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Sem medo de ser feliz A tendência é mundial: a cada dia cresce a preocupação das pessoas com a aparência e com o próprio bem estar. Mulheres jovens querem parecer ainda mais bonitas. As mais velhas querem parecer mais jovens e saudáveis. E mesmo empedernidos machões, brasileiros inclusive, não se envergonham de dispensar cuidados especiais a cabelos, pele, corpo. Aliás, o crescimento da preocupação masculina com a aparência na última década foi a grande mudança ocorrida no império da beleza, até então um território quase exclusivo das mulheres. Sorte da indústria e dos serviços ligados à área, que se expandem em todo o mundo. No Brasil, batem recordes a cada ano e superam em muito o crescimento do PIB. E mais: o fôlego do setor está longe de se esgotar na corrida por melhores resultados. O futuro é promissor. É o que mostra pesquisa realizada este ano pela Avon Global, líder mundial de venda direta de produtos e artigos de beleza. Mais de 30 mil mulheres de 33 países abriram seus corações para falar de beleza, saúde, condicionamento físico, presença feminina nos negócios e desafios da vida. Os principais resultados mostram que: 1) 85% delas concordam com a frase "a aparência é importante para definir quem eu sou"; 2) 82% afirmam que os produtos de beleza são uma necessidade e não um luxo; 3) 75% dizem estar satisfeitas com o que a natureza lhes deu e nunca fariam uma plástica; 4) 75% confessam se esforçar para ter uma aparência melhor; 5) 75% acreditam que as mulheres mais velhas podem ser mais atraentes que as mais jovens; e 6) 28% afirmam nunca estar satisfeitas com a própria aparência. Isoladamente, esses resultados já deixariam os empresários com sorrisos de orelha a orelha. Mas eles recebem reforços adicionais: as mulheres "se gostam" e se valorizam. No quesito auto-estima, elas também acreditam estar muito bem: 96% dizem possuir alta ou média auto-estima. E, surpreendentemente, se uma fragrância tivesse o dom mágico de mudar o estado de espírito, apenas 9% gostariam de se sentir mais sexy. Elas preferem se sentir mais confiantes (26%); mais refrescantes (18%); mais femininas (15%); mais felizes (13%) e mais leves (11%). Quanto às preocupações com a saúde, o estar acima do peso (36%) só perde para o receio com o câncer da mama/ovário/colo do útero (37%). Anabolizante pra
quê? A indústria de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos deve fechar este ano com um faturamento líquido de R$ 7,5 bilhões, um aumento saudável de 14,5 sobre 1999. Aliás, o setor alinha motivos para estar feliz. Em 1996, cravou uma expansão de 17%; em 97, de 11,5%; em 98, de 6,8%; e em 99, de 11,7%, sempre na comparação com o ano anterior. O círculo virtuoso da "cadeia da beleza", como define Silva, resultou em aumentos das oportunidades de trabalho. Nessa "cadeia" atuavam 1,656 milhão de profissionais no ano passado, crescimento de 134% nesta década. Todos os "distritos" registraram expansão: no ano passado, a indústria oferecia 40 mil empregos diretos, 31,3% a mais em dez anos; as lojas de franquia empregavam 16 mil, 45% a mais; as vendas diretas envolviam 900 mil pessoas, 206% mais, enquanto cabeleireiros, manicures, esteticistas e outros somavam 700 mil, 88% a mais que no início dos anos 90. O invejável desempenho do setor em território tupiniquim é explicado por Silva: 1) a redução do IPI de 77% em 1992 para 20% em 99; 2) muitos estados reduziram o ICMS de 25% para 18%; 3) a estabilidade da economia; 4) a participação da mulher na PEA aumentou de 11% em 1970 para 43% em 99; 5) aumento da exigência social em relação a uma boa apresentação; 6) melhoria dos hábitos de higiene; 7) desenvolvimento de produtos tecnologicamente melhores; 8) queda nos preços dos produtos; 9) crescimento da indústria nacional; e 10) aumento da concorrência com a chegada de novos fabricantes. O crescimento não foi preconceituoso: ocorreu em todas as regiões brasileiras e para todos os tipos de produtos. Por regiões, o setor cresceu, na década, 130,3% na região norte; 108,2% no centro-oeste; 92,4% no nordeste; 88,3% no sul e 55,9% no sudeste. Os produtos de higiene pessoal registraram uma expansão média de 41,2%; os cosméticos, de 137,6%; e a perfumaria, 193,8%, índices de tirar o fôlego. Machões
