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"Infoexclusão" ameaça Internet no Brasil e na AL A temporada é de notícias de demissões e cancelamento de investimentos na Internet, no Brasil e em outros países. As explicações são mais ou menos óbvias. Primeiro, houve exagero de expectativas e de dimensionamento. Segundo, novas tecnologias são caras e demoram mais para se desenvolver em sociedades pobres. Terceiro, o cenário mundial, hoje, é de redução no crescimento econômico e, nesse contexto, nem a nova economia escapa. Menos óbvia é a percepção de que a esse esfriamento da iniciativa privada não deveria corresponder, necessariamente, um encolhimento da iniciativa pública. Ao contrário: parecem crescer as discussões sobre formas comunitárias de utilização da Internet. Isso significa também que as formas de medida de audiência tendem a ser cada vez mais difíceis: uma coisa é fazer estimativas sobre usuários únicos (ou "visitantes únicos", na terminologia da Media Metrix), outra coisa é lidar com um mundo em que proliferam os cybercafés, os telecentros, o uso de Internet em escolas, centros comunitários, bibliotecas públicas ou centros de saúde. No lugar de "business plans" (planos de negócios), um mundo de maior difusão de usos públicos e coletivos da Internet exigirá estratégias de formação de comunidades, entendimento de práticas institucionais, desenho de arquiteturas multiusuários. No lugar de gigantes da mídia, podem surgir mais organizações comunitárias, sociais, locais. No lugar de portais, núcleos voltados a interesses e utilidades mais localizadas e tópicas. A ideologia predominante há dois anos, no entanto, difundiu a noção de que cada adolescente seria o bilionário do futuro, de que qualquer um poderia criar seu negócio online e escapar de limitações da velha economia. Em alguns países, ganha força a consciência de que a Internet não é um assunto apenas privado, que só diga respeito a jovens que abandonam MBAs ansiosos para apresentar "business plans" para investidores. Em todo o mundo, a construção de novas redes de comunicação é vista como parte de um programa bem mais amplo de construção de uma sociedade "da informação" ou "do conhecimento". Isso exige novas políticas industriais e tecnológicas, novas relações entre os sistemas educacional e empresarial e gastos públicos para levar a rede ao maior número de pessoas. No Brasil, a criação de fundos com esse objetivo ficou empacada por muito tempo no Congresso, tamanha é a força do lobby das prestadoras de serviços de telecomunicações. É óbvio: quanto menos infra-estrutura pública, quanto menor a universalização do acesso, maior o potencial ou a expectativa de vendas de produtos e serviços de telecomunicações por parte das empresas privadas. Resultado: a política de universalização de acesso no Brasil está parada e os fundos para investir nessa área surgem mesmo, na melhor das hipóteses, no final desse ano. Um "policy paper"
alertando para esses riscos, no Brasil, acaba de ser publicado pela Friedrich
Ebert Stiftung. O trabalho foi escrito por Carlos A. Afonso, co-fundador
e ex-diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas
(o Ibase, do Betinho). Afonso foi o idealizador do primeiro provedor de
serviços Internet no Brasil e atualmente é diretor da Rede
de Informações para o Terceiro Setor (Rits). O Brasil é de longe o pior colocado em números per capita de usuários, computadores pessoais, linhas telefônicas e servidores Internet entre as nove maiores economias do mundo. Os circuitos que conectam os provedores de serviços à Internet estão entre os mais caros do mundo. Não há no país um plano para implantar mecanismos efetivos e abrangentes de democratização de acesso, como conexão maciça de escolas públicas, programas de treinamento básico etc. Um amplo programa poderia ser realizado em dois anos gastando menos de 0,2% do PIB, mas não há estudos de viabilidade para isso. Quanto à América Latina, Afonso alerta para o fato de que a região é a única que ainda não dispõe de uma iniciativa comum voltada à interconexão. O risco maior é o da "infoexclusão". O Brasil foi pioneiro com relação à Internet mas, como já ocorre em outras áreas da "velha economia", corre o risco de ser retardatário quando se trata da questão social. Leia o relatório completo preparado por Afonso em www.fes.org.br
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