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ACM é Deus e o Diabo na Terra do Sol Glauber Rocha que me desculpe, mas hoje, por todas as estripulias que tem feito, o senador Antonio Carlos Magalhães é o verdadeiro Deus e o verdadeiro Diabo na Terra do Sol. Deus para todos aqueles de boa fé que torcem para que o intrépido senador baiano continue firme e forte em sua cruzada neomoralizante, apontando onde existem focos de corrupção no governo federal e revelando ao público as idiossincrasias e mau-caratismos da classe política alojada em Brasília. Deus para todos aqueles que torcem desesperadamente, como os procuradores do Ministério Público e os parlamentares da oposição, para que o espetáculo não tenha fim e o mar de lama atinja ainda mais a honra desavergonhada do atual governo. Diabo para todos aqueles que têm algo a esconder, que enganam e traem a confiança do povo para salvar a sua própria pele, varrendo sob o tapete toda a sorte de sujeiras e escândalos. Diabo para todos aqueles que passam a vida inteira vendendo uma imagem de seriedade, mas que na calada da noite e no silêncio dos gabinetes conspiram, fraudam, locupletando-se com os negócios públicos. ACM não é nenhum santo. Fernando Henrique não é nenhum papa-hóstia. Heloísa Helena, a destemida senadora petista, não é nenhuma Virgem Maria. Os procuradores da República não são anjos da guarda nem donos da verdade. Nessa guerra, existem mais bandidos que mocinhos. A inocência morreu criancinha. As denúncias de ACM não podem ser ignoradas. Exige-se dele, no entanto, que apresente as provas que diz possuir, coloque tudo sobre a mesa. Não basta dizer que há corruptos e corrupção no governo. É preciso mostrar as provas e os fatos. ACM está ferido e como todo o animal ferido reage quando se sente ainda mais ameaçado. Perdeu sua guerra particular contra a ascensão de seu arquiiminigo Jader Barbalho à presidência do Senado e do PMDB como principal partidário dos tucanos na aliança governista. E como todos sabem, político traído é mais perigoso do que aquele machão que flagra sua mulher saindo do Motel na companhia de outro homem. Mas é sabido de todos que o velho coronel da política nordestina, talvez acometido de uma grave crise de consciência, esteja tentando se redimir perante a história. Foi ele quem viabilizou
a instalação da CPI do Judiciário, que revelou as falcatruas
do juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lalau, no desvio de dinheiro público
destinado para a construção do Fórum Foi ele quem "bancou" politicamente a cassação do mandato do primeiro senador da República, Luiz Estêvão (PMDB-DF), envolvido nas irregularidades do TRT paulista. Foi ele quem colocou teimosamente o tema da pobreza na agenda de prioridades (?) do governo, ao propor a criação do Fundo de Combate à Pobreza. Foi ele quem teve a coragem de peitar os monetaristas da equipe econômica, com a sua teoria do pensamento único, e rebelou-se favorável ao aumento do salário mínimo, que apesar do aumento, continua sendo mínimo. É dele que tem partido
a maioria das denúncias de corrupção contra o governo federal. Foi um dos pilares que deram sustentação a terríveis e longos anos de ditadura. Ficou ao lado de Collor, um presidente acusado de corrupção, até o fim. Fez da Bahia o seu feudo. Lá, ele manda e desmanda no governo, na igreja, no Judiciário, no axé music, nas luvas do Popó, na lambada de Carlinhos Brown e no Tchan da Carla Perez! À frente do governo baiano persegue seus adversários políticos, ora aniquilando ora cooptando opositores, e o acusam de misturar interesses particulares com os negócios da coisa pública. Enriqueceu com a política, construindo um império de comunicações, à custa da exploração da miséria e da camaradagem do povo baiano. Curiosamente, é este mesmo povo baiano que o idolatra hoje nas ruas. Como ministro das Comunicações do governo José Sarney promoveu a farra das concessões públicas