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O mundo se sentiu maravilhado e ao mesmo tempo chocado quatro anos atrás, quando cientistas escoceses anunciaram o primeiro clone de um animal, o da ovelha Dolly. De lá para cá, a corrida desenfreada para copiar outros animais parece não ter fim. Já foram clonados macacos, ratos, porcos, cabras, bezerros e outros animais. Cientistas americanos estudam criar bichinhos de estimação renováveis. Considera-se apenas uma questão de tempo para que algum maluco revele o clone do primeiro ser humano. Mas uma reportagem devastadora do The New York Times, publicada no dia 25 de março, põe em dúvida a segurança da clonagem. Animais estariam nascendo "com problemas de atraso no desenvolvimento do organismo, defeitos cardíacos, problemas pulmonares e disfunções do sistema imunológico". Alguns clones de ratos se desenvolveram bem até uma certa idade e, de repente, começaram a ficar obesos. Até mesmo a ovelha Dolly foi obrigada a fazer dieta para não perder a forma. Outros clones de vacas nasceram com órgãos hipertrofiados. Em artigo escrito para a revista Science e reproduzido pelo jornal Folha de São Paulo no último dia 30 de março, Ian Wilmut, pesquisador do Instituto Roslin (Escócia), onde foi clonada a ovelha Dolly, e Rudolph Jaenisch, pesquisador do Instituto Whitehead, no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), atacam a intenção de cientistas de clonar bebês em um ano e admitem: "a clonagem animal é ineficiente e provavelmente continuará assim no futuro próximo". Segundo eles, "a maior parte dos procedimentos de clonagem resulta em falhas de desenvolvimento que se manifestam durante a gestação ou no período pós-parto. Na melhor das hipóteses, uma pequena porcentagem dos embriões de transferência nuclear sobrevivem até o nascimento e, desses, muitos morrem no período perinatal". Fui ouvir Rodolfo Rumpf, 41 anos, coordenador do Projeto de Biotecnologia da Reprodução da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), responsável pela primeira clonagem de um animal no Brasil, a bezerra Vitória, nascida a partir de células embrionárias. Ele concorda. A clonagem não é um processo seguro, por enquanto. "Nunca é possível garantir risco zero em biologia. Precisamos nos cercar de técnicas que permitam o seguro desenvolvimento de uma determinada tecnologia de ponta", diz. Segundo ele, animais clonados podem apresentar problemas de obesidade e de expressão gênica, o que, na maioria dos casos tem muito a ver com o sistema de cultivo dos embriões. Vitória é uma bezerra perfeita? Aparentemente, sim. "É uma bezerra grande. Nasceu de parto normal e tem um enorme apetite", afirma. Rumpf avisa, no entanto, que não tem como garantir que a bezerra vá crescer saudável. Vitória nasceu com 50 quilos, "um pouco acima do normal por ser uma fêmea", mas dentro dos limites de tolerância da raça. "Ainda não sabemos tudo sobre ela. Vamos explorá-la. A Vitória será um grande laboratório. Nada garante que ela não vá morrer dentro de 40 ou 50 dias. O amadurecimento do sistema imunológico ainda está para acontecer", explica. A técnica de clonagem utilizada em Vitória, classificada num estágio anterior ao da Dolly - em que o material genético veio de uma célula adulta - mostra-se um pouco mais confiável. Entretanto, como na maior parte dos casos de manipulação genética, é comum que apresente algum tipo de disfunção. "Alguns anos atrás, o próprio embrião da fecundação in vitro, o bezerro de proveta clássico de laboratório, também apresentava problemas de peso. Hoje, as coisas melhoraram muito. Um estudo feito na Holanda, mostra que entre 1.200 animais, não houve diferença estatística em relação àqueles concebidos por inseminação artificial e àqueles originados por transferência de embriões", compara. Clone do clone - Se Vitória for realmente uma bezerra estável geneticamente, os técnicos da Embrapa admitem usá-la não apenas como laboratório, mas como doadora de núcleo para futuras experiências de clonagem. Não está descartada hipótese de um clone do clone de Vitória. A possibilidade