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Roberto Guimarães, o Bebel, 20 anos, nasceu em Vigário Geral, considerada uma das favelas mais violentas do Rio de Janeiro. Aos 16 anos, já era gerente de tráfico. Hoje, sua vida mudou. Bebel acaba de retornar de um estágio de seis meses no Cirque Du Soleil, em Montreal, no Canadá. Já fala inglês e francês e se prepara para iniciar a turnê do espetáculo “Myster”, em Las Vegas (EUA), com seus novos companheiros. Bebel passou a sonhar com um novo projeto de vida ao integrar as oficinas do Grupo Cultural AfroReggae. Esse projeto artístico/social inovador, criado há 10 anos, ajudou a mudar a temida e violenta imagem da favela de Vigário Geral, marcada pela chacina de 29 de agosto de 1993, quando 21 moradores da favela sem ligações com o tráfico (inclusive uma família inteira de evangélicos) foram mortos pela polícia. Os traficantes ainda dominam a área. Mas o AfroReggae disputa espaços com o comando paralelo para mostrar que é possível a jovens como Bebel traçar um novo futuro. Eles são resgatados do mundo do tráfico, se tornam cidadãos em sua plenitude e têm a auto-estima fortalecida. Passam a exibir, com orgulho, o seu talento na música, no teatro, na dança e no circo. A exemplo de Bebel que se tornou acrobata na trupe Levantando a Lona, um dos 14 subgrupos do projeto, e agora faz sucesso no Exterior, os jovens do conjunto de reggae Makala também se preparam para várias apresentações na Austrália. Num momento em que o brutal assassinato do casal de namorados Felipe Caffé e Liana Friedenbach choca o país por haver um adolescente entre os autores do crime, boa parte da sociedade passa a ver propostas como a redução da maioridade penal como a solução para o fim da violência. Para os defensores do simples endurecimento de penas (o que nunca significou redução da criminalidade, seja em que parte do mundo for), pouco adianta dizer que entre os jovens adolescentes privados de liberdade no país apenas 1,4% cometeram crimes contra a vida (assassinatos). E que a redução da maioridade penal de 18 anos para 16 ou 14, a fim de evitar que bandidos e traficantes possam continuar arregimentando jovens nessa faixa etária, de nada pode adiantar, pois, assim, quem passaria a ser procurado seriam crianças de oito ou 12 anos. “Para esses casos, o que a sociedade vai propor? Um dia, então, teremos berçários-presídio”, observa Mário Volpi, oficial de projetos do Unicef. Experiências como a do AfroReggae, por outro lado, dão resultado. Mostram que há um caminho, que existem alternativas. A solução não vem num passe de mágica. Mas muito se pode aprender em relatos como o de José Junior, um dos coordenadores do AfroReggae, no livro “Da Favela para o Mundo”, que acaba de escrever. Será lançado nesta terça-feira, dia 18, no Sesc Pompéia, às 19h30, com um show do grupo e a participação de artistas e ONGs da Zona Leste de São Paulo, com as quais o AfroReggae mantém intercâmbio. O projeto carioca atende hoje mais de 300 jovens em oficinas culturais em Vigário Geral e no Morro do Cantagalo. Leva para grandes favelas do Rio projetos bem sucedidos como o Conexões Urbanas, com shows de artistas famosos como Gilberto Gil, Caetano Veloso, o Rappa e Cidade Negra, entre outros. Essa iniciativa bem sucedida deve ser reproduzida em São Paulo, em parceria com organizações não-governamentais e artistas da periferia. O AfroReggae também desenvolve projetos de geração de renda para jovens. Forma profissionais para a produção de shows, por exemplo. Com a venda de camisetas e CDs, entre outros produtos, já consegue cobrir 30% de suas despesas (o restante é coberto por instituições como a Fundação Ford, Ashoka e a empresa Petroquisa, entre outros). Fica para o final uma pergunta que todos fazem: “Se o AfroReggae compete com os traficantes, como eles reagem ao perder quadros para um projeto social?”. A resposta é simples: a maioria dos traficantes, embora esbanje poder, dinheiro e outras eventuais regalias, sabe que tem vida curta, que tudo pode acabar amanhã e que nem ao menos pode sair da favela. Eles colocam seus próprios filhos nos projetos sociais. E confessam que, se pudessem ter feito uma escolha, não estariam nessa vida. |
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