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Cota
na universidade baixa qualidade O sistema educacional brasileiro tem sérias distorções. As oportunidades são muito mal divididas. Mas não é criando cotas para estudantes de escolas públicas nas universidades que se vai resolver esse problema. As universidades atendem uma parcela ínfima da população brasileira. Uma elite, econômica e intelectual. Em países da Europa e nos Estados Unidos nem o dinheiro nem o conhecimento são tão concentrados em tão poucas mãos. O Brasil tem 2 milhões de estudantes universitários e 52 milhões de ensino básico (educação infantil, ensino fundamental e médio). Embora abrigue apenas 4% dos estudantes, a universidade recebe em torno de um terço dos recursos públicos da Educação. A questão é que a quantia investida por estudante universitário não está fora dos padrões americanos. O que falta mesmo é investimento no ensino básico. *** A proposta de se reservar metade das vagas das universidades públicas para estudantes do ensino médio público não leva em conta a natureza da universidade brasileira. Em qualquer parte do mundo, a universidade de pesquisa reúne uma elite. Uma elite intelectual, mas não necessariamente econômica. No Brasil, praticamente todas as universidades públicas são universidades de pesquisa. Reúnem uma elite, intelectual e muitas vezes também econômica. Nos EUA há os colleges, que são instituições de ensino superior, em geral públicos, mas não gratuitos. No Brasil este setor é ocupado por uma iniciativa privada que muitas vezes está mais preocupada com a lucratividade do negócio do que com a qualidade do ensino. Aqui é a população de renda mais baixa que paga para ter formação superior. Os mais ricos freqüentam universidades públicas e gratuitas, que, além de ensino, têm pesquisa e extensão. Isso só vai ser resolvido com um ensino básico de mais qualidade. *** A universidade é necessariamente seletiva. É natural que as melhores instituições selecionem seus membros pela competência. O que se exige delas é excelência. A reserva de vagas implica o ingresso de estudantes menos qualificados nas universidades. Elas terão de criar novas estruturas para enfrentar esse novo problema. Esta não é uma das missões universalmente aceitas para as universidades. O que é consenso é que as boas universidades devem oferecer ensino, pesquisa e extensão de qualidade. O Brasil precisa de creches melhores, que não sejam meros depósitos de bebês. Pré-escolas que levem em consideração a natureza própria das crianças. Um ensino fundamental sólido, consistente, construtivista, que respeite cada aprendiz. Um ensino médio mais prático, mais pragmático, que relacione as informações à vida real, que forme cidadãos autônomos, solidários e competentes. *** Essa história de que o Brasil investe muito em educação, mas investe mal é bobagem. Investe pouco e ainda por cima mal. Se quisermos dar um salto qualitativo no ensino é necessário investir muito mais. É uma questão econômica, social e política. Não haverá desenvolvimento verdadeiro em qualquer desses planos sem uma educação básica pública e gratuita de qualidade. A reserva de vagas para estudantes de escolas públicas nas universidades públicas segue a lógica estreita das compensações, do assistencialismo, do corporativismo. O Brasil está cheio disso. O buraco é mais em baixo.
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