existe, "embora muitos animais comerciais que estejam sendo multiplicados por aí apresentem uma instabilidade genética muito grande, independente de serem produzidos por monta natural ou inseminação artificial". São animais que, em algum momento, foram submetidos a algum tipo de estresse, envenenamento ou irradiação de ambiente. O vírus entrou lá e se inseriu no DNA. Logo, esses animais possuem uma tendência maior de contrair doenças diversas. O clone de Vitória vai depender de como ela se comportar daqui por diante. "Caso não demonstre nenhuma anomalia, não vejo nenhum problema", diz o pesquisador da Embrapa. Fora de controle - Uma reportagem da BBC de Londres que foi ao ar no final de março sustenta que a clonagem é um processo sem controle. Diz também que a técnica se disseminou com rapidez e já é dominada por países menos desenvolvidos, como é o caso do Brasil, colocando-a em risco, com o que Rumpf discorda solenemente. Para ele, as principais técnicas já foram patenteadas e hoje existe um compromisso claro de respeito a essas técnicas na grande maioria dos países. O que tem causado mal-estar generalizado na sociedade é o desejo manifesto de dois especialistas em fertilidade, Panayiotis Zavos, do Instituto de Andrologia, em Lexington, Kentucky, e Severino Antinori, médico de fertilidade de Roma, de clonar seres humanos. A clonagem de animais no Brasil ainda não foi regulamentada, lembra o médico veterinário da Embrapa, formado pela Universidade Federal de Pelotas e com doutorado pela Universidade de Medicina Veterinária de Viena, na Áustria. O País, lembra ele, só possui legislação para controlar a produção de transgênicos, "uma das mais rigorosas do mundo". Para controlar a produção de clones em todo o mundo, Rumpf defende a criação de um organismo internacional, a exemplo da OMC (Organização Mundial do Comércio). É preciso impor limites? Na opinião de Rodolfo Rumpf, não. "O progresso da ciência não deve ser bloqueado. O que temos de fazer é com que ele seja regulamentado, que a sociedade tenha seus mecanismos de controle", acrescenta. Clonagem é como a tecnologia nuclear, compara. Ela está aí. Se é bem ou mal utilizada depende de quem a conduz. "Não podemos, por isso, deixar de fazer as coisas", rebela-se. Economicamente inviável - Células hoje produzidas em laboratório podem substituir células doentes. É algo fantástico do ponto de vista da ciência e do benefício ao ser humano. Em termos comerciais, a clonagem de animais ainda é inviável. As chances de reprodução são baixas e estão muito além do custo-benefício exigido pelo setor produtivo. No caso da bezerra Vitória, de 15 embriões transferidos para o núcleo materno, apenas um deu certo - um percentual pouco superior a 6%. "É preciso avançar muito para melhorar esses índices e viabilizar a exploração comercial. Pode demorar de quatro a cinco anos para que a clonagem clássica a partir de células embrionárias esteja a disposição dos produtores", avalia Rumpf. Ele, porém, não tem dúvidas que os genes serão uma moeda forte no futuro. Salvar animais ameaçados de extinção - A clonagem de animais entrou na agenda da Embrapa há 10 anos. Mas só agora é que virou prioridade. Tanto é que a clonagem vegetal está bem mais adiantada. Desde 1983, a empresa está montando um banco genético de raças ameaçadas de extinção, o BGA (Banco de Germoplasma Animal). São várias espécies de animais introduzidas no País desde a época do descobrimento, como a dos bovinos lageano, pantaneiro e curraleiro, a dos equinos lavradeiro e campeiro, a dos asininos jumento brasileiro e nordestino, e outras raças de bubalinos, caprinos, ovinos e suínos. A primeira etapa já está cumprida. O sêmen dessas espécies está armazenado em botijões de nitrogênio líquido. Bem conservados, podem durar dois mil anos. Agora, é preciso tirar esse material do banco e trazer de volta aos rebanhos. "Esperamos, com a clonagem, recuperar alguma coisa do que já perdermos", acredita Rumpf. Ele garante: "nossa motivação inicial sempre foi a regeneração do banco genético". |
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