|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
O
círculo vicioso da miséria Estive há pouco tempo no Sítio do Descobrimento e, finalmente, compreendi por que o Brasil não dá certo. Anda tudo muito bonito naquela região. Estradas recém asfaltadas, guias pintadas e aquele mar... Bonito mesmo. Numa reunião do Conselho da Infância e Adolescência, na OAB de Porto Seguro, cerca de dez representantes de entidades da sociedade civil - de Apae a um abrigo dirigido por um italiano - discutiam como pressionar o prefeito a liberar os recursos prometidos a cada uma no orçamento da cidade. Arraial D'Ajuda tem um comércio organizado e um estilo de vida "alternativo". Come-se muito bem. Mas também tem muita criança na rua, sem ir à escola. O Ministério da Educação diz que na Bahia 95,3% das crianças de 7 a 14 anos estão matriculadas em escolas. No Brasil, a média, diz o governo, é 96,2% - quase igual à da Europa. Só que basta olhar o número de crianças soltas nas ruas brasileiras que esses dados viram piada. Na reunião em Porto Seguro, havia uma madre que fundou - com investimento de um empresário local - uma escola de Ensino Fundamental (antigo 1.º Grau), a cerca de cem metros de uma das poucas escolas públicas da região. Tinha também um advogado cujo projeto é construir um circo-escola no descampado entre as duas escolas. Outro advogado acha que o mais importante é o Conselho Tutelar, que preside. Cada um tem sua emenda aprovada no orçamento da cidade, e quer fazer valer a lei. *** O Brasil é um país de "leis desejantes". Define-se como as coisas deveriam ser, e não como elas poderiam ser. Prescreve-se como deve ser tratado cada grupo organizado da sociedade. São pouquíssimos os artigos da Constituição brasileira que têm realmente a amplitude de um valor compartilhado. E são estes os necessários, definem as metas que o país quer alcançar. A Constituição americana tem 8 artigos e 27 emendas. O Reino Unido nem sequer tem Constituição - as regras de convivência são conhecidas por todos. No Brasil, não. Tem que escrever na lei. São 250 artigos só no corpo principal da Constituição. Mas ninguém obedece nada. *** A madre mantém uma boa escola, com uma clientela diversa. Ela precisa de dinheiro para aprimorar seu trabalho. E por isso critica o prefeito, que não cumpre a lei orçamentária. O prefeito manipula emoções, como Antonio Carlos Magalhães, entende o sentimento do povo, e usa esse conhecimento a seu favor. A líder de uma ONG conseguiu um terreno e precisa de R$ 60 mil para construir a sede. A verba já foi aprovada pelos vereadores - que também aceitaram um orçamento magro de Educação e Saúde. Cada participante do encontro tem lá seu interesse, em geral nobre, e busca unir força aos outros para realizá-lo. As crianças e adolescentes são realmente o foco. Mas não há ações conjuntas. Cada um é cada um. É parecido com o que ocorre no centro de São Paulo, em relação às crianças de rua. Há dezenas de ONGs atuando na região. E o problema perdura. No Brasil, de certa forma, respeitam-se as diferenças. Os pobres são pobres, os ricos, ricos. Faz parte. Na Bahia há muitas crianças e jovens na rua, sem fazer nada, e muita gente bem intencionada querendo melhorar a situação. O governo, que tem também gente boa, diz que está melhorando... Enquanto o pensamento brasileiro for individualista - lembra da Lei do Gerson? -, enquanto as ações na área social não forem articuladas, o círculo vicioso da miséria se mantém.
|
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||