulamentos florestais e de fauna silvestre; - anúncios classificados de oferta de empregos, ou de pessoas se oferecendo como empregados; - anúncios de reuniões comunitárias como associações "amigos do bairro"; - jornal do bairro, com notificações de casamentos, nascimentos, mortes, reuniões de igrejas, etc. - local para publicar poemas, lembranças e opiniões políticas dos membros da comunidade..... tudo isso eletronicamente e gratuitamente. Em geral, os Telecentros servem para fortalecer a participação da população em debates de política pública, melhorar a administração de recursos municipais e estaduais, dar apoio a empresários de pequeno porte, criar novas oportunidades para aprendizagem e permitir comunicação fácil entre todas as organizações locais em comunidades beneficiadas com sua presença. Em 13 de julho de 2000 o Instituto Florestan Fernandes de São Paulo, "think-tank" do Partido dos Trabalhadores, inaugurou os primeiros cinco "pontos de presença", de um futuro grupo de noventa e seis Telecentros, no bairro de Capão Redondo, um setor da periferia da cidade conhecido por sua extrema violência e, paradoxalmente, por ter o maior número de centros comunitários na metrópole. Em cada um desses
cinco centros, com a ajuda de empresas da porte de Microsoft, Gateway,
3Com e Mitsca, foram instalados dez microcomputadores, redes locais e
impressoras, com conexão à Internet. O Centro Universitário
Adventista, parceiro da vizinhança, está fornecendo acesso
à rede, e já foram treinados 20 monitores e 30 agentes de
rede, como multiplicadores. Mais cinco centros foram instalados em setembro,
além de um conjunto de serviços informacionais, como uma
agência de notícias local e classificados de empregos e de
oferta de mão-de-obra. O projeto se chama sampa.org, e o seu site
está gerando 10.000 sessões de uso por mês. Deve ficar claro que esse movimento de estender acesso à informática e à Internet representa um caminho no qual não há retorno e que provavelmente mudará, a longo prazo, e relação entre o cidadão e o Estado, municipal, estadual e federal. Daqui em diante será mais fácil para grupos de cidadãos com interesses específicos se organizarem para agir de forma a ter o maior impacto possível. Também significa
que legisladores eleitos não terão mais a liberdade total
de que gozaram até agora, mas, sim, serão obrigados a consultar,
via rede, os membros da sua base eleitoral antes de votar contra ou favor
de qualquer medida, e obrigados, também, a prestar contas constantemente
à comunidade que representam. Na medida em que Telecentros crescem
entre nós, haverá cada vez menos excluídos e haverá
cada vez mais oportunidades para todos os cidadãos terem acesso
facilitado à educação continuada, localmente, via
redes nacionais e internacionais. Mas estamos cientes de que em nossa ajuda é necessário evitar a criação de um projeto no qual a Universidade chega na comunidade com "a solução" pronta para ser aplicada no tocante ao "design" da informação, o desenvolvimento do conteúdo e seu uso. Como um agente "de fora" da comunidade, tanto a Universidade quanto qualquer agência governamental têm de seguir uma política que evite um controle "de cima para baixo". Organizações locais devem ser envolvidas e comprometidas com o sucesso do projeto desde o seu início, incluindo responsabilidade para o "design", operação e produção de conteúdo. A estratégia apropriada para essa transferência de tecnologia têm de ser voltada para o desenvolvimento local de capacidade e autonomia. Será nosso trabalho ensinar aos cidadãos locais as técnicas e habilidades necessárias, bem como os aspectos organizacionais nesse tipo de empreendimento, para depois servir como agência de apoio continuado. Mas o trabalho de selecionar, captar e transformar a informação, além da criatividade na continuação e expansão de cada Telecentro será dos vizinhos. Se informação é poder, eles terão nas suas mãos, daqui em diante, uma arma muito forte para defender os membros de sua comunidade, acelerar o desenvolvimento local em todos os setores, comunicando para o mundo afora seus desejos, suas esperanças e suas conquistas.
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