de rádio e TV para garantir ao então presidente um ano a mais de mandato, beneficiando diretamente a sua família e a família de quem acusa agora de improbos e malfeitores, como senador paraense Jader Barbalho, do PMDB. ACM reage à iminente perda de espaço político. Tudo bem, dá-se um desconto. No entanto, devemos prestar atenção no que diz. Merece algum tipo de crédito. Se as denúncias têm ou não têm cabimento, só uma investigação profunda e honesta provará. ACM foi longe demais, dizem seus novos e velhos adversários. Foi, sim. O caminho escolhido por ele não tem mais volta. Políticos da sua estirpe, com a sua personalidade, como Leonel Brizola, Itamar Franco e Roberto Requião, que também podem ser classificados nessa categoria, não cultivam o hábito de levar desaforo para casa. Jamais aceitam ser contrariados. Tentam se impor a todo o custo, empregando, às vezes, táticas suicidas. Não têm muito jogo de cintura. Nem mesmo o juízo de outrora (se é que têm juízo). Recusam-se a dançar conforme a música, até por uma questão de idade, e a jogar o jogo que a velha e matreira política está sempre a exigir. Lançam-se contra
o "inimigo" com uma valentia e, às vezes, com uma covardia impressionantes. Os que conseguem se manter equilibrados, no alto do topo, passam para a História com a fama de estadistas. É a glória! Os que perdem o controle acabam isolados, sem correligionários, ostentando em sua testa o carimbo de chatos, desagregadores, loucos, teimosos. Nunca se conformam com isso. Mas não se pode negar. Com sua intrepidez, são eles que tornam a política emocionante ou desprezível, ao expor todas as suas mazelas. Com ACM e com políticos da sua classe não existe meio termo. É ou oito ou oitenta. Preferem ser amados ou odiados. Os senadores acusam ACM de falta de decoro parlamentar e ameaçam cassar seu mandato. O presidente Fernando Henrique reclama de traição e, bem ao jeito toma-lá-dá-cá, demite os dois ministro (Minas e Energia e Previdência Social) que estão sob a sua influência. O PFL da mamata ameaça deixá-lo falando sozinho e apoderar-se dos cargos que antes estavam sob seu controle. E a oposição anda colérica com a insinuação de que a senadora Heloísa Helena teria votado contra a cassação do mandato do ex-senador Luiz Estêvão, revelação que se configuraria em quebra de sigilo de voto. Mesmo contrariada, estende a mão ao cacique baiano, numa aliança de conveniência para esculhambar o governo de Fernando Henrique, na tentativa de provocar o maior desgaste possível para tirar proveito eleitoral. Afinal, as eleições de 2002 vêm aí. O governo arma-se com unhas e dentes para impedir qualquer investigação que possa comprometê-lo ao ponto de tragá-lo para o olho do furacão. Desta forma, só tem conseguido demonstrar que tem culpa no cartório. Com o diálogo das fitas vindo à tona e confirmando que o senador afirmou ter em mãos uma lista com o voto de cada senador na votação secreta que cassou o mandato de Luiz Estêvão, ACM corre o sério risco de perder o mandato. O crime é grave. Traiu a confiança de todos e quebrou as regras do sistema. Dizem as boas e más línguas da Esplanada que "ACM está encurralado", "ACM acabou". Ou recua de suas denúncias, põe o rabo entre as pernas, o que não é do seu feitio, e volta à planície desmoralizado, ou vai em frente, enfrenta todo mundo, prova que existe corrupção no governo, ou só lhe restará renunciar ao mandato, recolhendo-se ao seu curral na Bahia e abrindo vaga para que seu filho mais velho assuma sua cadeira no Senado. Entretanto, não é isso o que se vê. ACM continua sendo o centro das atenções. Está no ataque. Sabe se comunicar como poucos, embora o mito de grande pauteiro da mídia esteja em xeque diante das últimas besteiras que cometeu. A bola está com ele. O jogo ainda não terminou. O Brasil inteiro aguarda o próximo lance. ACM é o Deus e o Diabo na Terra do Sol. |
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