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União de forças Que tipo de energia teremos no século 21? O jovem pesquisador americano Seth Dunn, da ONG Worldwatch Institute, tem publicado trabalhos sobre essa questão. E é para enfrentá-la novamente que ele foi convidado a participar do Renova - Workshop sobre Energias Renováveis, promovido pelo governo da Bahia de 7 a 9 de novembro, em Salvador. Entre Washington e a capital baiana, Dunn fez uma escala em São Paulo e nos antecipou o teor de sua palestra em entrevista exclusiva. Mais que um frio analista, Dunn é defensor assumido de um conceito que vem despertando atenção crescente: a microenergia. Mas que bicho é esse? Nada mais que a geração de energia em pequena escala, a partir de unidades de dimensões modestas (leia também Small is beautiful). Segundo Dunn, há hoje uma tendência de esvaziar o monopólio do modelo atual, baseado em enormes usinas e redes de transmissão extremamente ramificadas, que cobrem grandes distâncias. Esse modelo estaria se esgotando, pois requer obras caríssimas, de financiamento cada vez mais difícil, demoradas e com impactos por vezes muito fortes no meio ambiente. Além de até hoje não ter sido capaz de oferecer a confiabilidade necessária num mundo cada vez mais dependente da energia elétrica (basta lembrar o apagão que levou ao caos uma larga faixa do território brasileiro em março de 1999). A proposta alternativa é descentralizar: em vez de poucas usinas gigantes, muitos geradores menores, de âmbito predominantemente local. Isso significa não só a já razoavelmente difundida geração autônoma - fazendas auto-abastecidas por energia solar, por exemplo -, mas também a alimentação da rede geral com energia de múltipla procedência. Geradores de média potência atendem suas redondezas. A energia eventualmente excedente é transmitida para o local mais próximo onde a geração não estiver dando conta da demanda. O pesquisador enumera algumas das vantagens de um sistema assim: 1) eventuais interrupções de fornecimento são muito menos contagiantes e muito mais fáceis de remediar; 2) a energia viaja menos, diminuindo as perdas das longas distâncias, os custos em infra-estrutura e os riscos de interrupção de fornecimento devido a tempestades, ventos etc.; 3) é mais rápido e barato atender a novas demandas, construindo unidades próximas ao local e na medida de suas necessidades; 4) pode-se conjugar várias fontes de energia, diminuindo a poluição e a dependência do petróleo; 5) como a comunidade está mais próxima de "sua" energia, tem mais poder de decisão sobre ela. Microcrédito Uma das soluções para barateá-las seria a adoção de políticas públicas de microenergia, que estimulariam a injeção de mais investimento nas pesquisas. Ainda em relação ao custo, o pesquisador lembra que o cálculo comparativo não pode esquecer os custos de transmissão e distribuição, que encarecem bastante o modelo centralizado. Por dispensar grandes investimentos não só na construção de novas usinas, mas também em linhas de transmissão, a microenergia é, segundo Dunn, uma opção competitiva para suprir o déficit energético dos países em desenvolvimento, onde há cerca de 1,8 bilhão de pessoas "pobres em energia". Comunidades geograficamente isoladas, por exemplo, podem combinar, conforme as aptidões locais, alternativas como energia solar, eólica (do vento), micro-hidrelétricas (para as quais bastam pequenos fluxos de água) e geradores por combustão que funcionem com combustíveis locais, como a biomassa (matéria orgânica, que pode ser o próprio lixo). Para financiar o investimento inicial no equipamento, muitas vezes caro demais para essas comunidades, alguns países da América Latina, Ásia e África têm recorrido com sucesso a programas de microcrédito. Nicho digital Isso não se aplica apenas às empresas pontocom propriamente ditas, mas também a bancos, hospitais etc. Devido ao seu poder econômico, esse nicho impulsiona os investimentos em tecnologias ainda incipientes, como a célula de combustível e as microturbinas, e na sofisticação e barateamento de outras, como a energia solar. Dunn cita experiências interessantes, como a de um prédio em Nova York que dispõe de células fotovoltaicas (de captação de energia solar) embutidas no vidro das janelas. Ou a de um hotel canadense que gera energia com células de combustível utilizando hidrogênio, processo cujo subproduto é água, pura e quente. Dunn espera, no curto prazo, a participação complementar, mas cada vez maior da microenergia no bolo da energia mundial. No médio prazo, a redução significativa dos investimentos em obras energéticas faraônicas. E no longo prazo, após processo lento e gradual, a aposentadoria das grandes usinas atuais, sobretudo as mais impopulares, por agressivas ao meio-ambiente. Sim, estamos falando das Angras da vida. Mas tudo isso depende do avanço da tecnologia e da manifestação da opinião pública, ainda insuficientemente informada e interessada em discutir esse assunto. "A questão é: Qual o tipo de energia que queremos para os próximos 50 ou 100 anos?", diz Dunn. Para quem não quer pensar tão longe, ele adverte: "No campo da energia, as decisões tomadas hoje terão impacto pelo menos nos próximos 30 anos". Portanto, antes de apagar a luz, pense bem. Para o download do texto "Dimensionando a microenergia", de Seth Dunn e Christopher Flavin, clique aqui Textos do Worldwatch em português: www.worldwatch.com.br. Leia outros artigos de Joelmir Beting em seu site pessoal. |
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