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O casamento entre universidade e empresas pode render bons dividendos para todos os segmentos da sociedade. É o que acontece em todo o mundo e o que começam a descobrir pesquisadores e empresários tupiniquins que trabalham lado a lado no cluster de biotecnologia de Minas Gerais. Ali está se consolidando um dos maiores parques de tecnologia da América Latina, alimentado por pesquisas aplicadas desenvolvidas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). São 58 empresas de pequeno e médio porte de onde estão saindo soluções inovadoras nas áreas de farmácia, diagnóstico, veterinária, biomatéria, entre outras. No ano passado, elas faturaram, juntas, R$ 416 milhões. Muito pouco frente aos US$ 14,5 bilhões que as indústrias de base tecnológica movimentam em todo o País. Só que em apenas um ano elas registraram um crescimento de 49%. Sim, 49%, enquanto a indústria nacional comemora em altos brados a expansão recorde de 6,5% no ano passado. E a expectativa é de o cluster tecnológico mineiro atrair US$ 100 milhões de investimentos nos próximos dez anos. A formação e consolidação do pólo tecnológico exigiu mudança de mentalidade de todos os lados. O processo se acelerou com a decisão da UFMG de dar prioridade às pesquisas aplicadas relacionadas às necessidades do desenvolvimento e do mercado regionais. Professores e alunos, por sua vez, formaram a nata do novo empresariado, para quem a união é o resultado natural de um longo namoro, que começa nos campi das universidades. Todos ganharam. Apenas na área de biotecnologia, a UFMG publicou mais de 4,8 mil trabalhos em dois anos. E registrou 31 pedidos de patentes de invenções no Brasil e sete no exterior. Os empresários, por sua vez, criaram o projeto Biominas, uma espécie de "fábrica" de empresas de base tecnológica, que ajudou a estruturar cerca de 50 das 58 indústrias de pequeno e médio porte que formam o cluster, instalado em Belo Horizonte e em outras sete cidades existentes em um raio de 150 quilômetros da capital mineira. Um dos empresários envolvidos no projeto Biominas é o geneticista Sérgio Danilo Pena, professor da UFMG e um dos participantes do Projeto Genoma. Pena também pilota o mais moderno laboratório privado de genética do País, o Núcleo de Genética Médica (Gene), o primeiro a realizar testes de DNA em território verde-amarelo. Outro é Guilherme Emrich, um dos sócios da Biobrás, a única fabricante de insulina com capital e tecnologia genuinamente nacionais. A empresa conseguiu, inclusive, patente nos EUA para a produção do medicamento. Implantada há 30 anos em Montes Claros, a empresa fatura US$ 30 milhões/ano e suas ações registraram uma valorização de mais de 1.500% na Bovespa desde o início do Plano Real. A empresa serviu como exemplo para outras que nos últimos anos se instalaram em uma área de aproximadamente 250 mil metros quadrados, envolvendo as cidades de Lagoa Santa, Nova Lima, Itabira, Ribeirão das Neves, Santa Luzia, Sabará e Sete Lagoas, além da capital, Belo Horizonte. Tanta movimentação não poderia passar em brancas nuvens. A Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) encomendou um estudo à consultoria internacional McKinsey, que identificou a oportunidade de desenvolvimento de um cluster biotecnológico na região, a exemplo do que aconteceu nas áreas de San Francisco, Los Angeles ou Nova Jersey. Diante do diagnóstico, o pólo tecnológico foi incluído no projeto Crescer Minas, da Fiemg, que procura atrair investidores internacionais. Com boas chances de sucesso. Afinal, se as empresas de Internet tropeçam nas próprias pernas, as de biotecnologia continuam brilhando firmes nos céus da Nova Economia. E o Brasil conta com um trunfo adicional: conseguiu chamar a atenção de pesquisadores em todo o mundo com o mapeamento do genoma da Xylella fastidiosa, bactéria causadora da praga do amarelinho, que ataca os laranjais paulistas e provoca um rombo de R$ 180 milhões ao ano no bolso dos plantadores. O trabalho feito pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) ganhou capa da revista britânica Nature, uma das bíblias do mundo científico. E rendeu para os pesquisadores uma encomenda do Departamento de Agricultura americano, que pediu aos brasileiros para estudar uma bactéria semelhante, que arrasa os vinhedos da Califórnia. O trabalho teve o mérito, ainda, de tornar claro para todos que só pesquisadores locais vão se preocupar e se empenhar na solução de problemas locais. Chamando a atenção de outros pesquisadores e, claro, de investidores interessados no desenvolvimento da biotecnologia. Que está longe de ser mero sinônimo de transgênicos, assunto capaz de despertar paixões. A favor e contra. Como sabem muito bem a Monsanto e a Novartis.
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