cheirosos "Acabou o preconceito", festeja Silva. O "fenômeno" também está sendo constatado na Avon, uma empresa voltada para atender ao público feminino. "Em alguns setores, o consumo masculino cresce mais que o feminino", revela Eduardo Bruder, diretor de planejamento estratégico, sem revelar percentuais. Os moçoilos não se limitam mais a comprar cremes e loções de barba. Usam cremes, shampoos e perfumes, estes sim, com fragrâncias especialmente desenvolvidas para eles. "Houve uma mudança na definição dos papéis sociais e no comportamento masculino", arrisca Bruder. É claro que crescimento tão grande também é justificado pelo fato de ocorrer sobre bases relativamente pequenas. A Avon, líder mundial e nacional na venda direta de produtos e artigos de beleza, cravou um faturamento de R$ 1,7 billhão no ano passado, 26% superior ao resultado de 1998. É o segundo maior mercado da multinacional, que atua em 137 países, só perdendo para a matriz norte-americana. Na década, a empresa cresceu, em média, 10% ao ano. Bruder guarda a sete chaves as expectativas da Avon para 2000, mas afirma estar seguro que a expansão será maior que a registrada no setor, a exemplo do que ocorreu nos últimos anos. As 1.157 indústrias instaladas no País não têm planos ambiciosos apenas para o mercado interno. "O Brasil tem tudo para liderar as exportações na América Latina", justifica João Carlos Basílio da Silva. Em 1999, as vendas no comércio internacional representaram US$ 100 milhões - US$ 52 milhões para o Mercosul, US$ 33 milhões para outros países da América Latina e US$ 14 milhões para outros destinos. A meta é chegar a 2010 exportando US$ 700 milhões. Repaginando o corpo
O presidente da entidade, Luiz Carlos Garcia, diz que vários motivos explicam o crescimento: 1) mudança nos padrões culturais; 2) fim dos preconceitos, principalmente entre o público masculino; 3) refinamento dos instrumentos, próteses e técnicas; 4) tempo de internação menor; 5) custos menores; e 6) facilidades oferecidas para o pagamento. O segmento também deve continuar em franca expansão. "A tendência é de o número de cirurgias crescer a uma média de 30% ao ano", diz Garcia. Perspectiva tão animadora não poderia passar despercebida. Tanto que os técnicos do Banco Central já estudam normas para autorizar e regulamentar a atuação de consórcios de cirurgia plástica. Sim, o assunto já desembarcou no BC a pedido das empresas do setor. Para surpresa da Associação Brasileira das Administradoras de Consórcios (Abac), pesquisa feita no Rio Grande do Sul mostra que há um amplo mercado a ser explorado. O filão também movimenta os hospitais, que perdem feio para as clínicas especializadas no número de cirurgias realizadas, até por trabalhar com preços mais elevados. Um deles é o Hospital São Luiz, em São Paulo, que oferece apenas seis leitos para o sistema "one day" de um total de 212 para as demais clínicas, sem contar a maternidade. "Nossas instalações para a internação por um dia, usada nesse tipo de intervenção, são modestas", reconhece a diretora Vanda Gomes Carneiro. As coisas vão mudar. O São Luiz comprou recentemente uma nova unidade no bairro do Morumbi, onde existem 12 apartamentos de bom padrão para o "one day". Além disso, está revendo sua tabela de custos. Até agora, o hospital não tinha preços diferenciados para as cirurgias associadas, quando dois ou mais procedimentos são feitos de uma vez só. "A maioria das operações plásticas é feita dessa forma e nosso preço ficava muito alto", reconhece Vanda. Agora, o São Luiz está pronto para lançar novo pacote, mais competitivo. Também estão em alta outros procedimentos estéticos, como a aplicação de botox e ácido hialurônico, produtos usados para corrigir pequenas imperfeições sem o uso de cirurgia. Não existem números confiáveis para quantificar esse e outros mercados, como o de academias, vendas de aparelhos para a prática de ginástica em casa, comercialização de próteses, massagistas, clínicas de emagrecimento e bronzeamento, etc. Mas de olhômetro dá para saber que eles também crescem a todo vapor, atendendo pessoas que querem e podem ficar mais bonitas, saudáveis e - por quê não? - mais felizes.
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