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Por maior que seja o esforço de seus dirigentes e professores, a escola pública, com raríssimas exceções, tem se revelado incapaz hoje em dia de despertar o interesse dos alunos. Uma pesquisa com jovens que freqüentam a rede estadual de ensino no Rio de Janeiro, coordenada pela a socióloga Miriam Abramovay, indica que o desinteresse e a indisciplina são reconhecidos pelos próprios jovens cariocas como os maiores problemas das escolas atualmente. A pesquisa foi feita em 89 dos 111 estabelecimentos de ensino que participam do projeto Escolas de Paz, da Unesco, em parceria com o governo do Rio de Janeiro e a Uni-Rio. Foram entrevistados 11.560 alunos dessas escolas. As Escolas de Paz abrem aos sábados, domingos e feriados para o desenvolvimento de atividades culturais, de esporte e lazer por parte da comunidade. Para 77,7% dos estudantes entrevistados, o desinteresse é o problema mais comum das escolas, seguido da indisciplina, com 58,4% das respostas. O terceiro maior problema é a falta de livros, vídeos e computadores, apontado por 50,1%, e a gravidez de adolescentes, que recebeu 34,2% das menções. Coincidentemente, os diretores também consideram o desinteresse dos alunos e a gravidez precoce como os maiores problemas das escolas por eles administradas. Alunos e diretores só divergem num ponto: enquanto para os primeiros faltam professores ou estes estão despreparados, para os últimos a falta é de pessoal de apoio. Por que tanto desinteresse e tanta indisciplina? "Esses resultados trazem à discussão o processo de culpas e responsabilizações freqüente na educação, expressão de um conflito que é histórico. Educadores são responsabilizados pelo fracasso escolar e, por sua vez, responsabilizam os alunos e suas famílias. Alunos se reconhecem sem interesse e causadores de problemas de disciplina, sem que nenhuma das partes tenha condição, pelo diálogo, de buscar outras formas de convivência que respeitem a diversidade de interesses", explica a socióloga. Na minha opinião, os jovens não podem ser culpados da omissão dos pais e das escolas. O pai e a mãe, num primeiro momento, têm a obrigação, não só por um dever familiar, mas também constitucional, de assumir a educação dos filhos. Porém, quando não conseguem atingir esse objetivo, caberia à escola cumprir com a sua parte. Não é o que acontece. Diretores e professores lavam as mãos e fingem que o problema não existe, esquecendo-se que do portão para dentro, é a escola que deve buscar meios de "prender a atenção" dos alunos. Se a escola é incapaz de provocar estímulos em seus alunos, o que se dirá então do aprendizado? Criatividade é a palavra-chave para tirar a escola pública do marasmo em que se encontra. E, nesse contexto, o projeto Escolas de Paz é um exemplo. Ele rompe aquela redoma de vidro que tem colocado a escola, na maioria das vezes, como lugar proibido para a comunidade que vive ao seu redor. A pesquisa da Unesco aponta ainda que a TV e a religião são o ópio dos jovens cariocas. Nada menos que 88,3% dos jovens dizem que passam o tempo livre na frente da televisão e 54,2% indo à igreja. É grande também o percentual dos que preferem a música e a casa dos amigos. Mas impressiona como a religião ocupa boa parte do tempo desses jovens. Os encontros religiosos são a atividade mais comum em 80% das escolas que participam do projeto da Unesco. A seguir vem o futebol, presente em 66% das escolas. "A quase totalidade dos jovens afirma acreditar em Deus e, ainda, estar ligada a uma religião - evangélica, católica, kardecista, espírita e até messiânica. Muitos já freqüentaram várias delas e outros filiam-se a religiões diferentes das de seus pais", afirma Miriam Abramovay. Outro dado que chamou a atenção dos pesquisadores é que 13,8% dos 11.560 jovens cariocas que estudam nas Escolas de Paz dizem morar sozinhos, sem pai nem mãe. Esses jovens são os mais expostos à violência. Aliás, um dos objetivos do projeto Escolas de Paz é reduzir os elevados índices de violência entre os jovens de 15 a 24 anos no Rio de Janeiro. O número de homicídios nesta faixa etária cresce de 50% a 70% aos sábados, domingos e feriados, quando as escolas estão fechadas e os jovens, sobretudo da periferia, não têm espaço de lazer. "A idéia básica é retirar os jovens do ambiente de violência, que são as ruas, e levá-los para um ambiente de paz: a escola", afirma o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, da Unesco. Segundo ele, "a escola é o melhor aparelho de proteção social". No Rio, de acordo com o Mapa da Violência II, elaborado pela Unesco e o Ministério da Justiça, a taxa de homicídio por grupo de 100 mil habitantes é de 141,1 para os jovens de 15 a 24 anos, mais do que o dobro da taxa para a população total, que é de 62,6. Os jovens respondem por 52% das mortes violentas ocorridas na cidade. A pesquisa sobre as Escolas de Paz mostra que o projeto caiu no gosto dos jovens. A maioria dos entrevistados (62,9%) considera que a abertura das escolas nos fins de semana colabora para a redução do uso de drogas e de bebidas alcoólicas e da violência em geral. Um número ainda maior, 66,9%, vê a escola como um espaço de socialização, onde se pode ir para encontrar os amigos. Para 93,8% dos entrevistados, o projeto facilita as relações entre a escola e a comunidade. Outros 91,2% acreditam que o projeto oferece alternativas de lazer para o jovem e 84,7% que o espaço cria laços de solidariedade entre os participantes. É um bom começo. De olho no potencial das Escolas de Paz na sociabilidade dos jovens e na luta contra a violência, a Unesco quer ampliar o projeto. Até o final do ano, em todo o País, serão 1.000 escolas que abrirão suas portas para a comunidade sete dias por semana, 300 delas no Rio de Janeiro. O Representante da Unesco no Brasil, Jorge Werthein, diz que vai procurar os secretários estaduais e municipais de educação para "vender a idéia". O Ministério da Educação também está nos planos. Ele promete ainda correr atrás dos empresários, para convencê-los de que as indústrias que possuam espaços recreativos e esportivos nas proximidades de áreas carentes abram nos finais de semana para a participação comunitária. As universidades e os quartéis do Exército também serão convocados a se engajar no programa. Educadores dizem que não existe solução mágica para os problemas do ensino público. Mas alternativas como a das Escolas de Paz são uma luz no fim do túnel. O representante da Unesco conta que até agora, depois de um ano de experiência, não houve nenhum incidente grave nas escolas abertas à comunidade no Rio de Janeiro, algumas delas em locais controlados pelos traficantes de drogas. A comunidade, quando respeitada, se sente parte integrante da escola e ela passa a ser vista como um patrimônio de todos, que deve ser preservado. Um certo domingo, relata, três "olheiros" do tráfico quiseram entrar armados numa dessas Escolas de Paz para ver o que acontecia lá dentro. Os monitores só liberaram a entrada quando os jovens entregaram as armas. Para surpresa de todos, eles ficaram o dia inteiro envolvidos com as atividades e, por um momento de descontração, esqueceram do seu "ofício". Para que esses jovens larguem definitivamente as armas, no entanto, será preciso, algo mais. Suas escolhas dependem de uma escola melhor. |
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