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Bové chique e de saias A comparação pode parecer exagerada e, para alguns, injusta. Mas quando a prefeita Marta Suplicy anunciou a intenção do seu governo de introduzir o ensino da língua francesa nas escolas da periferia de São Paulo ela imitou o ativista francês José Bové, aquele que ficou conhecido em todo o mundo por depredar uma loja do McDonald's en Millau, sul da França, e ajudar o MST a destruir uma plantação de soja transgênica da Monsanto, em Não-Me-Toque, Rio Grande do Sul, durante o Fórum Social Mundial. O camponês criador de cabras, que ganhou o apelido de novo Asterix, por seus bigodes ao estilo do célebre personagem cômico da história em quadrinhos, se tornou notável ao liderar protestos contra as sanções aduaneiras impostas pelos Estados Unidos aos produtos franceses, como o queijo Roquefort, por exemplo. Como sindicalista, líder de uma Confederação que reúne 40 mil campesinos, ele procurava atingir, ao eleger como alvo uma loja da rede McDonald's, um dos símbolos do imperialismo econômico dos Estados Unidos, presente hoje na maioria dos países, inclusive na China comunista. Ao aparecer em Seattle, participando dos protestos barulhentos contra a Organização Mundial do Comércio, Bové queria, mais uma vez, chamar a atenção do mundo para a os efeitos perversos da globalização. E quando surgiu em Porto Alegre, durante o Fórum Anti-Davos, ao lado de João Pedro Stédile, líder do MST, arrancando pés de soja transgênica da Monsanto, novamente transmitiu seu recado, ao mirar os protestos contra uma empresa que simboliza a manipulação da engenharia genética e o monopólio mundial da produção de sementes. E daí, o que Marta Suplicy tem haver com tudo isso? Afinal, ela é mulher chique, vinda da elite paulistana, e em nada se identifica com os métodos rudes do ativista francês! A semelhança entre ambos está na simbologia dos seus gestos. Marta Suplicy foi passar o Carnaval em Paris. Reuniu-se com empresários, políticos do Partido Socialista e com o primeiro-ministro, Lionel Jospin. Foi um encontro da esquerda chique de São Paulo com a esquerda chique de Paris. No auge do encontro, eis que a prefeita paulista anuncia que as escolas públicas do município adotariam o francês como segunda língua em seu currículo. Logo o francês, língua com pouca ou sem nenhuma identidade patente com a realidade brasileira! Que servirá tão somente para dar acesso à cultura daquele País e à história da Revolução Francesa no original. Ou, então, para que algum iluminado tire o título de doutor pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, de Paris. Com esse gesto, Marta Suplicy tentou, a seu modo, não só agradar a elite da esquerda européia, mas marcar um contraponto à universalização do inglês, língua que representa hoje o domínio do capitalismo, todo o poder dos impérios político e econômico dos países desenvolvidos, capitaneados pelos Estados Unidos, e das grandes corporações transnacionais, a insígnia maior da globalização. Está, sim, a imitar Bové. Não faz nenhum sentido ensinar francês em nossas escolas quando a língua falada em todo o mundo é o inglês. Será perda de tempo e de dinheiro. Não há professores suficientes. O francês pode ser uma língua que desperta um certo glamour (na boca das mulheres, é sedutor), entretanto, é um idioma que tem pouco espaço. A linguagem dos homens de negócios e dos líderes mundiais é o inglês. A linguagem dos computadores, dos sistemas operacionais, e do admirável mundo novo da Internet é o inglês. A linguagem global das novas conquistas da ciência, da tecnologia e das viagens de turismo é o inglês. Até as nações orientais já se renderam ao inglês como língua universal. Para que as descobertas do projeto Genoma, da Fapesp, pudessem ser conhecidos pela comunidade científica internacional, foi preciso traduzi-las para o inglês. Nem que a iniciativa tenha apoio do governo francês. Não importa. Os filhos da elite paulistana aprendem a falar e a escrever inglês desde pequenos, a partir do maternal, para perder o sotaque. Como todos sabem, o sotaque é um fator de distinção social. Quem arranha o inglês e viajou para os Estados Unidos ou para a Inglaterra - e também para outros países do mundo - já percebeu isso. Além de se comunicar mal, é visto com desconfiança. Se os filhos da elite paulistana têm direito a aprender inglês sem sotaque, por que os filhos de pobres, que estudam nas escolas públicas, terão de aprender mal e inutilmente o francês, uma língua subutilizada? Com certeza não será para viajar a Paris no Carnaval e falar francês sem sotaque. Nada contra o ensino de francês. Não devemos ser contra a pluralidade. Quanto mais línguas o brasileiro falar, melhor. Pode até ser uma disciplina opcional, não obrigatória. Assim, quem não quer não faz. Contudo, é preciso usar o pragmatismo e estabelecer prioridades. O cérebro humano e o tempo de uma criança têm limites. Priorizar o ensino de francês nas escolas públicas hoje é privilegiar o acessório e se esquecer do fundamental. Para se inserir não apenas no mercado, mas também na sociedade mundial, é imprescindível saber falar e escrever o inglês. Para ser um cidadão do mundo, é preciso saber o inglês. Propostas como a da prefeita Marta Suplicy, de São Paulo, e a do ministro Francisco Weffort, da Cultura, que quer o latim de volta às salas de aula nos ensinos fundamental e médio, devem ser respeitadas. Entretanto, não devem ser levadas ao pé da letra. Só se a educação estiver transbordando em dinheiro, o que, evidentemente, não é o nosso caso. Assim como o francês e o latim, não podemos levar tão a sério o compromisso assinado entre os governos do Brasil e da Espanha de priorizar o ensino de espanhol nas escolas. Para quê? Para continuarmos excluídos dessa grande aldeia global? Tudo bem. Estamos cercados de países que falam o espanhol. A comunidade hispânica cresce nos Estados Unidos. Com exceção dos heterosemânticos, existe muita semelhança entre o espanhol e o português. Ponto. Depois do inglês, o espanhol seria uma opção e tanto. Antes ainda do francês. Acontece que, por lei - esta é uma situação absurda, porém verdadeira - as escolas não têm obrigação de oferecer ensino de língua estrangeira. O artigo 26 da LDB diz que "os currículos do ensino fundamental e médio devem ter uma base nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela". O parágrafo 5º desse artigo determina que "na parte diversificada do currículo será incluído, obrigatoriamente, a partir da quinta série, o ensino de pelo menos uma língua estrangeira moderna, cuja escolha ficará a cargo da comunidade escolar, dentro das possibilidades da instituição". Veja bem, o texto diz taxativamente: "dentro das possibilidades". Como se sabe que a maior parte das escolas vive à míngua, mal ensinam o português, essa obrigatoriedade entre aspas não vem a ser cumprida em todos os cantos do País. É, mas alguém pode dizer que a proposta de adotar oficialmente o inglês como a segunda língua dos brasileiros é arrogante e contraria, inclusive, os princípios da autonomia escolar consagrados na LDB. Pode ser. Nadar contra a maré e queimar dinheiro público em nome da diversidade, para marcar posição ou satisfazer vaidades, também. |
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