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Tolerância zero Em carta enviada no dia 5 de setembro a membros das comissões de direitos humanos de São Paulo e da Anistia Internacional, um grupo de skinheads (carecas) avisa que a partir do dia 7, os representantes desses grupos começarão a sofrer represálias físicas. Também estão na mira dos carecas, nordestinos (a quem eles chamam de cabeça chata), negros e homossexuais. A polícia tem motivos para suspeitar da seriedade dessas ameaças. O representante da Anistia recebeu junto com a carta uma encomenda contendo uma bomba de fabricação caseira. Este ano, os carecas já mataram a socos e pontapés um adestrador de cães, que era homossexual. Além disso, a história recente comprova que em tempos de crise econômica, a intolerância social recrudesce e os grupos mais frágeis, como as minorias, costumam pagar a conta. O ponto é que um país como o Brasil, onde não há raça pura por força da miscigenação, já deveria ter uma política educacional eficiente para tratar das questões raciais e das diferenças culturais existentes entre os mais diversos grupos. A pesquisadora Eliane Cavaleiro, da USP, defendeu uma tese mostrando que o racismo é propagado nas escolas pelos próprios professores, que não sabem lidar com a forma jocosa com que muitas crianças negras ainda costumam ser tratadas pelos colegas. Eliane, que acompanhou durante um ano a rotina de classes de 1.a série, descobriu (numericamente) que as crianças brancas recebem mais beijos e abraços dos professores. Aos 7 anos, o afeto é um dos aspectos mais fundamentais para o aprendizado. O resultado está expresso nos números do IBGE. Aos 7 anos, apenas 2,1% das crianças brancas não sabem ler e escrever. Esse percentual, entre as negras e pardas, sobre para 59%. Em 1998, o Instituto da Cultura e Educação Continuada (IEC) realizou uma pesquisa ampla em escolas públicas do Rio, localizadas na periferia. Entrevistou durante vários meses 195 jovens, entre 15 e 18 anos, e acompanhou 200 horas de reuniões de conselhos de classe da escola desses estudantes. O resultado é que 79,7% dos entrevistados acreditavam que somente pessoas da mesma raça e origem deveriam viver juntas e 59,3% diziam se sentir no direito de expulsar os "diferentes" da sua comunidade. A maioria dos adolescentes, 64,4%, gostaria de que seu bairro fosse habitado apenas por pessoas da mesma classe. É preciso ver que os skinheads, que agora andam por aí fazendo ameaças, já estiveram nos bancos escolares públicos ou privados, onde poderiam ter recebido lições de cidadania em altas doses. Se isso iria torná-los punks, ao invés de carecas, ninguém sabe, mas pelo menos as escolas tentariam reduzir as chances de seus alunos adotarem o fascismo como bandeira. Mas, a possibilidade real agora é outra. Se presos, os carecas passarão a integrar um sistema carcerário baseado nos mesmos métodos empregados por eles: a pancadaria. |
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