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Passa tudo, se não eu mato Lideranças comunitárias dos bairros mais periféricos de São Paulo confirmam com histórias chocantes o que as estatísticas de violência, especialmente o aumento das chacinas, estampam: o tráfico está sitiando a maior cidade do país. Membros de centros comunitários tradicionais das zonas sul e leste já estão fechando acordo com traficantes para conseguir trabalhar. O esquema mais comum é deixar de solicitar policiamento comunitário (feito pela polícia militar em parceria com moradores) ao governo estadual. Em troca, recebem, dos chefes das "firmas" a garantia de que o lugar ficará "limpo". Quem discordar, morre. Um dos aspectos mais cruéis dessas "firmas" é empregar garotos cada vez mais jovens: têm entre 15 e 17 anos. Para eles, o tráfico é uma forma de ascensão social cada vez mais poderosa. Em alguns bairros da cidade, há fila de espera de adolescentes que aguardam uma oportunidade de virar "avião". (entregador de droga) A entrada desses adolescentes no tráfico é um indicador de que o combate ao problema não pode ficar restrito ao Plano Nacional de Segurança, recém aprovado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. É preciso combater a raiz do problema. E isso não se faz apenas aumentando a quantidade de policiais nas ruas e nem de postes de luz. Quando os planos de futuro de toda uma geração de adolescentes pobres passa pelo engajamento no tráfico, fica claro que é necessário investir recursos financeiros e humanos na criação de redes poderosas de educação e lazer. Para que São Paulo não vire uma Bolívia (já há bairros em que os índices de homicídio ultrapassam o daquele país) é necessário começar a agir já, deslocando mais recursos financeiros e humanos para a área de educação. As escolas públicas precisam virar oficinas de talentos, no molde das melhores escolas privadas, e, nos últimas séries, associar suas atividades ao mercado de trabalho. O aumento da violência, com forte participação dos jovens no tráfico de drogas, não pode mais ser tratado de forma burocrática. Professores e diretores de escola incompetentes precisam ser substituídos. Na atual circunstância até mesmo a estabilidade funcional dessa categoria deve ser repensada. Por outro lado, os salários precisam ser muito melhores para atrair profissionais de primeira linha. Como está, todos perdem. Sem educação de qualidade, os adolescentes não têm oportunidades reais de progresso e acabam enveredando pelo que, a princípio, lhes parece o caminho mais fácil: o tráfico e a violência. A população de São Paulo vive sobressaltada, com a sensação de que a qualquer momento poderá ser vítima da fatídica ordem: passa tudo se não eu mato. |
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