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Antes, o ano-novo do Brasil, para metade dos brasileiros, começava só na Quarta-Feira de Cinzas. Agora, o calendário só pega no tranco para valer a partir da primeira segunda-feira da Quaresma. A ressaca carnavalesca precisa de cinco dias de regeneração coletiva. E tome a remontagem das previsões econômicas gregorianas. Uma cartomancia um tanto quanto desmoralizada nestes últimos anos de economia erradia e nômade. Com seus mercados, suas empresas e seus governos entrechocados por mudanças rápidas e profundas, como nunca se vira na atribulada literatura econômica dos povos. A verdade é que o desenho de cenários econômicos para o Brasil e para o mundo, edição 2002, carrega 25% de análise e 75% de torcida. Com a ressalva de praxe: cenários pessimistas desfrutam de credibilidade gratuita. Os otimistas não são levados a sério. O Banco Central do Brasil, por exemplo, obriga-se a costurar e a divulgar prognósticos até por dever de ofício. A diretoria presidida por Armínio Fraga faz o jogo da transparência. A própria estratégia de estabilização anda a reboque de metas inflacionárias explícitas e não mais de metas monetárias enrustidas. É o que sublinha Armínio Fraga em e-mail a esta coluna. No texto, ele espana o mal-entendido da mídia em relação à nota oficial do FMI sobre o desempenho da economia brasileira. O Fundo admite que metas inflacionárias plurianuais e cautelosamente flexíveis amortecem choques de oferta, desvios de rota e pressões de fora. Foi o que se viu no Brasil 2001, com seu IPCA de 7,7%. Desconfia-se que, sem o regime de metas inflacionárias, adotado em 1998, o mesmo IPCA teria emplacado dois dígitos em 1999 e outro tanto em 2001. Um ano para ser atirado ao lixo da História. Mas a bordo dele ainda deu para segurar o juro real na faixa de um dígito, comemora Armínio Fraga. Para 2002, o Banco Central prefere entregar a bola de cristal ao boletim Focus, levantamento periódico do próprio Bacen sobre o que o mercado vislumbra na cerração do futuro. O mercado, no caso, é constituído por meia centena das maiores consultorias e instituições financeiras em operação no País. A última edição do Focus, divulgada quarta-feira, transporta os cenários do mercado para 2002, desenhados antes do carnaval. Ou antes da estréia do câmbio flutuante na Argentina em transe. Pois é. Será que ainda vamos ter de tomar vacinas contra a sinistrose do vizinho? Para o mercado sondado pelo Bacen, o pior aqui no Brasil realmente já passou. Aposta-se para este Feliz Ano-Novo em PIB de 2,43%, em IPCA de 4,80%, em Selic de 17% e em dólar de R$ 2,55. No câmbio, esse tal de mercado costuma fazer projeções auto-realizáveis. Anote. Cenários azulados são igualmente pintados pelas assessorias econômicas da CNI, da Fiesp e da Fierg - mais próximas da economia real. Com o reparo: daria para ousar uma Selic de 15% a partir de junho. Para 2002, os cenaristas brasileiros acreditam em reaceleração da economia americana e em decantação da labirintite argentina. A primeira, moderada, com direito a stop-and-go. A segunda, dolorosa, sem atrapalhar o Brasil. Já estamos por aqui de problemas e de impasses por nossa própria conta e risco. Este ano, na economia, vamos escapulir do apagão físico da energia elétrica, mas não do apagão mental da sucessão presidencial. |
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