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Em defesa dos ciclos Nenhuma das muitas reportagens publicadas recentemente sobre os ciclos nas redes públicas de ensino realmente explica qual é o problema em questão. E o problema é o seguinte: 40% das crianças brasileiras são reprovadas no primeiro ano de escola. Repito: 40% das crianças brasileiras têm que estudar de novo as mesmas coisas, "levam bomba" no primeiro ano de escola. É quase uma em cada duas. A criança que é reprovada pela escola chega em casa, dá para o pai e a mãe o boletim, e leva bronca. "Você não serve para o estudo, você vai ter de trabalhar...". As escolas brasileiras dizem, para a enorme maioria das crianças e dos adolescentes, que eles não servem para estudar. E os jornalistas repetem esse discurso, de que é necessário reprovar o aluno que não aprende, baseando-se em sua própria experiência. Apenas 12% da população adulta brasileira freqüentou uma universidade. É uma parcela ínfima, privilegiada, uma elite. E nós jornalistas freqüentamos uma universidade. Na minha escola repetir de ano era gravíssimo. Um ou dois estudantes, no máximo, repetiam o ano. Isso numa turma de 35, 40. Na escola pública mais da metade repete no primário (1ª à 4ª série). Quem está errado: o aluno ou a escola? Quando se obriga um estudante a cursar novamente um determinado conteúdo, o pressuposto é que ele foi incapaz de absorvê-lo. Mas será que aquelas crianças que estão indo pela primeira vez à escola, que não aprenderam em casa a ficar sentadas, a gostar de livros e periódicos, será que elas são capazes de aprender a ler e escrever como as outras crianças, de famílias letradas, com acesso a uma enorme diversidade de bens culturais? As pessoas tendem a ver a realidade a partir de sua ótica restrita, de seu repertório, sem considerar o "outro", a alteridade. Só que a escola brasileira está se popularizando. Segundo o Ministério da Educação, 96% dos brasileiros de 7 a 14 anos freqüentam hoje uma escola. É um índice de país desenvolvido. O problema atual não
é de quantidade, mas de qualidade. Boa parte dessas crianças
vai à escola para comer. E fica lá 3, 4 horas por dia. Com
professores insatisfeitos. É inadmissível dizer para uma criança que ela é incompetente. Como assim? Não aprendeu o que devia? Não estudou? Aos 7 anos de idade? Para a classe média e a classe alta, um homem de 30, 40 anos ainda está em formação. Mas há pessoas - de todas as classes - que cobram a maioridade penal antes dos 18 anos de idade. A escola brasileira, hoje popular, não pode rejeitar os seus filhos. Não pode dizer que eles são "burros". A reprovação de alunos responsabiliza-os pelo seu "fracasso". O problema é a escola, a Educação. E os ciclos têm o mérito de corrigir essa distorção. É verdade que muitos são implantados sem nenhuma responsabilidade. Mas as crianças saem sempre ganhando.
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