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Unanimidade mundial A palavra transgênicos desperta paixões: apaixonados defensores se engalfinham com não menos apaixonados acusadores. Enquanto qualquer tipo de consenso em relação aos alimentos modificados geneticamente está longe de ser alcançado, os orgânicos conseguem uma rara unanimidade. Conquistam espaço na área rural, nas prateleiras dos supermercados e, claro, na mesa de consumidores que não pensam duas vezes em pagar mais caro por produtos que consideram mais gostosos, saudáveis e nutritivos. E com uma vantagem adicional: sua produção não agride o meio ambiente. Os orgânicos avançam em todo o mundo, Brasil incluído. Dados da FAO, órgão das Nações Unidas para a agricultura, e do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos mostram que esses alimentos movimentam US$ 21,5 bilhões ao ano. Estudos da International Trade Center (ITC) indicam que os maiores produtores são os EUA, Europa e Japão, que comercializavam US$ 17 bilhões em 1997 e devem pular, neste ano, para US$ 20 bilhões. A medalha de ouro ficou com o Japão: cresceu de US$ 1 bilhão em 97 para US$ 3 bilhões em 99. A Organic Trade Association estima que o mercado de consumo norte-americano para esses produtos deve continuar crescendo 20% ao ano. Na Europa, caminha com botas de sete léguas: promete aumentar 40% ao ano. O Brasil pegou carona nessa onda. O setor faturou US$ 150 milhões em 1999 e estimativas da Associação de Agricultura Orgânica (AAO) apontam para a cifra de US$ 200 milhões agora em 2000. "O valor produzido ainda não representa nem um por cento do PIB agrícola", explica o agrônomo Ricardo Ceveira, diretor da AAO. "É pouco diante do promissor potencial do mercado". Pesquisa realizada pela FGV em 1996 constatou que o consumo crescia 10% ao ano. Índice que pulou para 24% em 1999, com estimativa de novo salto, de 30%, para 2000.. Levantamento realizado pela AAO mostra que o perfil dos consumidores está mudando. Os alimentos orgânicos não são procurados apenas por "naturebas" ou ecologistas radicais. A procura está aumentando principalmente entre mulheres com idade entre 30 a 50 anos, com alta renda e boa escolaridade, preocupadas em oferecer uma alimentação mais saudável para suas famílias. Esses consumidores estão dispostos a pagar mais pelos orgânicos. Dados do Ibope mostram que em 1998, 68% dos entrevistados aceitavam gastar mais com esse tipo de alimento, enquanto 32% descartavam a possibilidade. Levantamento realizado este ano mostra que a situação está mudando: das 600 pessoas ouvidas, 86,4% estão dispostas a pagar mais caro pelos orgânicos, contra as 13,6% que não aceitam essa condição. Prateleiras cheias A disposição de gastar mais é fundamental para o setor. No mercado externo, esses alimentos são, pela média, 30% mais caros que os tradicionais. Por aqui, essa diferença não raro bate em 100%. Na média, ficam em 50% a mais. O preço no Brasil ainda é muito alto basicamente em função de uma produção pequena e de a maior parte dela, entre 70% a 90%, ser destinada às exportações. O que não impede os orgânicos de ganhar espaços cada vez maiores e mais nobres nas prateleiras das grandes redes de supermercados, quando há alguns anos a comercialização era restrita a feirinhas realizadas pelos próprios produtores. As vendas simplesmente dobraram no último ano em redes como Pão de Açúcar, Extra e Sé Supermercados. O Pão de Açúcar, inclusive, fechou acordo com o Instituto de Biodinâmica (IBD) para analisar a qualidade dos orgânicos recebidos de sete fornecedores, que respondem por mais de 130 itens. Os alimentos receberão um selo de garantia do próprio supermercado. A venda de produtos orgânicos representa 5% do faturamento do setor de hortifrutis do Pão de Açúcar. A rede francesa Carrefour instalou, há quatro anos, gôndolas específicas para os produtos orgânicos em suas lojas. Desde o início, os itens comercializados eram certificados pelo IBD ou pela AAO. Em maio do ano passado, a rede passou a usar o selo "Garantia de Origem Carrefour", a exemplo do que já fazia em outros países. A aceitação foi tão boa que o grupo está cultivando uvas orgânicas em uma fazenda de 140 hectares em Petrolina (PE). Nas prateleiras dos supermercados, a variedade é cada vez maior: envolve café, açúcar, batata, legumes, verduras, frutas, entre outros. "A comercialização dos alimentos orgânicos começa a entrar em uma segunda fase no Brasil", explica o diretor da AAO, Ricardo Ceveira. "Devemos assistir agora ao desenvolvimento dos processados orgânicos, como doces, geléias, pão e vinagre". Chamariz tentador O crescimento do mercado tem estimulado principalmente pequenos agricultores a ingressar no segmento, apesar dos custos e de um fator sem preço, o tempo. Preparar a terra para iniciar esse tipo de agricultura exige pelo menos três anos, tempo mínimo necessário para eliminar do solo resíduos de agrotóxicos e fertilizantes químicos, produtos terminantemente proibidos. "O sistema de produção é totalmente diferenciado, constituindo-se outra forma de fazer agricultura", diz Ceveira. Uso de adubos orgânicos e fertilizantes minerais, manejo ecológico de culturas são algumas das técnicas que o agricultor precisa aprender a dominar para iniciar a produção. Os esforços valem a pena. A Usina São Francisco, de Sertãozinho, no interior paulista, investiu US$ 20 milhões em dez anos para produzir e certificar o Native, sua marca de açúcar orgânico. Desde 1997, quando começou a vender no mercado externo, já conquistou mais de 100 clientes em 20 países. As exportações de 1,6 mil toneladas em 1997 pularam para 12 mil toneladas em 1999 e a empresa pretende conquistar, em um ano, 0,25% do mercado nacional de açúcar, vendendo 10 mil toneladas. A Montecitrus, por sua vez, embarcou 12 milhões de litros de suco integral concentrado de laranja orgânica no ano passado, um crescimento 20% em relação ao anterior. Para este ano, a empresa acredita que conseguirá dar um novo salto, de 40%. Resultados como esses têm incentivado os produtores a aderir à agricultura orgânica. A AAO, que congregava 26 associados em 1996, deve fechar este ano com 400. Estima-se que atuem no setor 3 mil produtores rurais em todo o País, ocupando aproximadamente 100 mil hectares. A maior produção concentra-se nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná e Rio Grande do Sul. É muito pouco quando se olha para o que acontece lá fora. Na União Européia, 107 mil agricultores trabalham com agricultura orgânica em 2,8 milhões de hectares. Nos Estados Unidos, estima-se que a produção de orgânicos ocupe 900 mil hectares e na vizinha Argentina, 380 mil hectares. No mercado interno, apesar do crescimento do mercado, certamente ainda vai levar tempo para grandes empresas, como a Nestlé, começarem a colocar nas prateleiras linhas industriais de alimentos orgânicos processados, a exemplo do que já ocorre no mercado externo.
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